Direi a Trump que este é o momento certo para apoiarmos Angola

Direi a Trump que este é o momento certo para apoiarmos Angola

Cyril Sartor, o conselheiro especial do presidente dos EUA que esteve em Angola para uma visita de três dias, admite ao Expansão que as mudanças no País abrem portas não só ao investimento dos EUA, mas também a financiamentos. Os dólares estão a caminho, só não sabe quando.

Como é que os EUA e a Administração Trump olham hoje em dia para Angola, sobretudo na sequência das reformas efectuadas pelo Presidente João Lourenço?
Os EUA, e esta administração em particular, estão muito entusiasmados com as mudanças que vêem em Angola e quero afirmar claramente que estamos ao lado do povo angolano, neste momento histórico de mudança para uma sociedade mais aberta, mais democrática, e para uma economia que, com o tempo, se tornará mais atractiva para o investimento internacional e que irá estimular a produtividade dentro de Angola e, esperamos, o comércio entre o País e os seus vizinhos africanos.

Reformas, como o combate à lavagem de dinheiro e à corrupção, poderão abrir portas a investimentos norte americanos?
Sem dúvida, são pré-requisitos para atrair o investimento americano. Menciona duas áreas que são importantes e o Departamento do Tesouro dos EUA e outras agências estão disponíveis e, aliás, já manifestaram disponibilidade para prestar apoio técnico ao Governo angolano nessas matérias.

Há outras áreas igualmente importantes?
Sim, a transparência do sistema bancário, que tem questões técnicas específicas, nomeadamente a conformidade, não apenas com as normas e regulamentos dos EUA, mas também com as obrigações internacionais, matéria sobre a qual o Governo angolano já expressou vontade em caminhar rapidamente nesse sentido. Por isso, esta é uma grande oportunidade e estes três exemplos são um sinal de que o Governo angolano parece estar disposto a fazer as mudanças que resultarão na atracção de investimento.

Sem isso não haverá investimento norte-americano?
Sabe, nós não somos como outros governos que se limitam a direccionar grandes quantias de recursos para um país, às vezes com resultados preocupantes a longo prazo, e sem ter em conta os interesses de Angola. Porque temos um mercado livre e valorizamos o dinamismo do sector privado, dependemos do mercado, ou seja, em grande medida, cabe a Angola tornar-se atractiva para esse investimento. Pela nossa parte, à medida que constatamos que o País concretiza estas reformas, faremos tudo, enquanto Governo, para sensibilizar as nossas empresas no sentido de lhes fazer ver que há aqui um novo mercado. Tentaremos estabelecer ligações entre as nossas empresas e os empresários angolanos, de forma a estimular o comércio e os investimentos.

Essa é uma grande dúvida aqui em Angola: como aceder ao mercado norte-americano. Imagino que o tenham questionado sobre quando teremos acesso a dólares? Tem resposta a esta questão?
Em parte, está dependente das melhorias a nível de transparência no sector bancário.

Acredita que Angola conseguirá concluir esse processo?
É perfeitamente possível que o processo em curso seja bem-sucedido, mas não lhe sei dizer quanto tempo vai demorar.

Há pouco, quando mencionou a necessidade de outro tipo de presença, referia-se à China?
Sim. É óbvio que vários países africanos (e asiáticos) estabeleceram parcerias com a China, cuja dívida, na altura dos reembolsos, os surpreendeu, porque, pelos vistos, os termos desses acordos não foram transparentes. Na viagem para Angola recordo-me que li um artigo do Financial Times sobre este tipo de "surpresa" por parte de países como Myanmar, Paquistão e Sri Lanka, que foram surpreendidos por uma dívida acima do esperado, porque não compreenderam quão pesados eram os termos de pagamento, e por isso alguns dos seus cidadãos mostram-se revoltados com as condições que os seus governos acordaram com a China. É como se alguns destes governos estivessem de alguma forma a perder a sua soberania para a China. E vemos o mesmo a acontecer em África. Por isso, digo que os EUA quando fazem negócio com países africanos não o fazem para os endividar e tirar algum aproveitamento político disso. Aliás, como disse, quem negoceia são as nossas empresas, e fazem-no porque é mutuamente benéfico, ou seja, é um modelo muito diferente.

