"Existe pouca valorização do que se produz nas investigações"

"Existe pouca valorização do que se produz nas investigações"
Foto: D.R.

A dissertação de mestrado com o tema "Desafios de Defesa Nacional: O Mar Angolano e os Contributos do Poder Naval (2002-2016)" fez com que a investigadora Suraia Munguengue fosse a primeira africana a receber o Prémio de Mérito da Marinha Portuguesa.

Que significado tem para si receber da Marinha Portuguesa o prémio de melhor investigação científica?
Significa o reconhecimento do esforço empreendido nesses dois anos do mestrado em Estratégia e, principalmente, se consideradas as dificuldades vividas durante as pesquisas. Significa igualmente a compensação das ausências da família e amigos, bem como a demonstração da nossa gratidão para com a entidade promotora da bolsa, a Universidade Técnica de Angola (UTANGA), bem como o empenho da nossa orientadora e do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, que tendo determinado a pertinência da nossa temática a remeteu para concorrer ao prémio de Mérito Marinha Portuguesa. O facto de ter sido premiada por uma entidade estrangeira aumenta, ainda mais, o significado do prémio, na medida em que serve de inspiração para que mais estudantes na minha condição (no estrangeiro), possam esforçar-se para elevar, cada vez mais, o nome de Angola.

Após essa investigação científica, quais são as suas perspectivas?
Normalmente, quando se recebe um prémio como este, por mais que tenhamos a pretensão de parar, somos obrigados a continuar, pois ele serve sempre de incentivo. E, neste caso em particular, a intenção é continuar com o desenvolvimento de pesquisas ligadas às questões dos Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa Nacional em sede de um curso de doutoramento, por serem áreas identificadas como não privilegiadas por pesquisadores angolanos.

Que impacto teve o seu estudo na Marinha Angolana?
Até ao momento não recebemos feedback sobre o impacto que o mesmo tenha tido nessa instituição, mas acreditamos que, se bem aproveitado, dadas as conclusões do seu carácter exploratório, essencialmente no que diz respeito ao "Poder Naval", pode contribuir para o engrandecimento deste em Angola.

Quais as conclusões do seu estudo?
Concluímos que é necessário que se dê maior atenção e se promovam mais investimentos, sob pena de, a médio prazo, o Estado não dispor de capacidade para garantir a soberania nacional no mar, o que terá igualmente fortes repercussões no espaço terrestre. Isto considerando que 7 das 18 províncias são marítimas e mais de 50% da população vive ao longo da costa, sendo o mar uma via de entrada estratégica para o espaço terrestre.

De acordo com o seu estudo, quais são os "Desafios de Defesa Nacional"?
Os Desafios de Defesa Nacional, de forma geral, são diversos, desde o domínio político, económico, ambiental e securitário. Assim sendo, definimos como principais desafios de defesa nacional no mar a delimitação dos limites marítimos a norte e o alargamento da Plataforma Continental até às 350 milhas marítimas, tendo em consideração os interesses dos países limítrofes e ocidentais na região, o combate à imigração ilegal, à pirataria, ao tráfico de seres humanos, ao roubo das riquezas marítimas, à poluição, as ameaças militares, o terrorismo transnacional e o crime organizado transnacional (particularmente o narcotráfico).

Pretende ver o seu estudo aplicado em Angola?
Com certeza. É desejo de qualquer investigador ver os resultados do seu trabalho serem aplicados ou, quanto menos, a serem citados por organismos do seu Estado na materialização e/ou operacionalização de uma determinada estratégia.

Que avaliação faz da investigação científica desenvolvida no País?
Nós temos no País investigadores comprometidos com a Ciência, no entanto, existe pouca valorização do que se produz. Poucas são as instituições (públicas e privadas) cuja projecção do seu core business dependa e/ou resulte de investigações feitas no País; Não existem convénios que eu saiba, entre universidades e instituições para o aproveitamento de estudos que estas realizem para o desenvolvimento ou materialização de uma determinada política e/ou projecto.


"É um prémio individual que, em parte, também é colectivo"

Suraia da Conceição Munguengue, nascida a 6 de Junho de 1986, na cidade do Lubango/Huíla, licenciada em Relações Económicas Internacionais e Mestre em Estratégia, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, é actualmente professora na Universidade Técnica de Angola (UTANGA).

Além de ser apaixonada por literatura sobre resolução de conflitos, viagens e música, Suraia é investigadora, com especialização em Estratégia, o que lhe possibilitou enveredar pela assessoria e consultoria na área de Parcerias Estratégicas. É motivo de orgulho na UTANGA, já que foi um dos 54 jovens a quem a universidade, no quadro do seu Programa de Formação Docente (PFD), ofereceu bolsas de estudo, a partir de 2012, para frequentarem cursos de mestrado na Universidade de Lisboa. "É um prémio individual que, em parte, também é colectivo", considera a docente.


(entrevista publicada na edição 512 do Expansão, de sexta-feira, dia 22 de Fevereiro de 2019, disponível em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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