Director João Armando

"Na crise usaria cores mais alegres, porque é um contexto de passagem"

"Na crise usaria cores mais alegres, porque é um contexto de passagem"
Foto: César Magalhães

O amor pela pintura nasceu antes da vida política e hoje andam de mãos dadas. O Administrador do Cazenga confidenciou que as pessoas achavam que fazia arte com interesse à política. Quanto à crise, pintaria com cores mais alegres, para dar esperanças.

Quando foi que descobriu o gosto pela pintura?
Respondo a esta pergunta com muita dificuldade. Tenho dito que foi a arte que me descobriu.

Teve de fazer formação ou é um autodidacta?
Fiz a formação normal escolar em artes plásticas, mas tive a sorte de ter a mesma professora de educação visual durante quatro anos seguidos. Isso ajudou-me a corrigir os meus erros. É a professora Luísa Romualdo.

É fácil conciliar as funções que ocupa na administração local do Estado, com a pintura, onde manifesta o seu eu e as "vozes das suas cores", como revela o título de uma das suas exposições?
Tem sido mais difícil agora que sou administrador municipal do Cazenga, porque a realidade do município consome-me por inteiro, de maneira que, quando chego a casa, estou sem motivação para "jogar tinta na tela". Mas, no geral, não é difícil porque a execução de uma obra não tem prazo, não são encomendas, posso ir pintando. Deste modo, consegui reunir tempo e realizei três exposições individuais e participei em várias colectivas.

Qual destas duas vertentes é mais sacrificada?
Nenhuma das duas. Basta ver que comecei a pintar um dos quadros da exposição alusivo ao dia do município, 9 de Janeiro, no sábado, e terminei-o na terça-feira. Tudo também depende da exigência que surge, numa ou noutra área.

Considera que a sua condição política facilita a abertura de portas para a divulgação da sua obra?
De forma alguma. São vidas separadas. A arte é um mundo próprio. Sobretudo nas artes plásticas não há a possibilidade de "cunhas". Enquanto fui secretário de Estado, embora já estivesse inscrito na União Nacional dos Artistas Plásticos, as pessoas julgavam que a minha inscrição era só por motivos políticos e não de promoção da arte. Mesmo depois da primeira exposição, não houve muita solidariedade da classe.

Realizou três exposições individuais, em 2015, 2016 e 2018. Tem agendada alguma para 2109?
Tenho um convite para expor na Alemanha, mas preciso de concertar antes a minha agenda doméstica para ver se é possível. Se for, vou analisar as obras que tenho para fazer a expoição.

Que cores usaria para descrever o momento de crise que o País atravessa?
Tenho o princípio que devemos admitir a crise como um contexto de passagem, que tem de levar as pessoas a um estágio melhor. Para isso, usaria as cores mais alegres.

O município do Cazenga pode esperar mais apoio institucional às artes por ter um artista como administrador?
Os apoios institucionais serão naquilo que se justificar, sobretudo nas acções que beneficiarem maior número de pessoas. Agora, o que posso fazer é dar o meu apoio individual para ajudar os jovens que estejam no ramo das artes plásticas. Neste momento, estou a prever realizar duas acções formativas em Fevereiro, solicitando também o apoio de mais artistas para que se juntem à causa.

É uma pessoa poupada?
Depende, porque gosto de gastar em livros, sou viciado. Mas, de resto, sou daqueles que não ambiciona ser milionário.

Usa alguma da sua veia artística para governar o Cazenga?
De certo modo sim. Porque a arte dá-nos a sensibilidade para determinados assuntos.

Como tem sido implementar políticas de melhoria no município, num contexto de crise, com o aquele em que vivemos?
O município é carente, tem inúmeras dificuldades e acredito que faltava um pouco de tratamento humano e humanizado às pessoas do município, espero que quem ler esta entrevista entenda. As pessoas precisam sentir-se bem ao viver no Cazenga. Ouvimos e lemos muitos pronunciamentos pejorativos sobre quem vive no Cazenga, mas estamos a trabalhar na consciência deles para que não permitam mais ser tratados desta forma.


Artes plásticas, política e outros mundos de Albino
Albino da Conceição José é casado e pai de três filhos biológicos e de 10 adoptados. Revela que, em momentos de lazer, gosta de brincar com as crianças, que formam o seu maior número de amigos. Gosta de ouvir boa música e destaca Matias Damásio entre os seus músicos preferidos. Depois de chegar ao Cazenga aprendeu a ouvir e a gostar de Kuduro. O administrador diz que olha para o cargo como um desafio, pois hoje compreende melhor as características irreverentes dos "cazenguistas".

Já fez um retrato pintado do kudurista Pacing Toloba, alusivo às comemorações do município, porque, segundo ele, é o que melhor representa a essência do Cazenga. Sobre a leitura, diz que nunca lê apenas um livro. Actualmente, ocupa-se da leitura de "Fim do Poder" de Moisés Naim, que representa a actualidade do poder no mundo. Com o livro, Albino da Conceição diz que percebe melhor os movimentos reivindicativos, ainda que possam ser contra a sua pessoa e a administração que dirige.


(entrevista publicada na edição 508 do Expansão, de sexta-feira, dia 25 de Janeiro de 2019, disponível em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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