Os EUA pretendem combater a influência da China em África?
Estamos certos que, se os países africanos puderem escolher entre o modelo americano e o modelo chinês, poderão optar pela decisão mais apropriada, mas acreditamos que nove em cada 10 vezes essa escolha será pelos EUA. Ou seja, não se trata de competir com a China, mas mais de dar aos países uma alternativa, queremos estar presentes. Nesta matéria, é legítima a crítica aos empresários norte-americanos que, digamos, não têm sido suficientemente empreendedores em África, como acredito que deviam ser. Mas há aqui uma enorme oportunidade, especialmente tendo em conta a dimensão do mercado africano, com o crescimento do número de jovens que irão ter empregos e um apetite por bens e serviços. Penso que há um maior potencial de cooperação entre os EUA e África e tentaremos mudar esta inércia dos empresários norte-americanos.

Uma cooperação que vá além de Angola, Nigéria e África do Sul, os três principais parceiros dos EUA, no âmbito da nova estratégia para África?
Com esses três países já temos um relacionamento estratégico há algum tempo, a vários níveis. Em Dezembro, o Presidente Trump autorizou uma nova abordagem estratégica ao continente africano, que passa pela concentração dos nossos recursos nos países que partilhem os nossos valores, que sejam sociedades transparentes ou estejam a fazer esse esforço, que partilhem a nossa visão de uma economia de mercado livre e de um comércio mutuamente benéfico, que sejam parceiros na luta contra o terrorismo, entre outros aspectos. Já foram identificados alguns países, mas não se trata de dizer se são 10 ou 15, porque também esperamos que sejam os próprios países a, voluntariamente, reconhecer o valor das parcerias com os EUA. Por isso, espero que seja uma lista crescente. Mas, como temos de começar por algum lado, e toda a gente sabe que os EUA, como muitos outros países, estão a passar por um período de austeridade, e o Presidente Trump não é defensor de grandes orçamentos ou gastos extravagantes na cooperação externa, defendendo investimentos estratégicos, iremos estabelecer prioridades e espero sinceramente que Angola faça parte dessa primeira lista de países.

Podemos esperar algum tipo de financiamento a esses países, como linhas de crédito, ou outros?
Estamos, de facto, a explorar formas de aumentar o crédito, nomeadamente através do desenvolvimento de novos mecanismos de financiamento semelhantes aos dos Export-Import Bank e da OPIC (Overseas Private Investment Corporation ou Corporação para o Investimento Privado no Exterior), que irão ser ajustados. E estamos em negociações com o Governo de Angola no sentido de facilitar esse tipo de financiamentos.

É a sua primeira vez em Angola, se fosse investidor, em que áreas ponderaria investir no País?
Não sou um homem de negócios, mas muitas vezes gostaria de sê-lo. Olho para Angola e constato que têm um clima maravilhoso - está um frio de rachar em Washington DC, onde deixei a minha mulher a retirar a neve da entrada de casa... e vou pagar por isso (risos) -, um clima que, por vezes, permite duas colheitas por ano, têm abundância de água, com um bom sistema de rios, a terra é fértil... Estive em vários países africanos em que só se vê a terra vermelha, argilosa, e desflorestação. Angola tem esta vantagem comparativa e todo um potencial por explorar, e os EUA poderão ajudar. Enquanto passeava por Angola, questionei-me precisamente que tipo de oportunidades existem. A exploração de madeira é uma delas. Pessoalmente, optaria por algo que ajudasse a diversificar a economia. O petróleo, os diamantes e os minérios são importantes, mas penso que seria óptimo se Angola conseguisse diversificar a economia.

