"Desde muito cedo aprendemos a trabalhar com o nada"

"Desde muito cedo aprendemos a trabalhar com o nada"
Foto: D.R.

Veio a Luanda tentar a sorte como escritor e desenvolveu a Associação dos Jovens Amigos da Literatura, com a qual desenvolve projectos socioculturais como o "Noites Amenas". Apesar das dificuldades, nem ele nem os companheiros pensam em desistir.

O que é a Associação dos Jovens Amigos da Literatura?
A Associação dos Jovens Amigos da Literatura (AJAL) é uma organização socioliterária e cultural, fundada em 12 de Maio de 2008, que desenvolve projectos socioculturais e literários sem fins lucrativos. Foi criada no Waku-Kungo, província do Cuanza-Sul.

Porque razão decidiu criar a Associação?
A associação surge numa altura em que precisava de ter uma organização que me permitisse "evangelizar" as pessoas que andavam em bebidas, drogas e dizer-lhes como venci alguns vícios. Queria unir pessoas, para que durante um encontro descontraído reflectíssemos sobre os problemas sociais, declamássemos poesia, enfim, que fizéssemos alguma diferença social, sem esperar por dinheiro.

Contam com algum apoio?
Hoje não. Mas a primeira vez que pedi apoio, exigiram-me transformar a associação numa organização afecta a um braço político juvenil, isto em 2008. Mas não cedi. Do salário que ganhava, 14 mil kz tirava os valores para assegurar o funcionamento da AJAL, formar os jovens sob oposição dos pais. Em 2011 comecei a receber os primeiros apoios. Lembro de um empresários que deu 60 mil Kz, Aldeia Nova deu 40 mil kz, e o ex-administrador adjunto da Cela, Joaquim Orlando que ajudou com 40 mil kz, dinheiro com que usamos para tratar de toda natureza legal da AJAL. De lá para cá venho sacrificando os meus projectos pessoais para manter a associação viva. Mas sou feliz, porque muitos jovens se descobriram como escritores e, hoje, sacrificam-se também com contribuições.

Que actividades é que realizam?
Formação, palestras nas escolas, tardes culturais, tertúlia de literatura, teatro, seminários sobre a língua portuguesa, concebemos projectos sociais nas comunidades e feiras.

Tem agora em curso o projecto cultural "Noites Amenas". O que retrata?
"Noites Amenas" é um projecto sociocultural e literário, que contempla a rubrica "Vozes dos Heróis Anónimos". Passaremos a homenagear, mensalmente todas terceiras quartas-feiras do mês, uma figura, cuja história serve de transformação para as outras. Aquelas pessoas que usam o pouco que têm para ajudar e impactar outras vidas, que, apesar de serem diminuídos físicos trabalham, fazem alguma coisa em vez de esperar dos céus um "pingo de água benta".

Como são seleccionadas as pessoas homenageadas?
Os requisitos de selecção continuam a ser estudados, na medida em que, muitas são as pessoas que fazem diferença na sua área de actividade. Por exemplo, um jornalista pode passar por uma experiência que o pode tornar um herói. Já é diferente de um diminuído físico que exerce uma actividade comercial ou artística. Para estes, a selecção é directa. Mas regra geral, ter uma história impactante e incomum é o principal requisito.

O contexto económico impede que se realizem o número de actividades pretendidas?
Sem dúvidas. E tudo torna-se mais difícil quando se realiza numa sociedade onde os empresários não olham para estas actividades como uma oportunidade para comunicarem os seus negócios.

A crise é um incentivo para continuar ou já pensaram em desistir?
Desistir? Não. Desde muito cedo aprendemos a trabalhar com o nada. Percorremos longas distâncias com um objectivo. Volvidos 10 anos, continuamos e não desistiremos.

Como fazem para vencer as barreiras da crise?
Aplicando os princípios que norteiam as nossas acções: "TODIFE", ou seja, Disciplina, Tolerância e Fé. Pela fé, acreditamos que os homens nobres abraçam causas nobres e dão de si para as tornar reais. Assim, esperamos que um dia haja um empresário para nos dar as mãos, principalmente para o projecto "Noites Amenas".


Literatura, jornalismo e relações públicas unidas

Natural de Waku-Kungo, província do Cuanza-Sul, Camilo Lemos mantém vivo o desejo de ver os seus projectos literários e socioculturais desenvolvidos, como a Associação dos Jovens Amigos da Literatura, de que é fundador e presidente, e o projecto sociocultural "Noites Amenas", em parceria com uma das unidades hoteleiras da capital.

Aos 33 anos é solteiro e pai de cinco filhos, tendo como formação académica os cursos médios e Agronomia e o Puniv, conta também com o bacharelato em Contabilidade e Gestão. A literatura, o jornalismo, a assessoria de imprensa e relações públicas são outras áreas às quais já emprestou o seu conhecimento. Sobre a cozinha, disse que sabe apenas a culinária do bairro, por para si, "o importante é encher a pança". Tem em carteira lançar o seu livro " O Ventre da Sabedoria-Sal para os oradores" e o projecto "Leitura 15".


(entrevista publicada na edição 507 do Expansão, de sexta-feira, dia 18 de Janeiro de 2019, disponível em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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