Director João Armando

"Oxalá a educação financeira dos gestores tenha melhorado"

"Oxalá a educação financeira dos gestores tenha melhorado"

O actual momento político "está mais para rir" do que para chorar. Mas a crise financeira "dá um nó na garganta" que apertou, ainda mais, com a Operação Resgate, diz o criador do Mankiko, no dia em que lançou mais um livro do "Imbumbável"

O que é que nos reserva a sua quarta colectânea de cartoons?
Trata-se de uma colectânea dos meus trabalhos publicados em vários órgãos, inclusive no Expansão, durante este "suculento" período entre 2017 e 2018.

Porque optou pelo título "Não quero discutir"?
É uma expressão popular muito interessante pela sua carga irónica: quando alguém diz que não quer discutir, fá-lo exactamente depois de ter dito algo de controverso que daria uma boa discussão! No caso concreto, o conflito silencioso entre João Lourenço e o ex-Presidente, assenta que nem uma luva nessa expressão.

Quase 30 anos depois, ainda sente algum tipo de ansiedade quando publica um cartoon? Porquê?
Sinto sempre. Uma das razões é o impacto que ele vai ter junto do leitor, sobretudo sobre a clareza da mensagem, se é clara, se os símbolos são compreensíveis, e se o humor foi conseguido. E, naturalmente, às vezes, a impressão (só impressão!...risos) de ter ido longe demais, para o nosso contexto!

O Sérgio Piçarra fez o Mankiko ou o Mankiko fez o Sérgio Piçarra?
Acho que um pouco as duas coisas... Não era suposto ser cartunista, mas talvez ele me tenha convencido a ser.

E se algum dia o chapéu do Mankiko voar, o que fará o Sérgio Piçarra?
Bem...espero que não! Mas se acontecer, teria de ir apanhar o chapéu e colocá-lo na cabeça de um outro personagem, ou na cabeça de uma outra actividade, relacionada com o desenho, com a banda desenhada ou com o design gráfico, que são as coisas que sei fazer. De resto, estou a pensar ainda - ainda, repare bem - em fazer uma licenciatura em Belas Artes... Portanto, trabalho não deverá faltar.

Nesta "nova Angola", o Mankiko poderá deixar de ser "imbumbável" [que detesta o trabalho]?
E, nesse caso, que profissão escolheria? A profissão dele é ser"imbumbável". Isso dá-lhe um leque de oportunidades de "trabalho" únicas. Mudar para quê?

Os seus cartoons retratam personalidades e acontecimentos da vida do País. Já sofreu algum tipo de pressão? Qual?
Nunca sofri pressões. Não que eu me tenha apercebido. Agora, há situações nada agradáveis que aconteceram como por exemplo, em 1994, ter sido dispensado do Jornal de Angola por causa de um cartoon, para nunca mais voltar ( pelo menos até agora). Ou o caso de um grande supermercado da capital se ter recusado a vender os meus livros porque não estavam dentro da sua "linha editorial" ( foi aí que aprendi que supermercados também têm linha editorial...risos!)

Como olha para a liberdade de expressão em Angola?
Há um antes e um depois João Lourenço? De certa forma, sim. As coisas estão melhores embora ainda falte muito mais contraditório e opinião nas grelhas de informação. E de rigor, também. Falo, particularmente, dos órgãos públicos, pois são pagos por nós.

A crise económica melhorou a sua educação financeira para lidar com a crise?
Que remédio! A minha e a de todos nós. Oxalá que a dos gestores públicos também tenha melhorado!

Quando olha para a sua carreira, o que lhe ocorre dizer?
Não serei a pessoa mais indicada para avaliar, mas assim por "alto" e pelo retorno que me tem chegado das pessoas que me acompanham, acho que o resultado é positivo. Penso ter dado o meu modesto contributo para a liberdade de expressão no País.

O actual momento político e económico dá-lhe mais vontade de rir ou de chorar? Porquê?
O momento político está mais para rir. O económico dá um nó na garganta. E a operação Resgate veio apertar mais um bocado esse nó.

Sérgio Piçarra

Criador do "imbumbável" que agita a vida social e política

Natural de Luanda, onde nasceu em Julho de 1969, Sérgio Piçarra é o mais conhecido e conceituado cartunista angolano. O criador de Mankiko, o "imbumbável" que, em 1990, ganhou vida nas páginas do Jornal de Angola, retrata semanalmente, a vida social, política e económica do País, nas páginas do Expansão e no Novo Jornal, duas das inúmeras publicações por onde dispersa os seus desenhos.

Mankiko é hoje uma constante na vida dos angolanos e o seu criador uma referência no cartunismo nacional. Casado e pai de "muitos" filhos, Sérgio Piçarra gosta de ler, ver filmes e documentários, nos tempos livres. Não tem uma música preferida, tem "muitas", como diz, e nos projectos para o futuro destaca a "licenciatura em Belas Artes e continuar a "bumbar" no "imbumbável". Com o ensino médio de Ciências da Educação, está a reler o livro "Quando tudo se desmorona", de Chinua Achebe.

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