Director João Armando

"Fala-se muito do turismo, a arte pode ser um dos motores dessa indústria"

"Fala-se muito do turismo, a arte pode ser um dos motores dessa indústria"
Foto: Adjali Paulo

A capacidade de improviso dos angolanos e os edifícios de betão em Luanda dão lugar a "Concreto Blues", exposição de Kiluanji-Kia-Henda, patente na galeria Jahmek Comtemporary Art. Para descrever a crise económica, elege a sua obra "Blank Capital".

Como caracteriza a exposição "Concerto Blues", agora na Jahmek?
Este novo trabalho está ligado à transformação das ruas de Luanda, mais propriamente à capacidade de improviso do cidadão comum para sobreviver numa cidade que foi invadida por edifícios de betão, revestidos de vidros espelhados. Daí surge o título "Concreto Blues", uma crítica/lamento à falta de investimento no factor humano e o uso perverso de um bem vital, como a habitação, para lavagem de capital. A exposição é a continuação do projecto "Uma Cidade Chamada Miragem", realizado entre 2013 e 2014, no Médio Oriente (Jordânia e Emirados Árabes Unidos), em que retratava este fenómeno de escala mundial, que consiste na construção de cidades que se transformam em autênticos desertos de betão.

Que significado dá à cor preta nos seus trabalhos?
Se calhar é por me vestir quase sempre de preto. A cor preta acentuou-se mais nos projectos mais recentes que realizei. No primeiro caso, foi quando fiz a intervenção no Museu de História Natural, uma crítica ao famoso livro de Joseph Conrad "No Coração das Trevas", onde a África pré-colonial é descrita como um inferno. No segundo caso, foi no projecto "Ilha de Vénus", sobre a crise de migração africana no mediterrâneo, onde usei o preto para ocultar as imagens dos barcos deixando somente o mar à volta, procedimento normal na censura de imagens pornográficas. Cada rectângulo em preto era como o nascimento de uma nova ilha no mediterrâneo composta de corpos flutuantes, vítimas do descaso de ambos continentes.

Qual das técnicas de produção é a sua preferida?
O vídeo é um dos meios que mais tem atraído o meu interesse, porque, de alguma forma, posso usar os vários meios de expressão artística com que tive oportunidade de me relacionar e continuo a nutrir uma grande paixão da música ao teatro, da fotografia à escrita. Concebo e materializo objectos que podem ser contemplados como esculturas, tal como fiz nas obras realizadas nos desertos de Al Azaraq (Jordânia), ou em Maleha (UEA).

Como a música e o teatro influenciaram na sua formação como artista?
Costumo dizer que a música foi uma paixão não correspondida, mas na realização dos vídeos esta relação contínua a ser bastante útil. No teatro, estive mais ligado à técnica da produção e desenho de luz, quando me juntei ao Elinga Teatro. O carácter multidisciplinar do meu trabalho não foi nada forçado. Nada se perdeu, tudo se transformou.

Vende bem os seus trabalhos?
Não sou um artista com grande sucesso comercial, aliás, o meu posicionamento como artista tão pouco o permite. O mercado da arte tende mais para artistas que encontram uma fórmula interessante para o sucesso comercial. Contudo, não me posso queixar de maneira alguma. Tenho obras em importantes colecções como a do Museu Tate Modern, em Londres, ou a Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Isso de alguma forma legitima o meu trabalho no circuito do mercado internacional da arte.

É possível mudar o contexto económico em Angola com a arte? Como?
Para a mudança deste contexto económico é preciso que haja políticas concertadas e maior intervenção do Estado na área da cultura. Não existe cultura sem espaço. O nosso Estado poderia, ao menos, garantir infraestruturas. Fala-se muito em turismo, a arte pode ser um dos motores dessa indústria.

Que trabalho seu descreve melhor a situação económica do País?
Foi o trabalho "Blank Capital - Capital Nulo" uma série de fotografias de outdoors inutilizados que estão distribuídos por toda a cidade. Fiquei pasmado com o número de outdoors sem mensagem ou publicidade. Este "silêncio" nos outdoors é bem representativo de um País em crise.

A crise interfere no seu trabalho, como artista plástico? De que forma?
Infelizmente, não temos uma indústria cultural que permita que sejamos mais autónomos, dependemos imenso do apoio do Estado. Surgiram algumas galerias privadas que têm feito um trabalho com algum sucesso, mas ainda há um longo caminho pela frente. Trabalho com três galerias pelo mundo, nomeadamente em Nápoles, Lisboa e Cidade do Cabo. A questão económica é uma das razões que torna imprescindível a internacionalização da carreira de um artista, não importa o contexto onde estamos inseridos.

Paixão não correspondida na música fez nascer a criação

Kiluanji-Kia-Henda, que significa "aquele que para onde vai deixa saudades", tem como terapias ir ao bar do Pedro Saraiva e à praia. Natural de Luanda, gosta de beber vinho tinto, assume que sabe, e gosta muito de cozinhar, sendo a sua comida preferida a Kibeba de choco. O artista tem o curso médio de Ciências Sociais e temem carteira a realização de um programa de residências artísticas em Luanda.

Há dois anos que reside somente em Angola, após o encerramento do seu estúdio em Lisboa, que foi uma base importante para levar a sua obra pelo mundo. Kiluanji-Kia-Hneda passou oito anos a viajar como um nómada, mas foi um mal necessário para a internacionalização da sua carreira, ao mesmo tempo que é importante ter um lugar a que chama casa, que é Luanda. O artista gosta de ficção, porque lá é legitimo fantasiar, manipular, mentir. Apesar de usar o real para criar, a realidade, em si, pode ser, muitas vezes, uma camisa-de-forças.

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