Uma última questão: que mensagem irá levar ao Presidente Trump desta visita a Angola?
Deixe-me pensar um pouco, é uma boa questão. Penso que direi ao Presidente Trump que me sinto mais encorajado do que nunca, sobretudo após conhecer o povo de Angola, porque, além dos dirigentes, pude também conhecer cidadãos. Dizia, sinto-me mais encorajado do que nunca de que este é o momento certo para apoiarmos o povo de Angola enquanto atravessa este momento de mudança. Devemos ser vossos aliados. Fiquei comovido, não só pela energia e pelo optimismo dos angolanos, que desejam ver-se livres da corrupção e que esperam uma oportunidade de desenvolvimento económico, mas também tive boas reuniões com o Presidente João Lourenço. Sinto-me honrado por ter sido recebido por ele e por podermos passar algum tempo a trocar opiniões francas. E fiquei impressionado com a sua visão para este País, e acredito na sua sinceridade, assim como na dos vários ministros com os quais também reuni. Por isso, direi ao Presidente Trump que Angola é um País com um povo e uma liderança com quem eu penso que podemos e devemos trabalhar.

Foto: Quintiliano dos Santos

"A eliminação de barreiras ao comércio irá estimular o comércio"

O que pensa sobre o modelo de mercado livre em África, com países tão diferentes, com sistemas políticos tão distintos?
Comecei esta viagem em Adis Abeba [na cimeira da União Africana], onde tive a honra de discursar e deixar bem claro o apoio dos EUA a um eventual acordo para a criação de uma Zona de Comércio Livre Continental Africana, assim como à ideia de que África deve tentar integrar as suas economias. Acreditamos que a eliminação de barreiras ao comércio e a facilitação do movimento de pessoas e bens, através do continente, irão estimular o comércio em África e, eventualmente, à medida que o continente aumenta o seu comércio interno, irão criar-se oportunidades para mais comércio com os EUA. Actualmente, temos apenas um acordo de comércio bilateral com Marrocos, mas estamos a trabalhar e esperamos identificar outros países africanos com os quais celebremos acordos de livre comércio. E acreditamos que isso será possível, quaisquer que sejam os termos e as regras que o continente venha a estabelecer numa Zona de Comércio Livre.

Acredita que esse será um dos mecanismos que ajudará a acabar com a pobreza em África?
Sim, acredito que será um mecanismo extremamente útil, não apenas para afastar a pobreza, mas também para unificar culturalmente o continente. O subdesenvolvimento que resultou do período colonial deixou o continente com um sistema de transportes destinado a levar pessoas e bens do interior para o litoral. Não foram desenvolvidas ligações de norte a sul que ajudassem a ligar o continente. O caminho- de-ferro, por exemplo, tem das menores taxas de implementação do mundo. Acredito que este cenário contribuiu para a redução do potencial político que África poderia ter como continente, dificultando a união e a formação de uma posição política comum mais consistente. E penso que a integração económica poderá mesmo ajudar nesta área política, o que será bom para as economias e para as dinâmicas sociais, para a disseminação das democracias e para o movimento de pessoas e bens.

Quintiliano dos Santos

Especialista em segurança
Com um mestrado em história africana na Universidade de Boston, Cyril Sartor é conselheiro especial do Presidente dos EUA, Donald Trump, e director sénior para Assuntos Africanos do Conselho de Segurança Nacional, com mais de 30 anos de experiência em assuntos de África. Anteriormente, foi vice-director adjunto do Centro de Missão da CIA no continente africano.

Já desempenhou variadíssimos cargos de liderança sénior na Comunidade de Inteligência dos EUA, tendo sido consultor de dois Conselheiros de Segurança Nacional, Director Nacional de Inteligência para África no National Intelligence Council. Esteve em Angola, de 13 a 15 de Fevereiro, para apresentar ao Governo a nova estratégia da política externa dos Estados Unidos da América para África.

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