Director João Armando

Não é com salários de miséria que vamos lá

Não é com salários de miséria que vamos lá

Os funcionários públicos vão continuar a perder poder de compra até 2022. A culpa é a consolidação orçamental. Existem duas formas de melhorar as contas públicas. Ou melhor, três. As duas primeiras são aumentar a receita e reduzir a despesa. A terceira é fazer um pouco das duas coisas.

É o que Angola deverá fazer de acordo com o programa de assistência financeira solicitado ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Tendo em vista a dificuldade em aumentar a receita não petrolífera (...) a consolidação imediata deverá advir principalmente da redução da despesa corrente, mantendo os aumentos salariais abaixo da inflação e concentrando as novas contratações em áreas prioritárias (...)", explica o FMI.

A expressão "manter os aumentos" não passa de um eufemismo. É que aumentos de salários é coisa que os funcionários públicos não vêem desde Julho de 2017, quando os ordenados aumentaram entre 3%, os mais altos, e 13%, os mais baixos. O último aumento antes deste foi em Julho de 2014. Ou seja, em quase cinco anos os salários dos funcionários públicos aumentaram duas vezes.

Entre Julho de 2014 e Novembro de 2018, o custo de vida em Angola medido pelo Índice de Preços no Consumidor na Província de Luanda aumentou 146,2%.

A inflação é um imposto escondido porque os aumentos dos salários não acompanham o ritmo de crescimento dos preços, corroendo o poder de compra dos trabalhadores. Tal como o imposto sobre os rendimentos do trabalho, a inflação acaba por reduzir o rendimento real de quem vive do salário.

Enquanto os preços em Angola mais do que duplicavam, os ordenados da função aumentaram na melhor das hipóteses 13%.

Feitas as contas, o poder de compra dos funcionários deu um trambolhão da ordem dos 55%. Dito de outra forma, com o salário actual um funcionário público não consegue sequer comprar metade dos bens e serviços que comprava com o salário que ganhava em Julho de 2017.

Embora compreendendo que a difícil situação económica e financeira do País não permite a recuperação do poder de compra, é bom recordar ao Governo (e ao FMI que é quem vai ditar a política económica de Angola nos próximos três anos) que, com salários de miséria, não há economia que resista.


Editorial da edição n.º 506, de 11 de Janeiro de 2019, já disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui.

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