"Todos sabemos o quanto Angola foi saqueada e dilacerada"

"Todos sabemos o quanto Angola foi saqueada e dilacerada"
Foto: D.R.

Homem da rádio e da televisão dedicou-se profissionalmente ao sector dos petróleo, aquele que é o principal "ganha pão" do País. Em entrevista ao Expansão, diz que hoje Angola está mais rica em termos culturais, mas é preciso apostar mais nos leitores.

Lançou agora o Sarrabulhada II em Lisboa. O que os leitores podem esperar desse livro?
Poderão esperar algo que, às vezes, não tem sido visto como o resultado de suas próprias reflexões. São textos interessantes, modéstia à parte, porquanto narram algumas das vicissitudes do nosso quotidiano. Aliás, nada novo para quem já leu os meus textos nos jornais "A Capital", "Manchete" e "24 horas". Primeiramente, escrevi de 2003 a 2004 e depois fi-lo de 2014 a 2018. Essas crónicas ajudaram a libertar- -me dessas falácias.

Para quando o lançamento do livro em Angola?
Angola vai conhecer essa obra já no próximo dia 14 de Maio nas instalações da Mediateca 28 de Agosto, em Luanda.

Qual é apreciação que faz sobre o mundo literário angolano?
Ainda é muito pequeno o nosso mundo literário, e mais do que isso, é escasso o número de leitores. Não havendo muito interesse por livros, o nosso País apresenta hoje um quadro deficitário sobre leitura. Devemos incentivar mais os jovens a ler e os "kotas" a escrever, suas próprias memórias.

Acha que há poucos registos, em livros, da cultura nacional?
Para o universo de autores/escritores que temos em Angola, é compreensível esses parcos registos. Mas acho que devíamos fomentar mais o interesse pela literatura para que possamos seguir o exemplo dos países em vias de desenvolvimento. Países que não educam os seus cidadãos à leitura nunca alcançam, verdadeiramente, o desenvolvimento.

Como investigador cultural, que avaliação faz da cultura nacional?
A cultura nacional é a vasta identidade que nos liga a este povo que se fez N"gola nos primórdios de sua existência. Cingimo-nos por um costume identitário transversal às inúmeras etnias, ou nações, espalhadas por essa imensa superfície mas, deveríamos entrar mais nas profundezas da nossa história para conhecermos melhor os hábitos de um povo há muito martirizado. Afinal, quem somos e de onde viemos?

Além da rádio e da televisão, dedicou-se profissionalmente ao sector do petróleo.
Tive como actividade profissional os petróleos, sector em que permaneci 30 anos. Foi uma vida ligada, inicialmente, ao Departamento de Produção e Reservatórios da Sonangol, que pouco depois me transferiu para uma missão numa determinada empresa estrangeira. Mas fui para este sector numa época em que também se falava e muito da Marinha Mercante e Portos. Aquilo aconteceu por mero acaso mas ali permaneci até calcinar. Mas fiz- -me homem da comunicação social em 1988 depois de deixar de trabalhar nas sondas de perfuração do Soyo (bloco 3).

Angola ainda hoje está a sentir os efeitos da descida do barril do petróleo. Como "dar música" ao País para sair da crise?
Quanto aos efeitos nefastos da descida do preço unitário do crude, é caso para referir que Angola sempre teve maus gestores públicos, pois durante todos esses anos eles preocuparam-se apenas consigo próprios. Pois é inadmissível que um país como este dependa sempre do preço do barril para estabilidade da sua economia. Angola tem uma extensão marítima de 1600 km e mais de 40 rios, só com isso poderia equilibrar o nosso PIB, a julgar pela importância e utilidade de cada um desses recursos. A verdade é que há muito vivemos de um visível desinteresse político que transformou o País na bolsa de valores dos ditos ricos, em detrimento do povo que vive a miserabilidade. Agora, dar a volta a essa situação é cobrar honestidade intelectual ao Executivo e rogar um pingo de justiça aos políticos que não têm ética nem moral. A ser assim estaremos feitos num oito.

Olhando para o cenário de hoje, acha que é agora que se vai diversificar a economia?
Não creio que seja agora o momento para a diversificação da nossa economia, porque todos sabemos o quanto Angola foi saqueada e dilacerada por essa "elite de políticos" que não se preocupava com os governados. Não tendo muito dinheiro para investimentos, pois quase ninguém repatriou o que roubou, é só momento para assistirmos os cidadãos a serem ignorados, sem trabalho nem salário.

Qual é o impacto da crise na cultura nacional?
O impacto são muitos estragos do ponto de vista social e académico. Não há e nem haverá estudos de profundidade. As condições anímicas para o turismo nessas áreas históricas da nossa terra são remotas. É óbvio que as crises provocam subdesenvolvimento e isso obriga que o País fique sempre na lista dos mais deficitários do mundo, e logo posto em segundo plano, ao nível do interesse da ciência.

Culturalmente o País é mais rico hoje do que há dez anos?
Culturalmente, Angola é mais rica hoje porque já começamos a procurar os detalhes da nossa própria existência. Apesar de a guerra ter terminado há 17 anos, o governo não tem dado oportunidade e quase nem confia nos estudos universitários para exploração dessa cultura.

Da rádio à literatura sempre com "Nível"

Miguel José Neto nasceu em Luanda e desde os anos 80 do século passado que tem emprestado a sua voz às rádios do País, assim como a sua imagem à Televisão Pública de Angola, nos anos 90. O apresentador do programa Explosão Musical, do canal 2 da TPA, e dos programas RC, na Luanda Antena Comercial e Ponto de Encontro emitido na rádio MFM diz que tem estado mais atento aos factos sociopolíticos que resultaram nos textos publicados nos livros A Sarrabulhada Vol I e Vol II.

Conhecido também como "Nível!", nome que lhe foi atribuído devido ao programa Alto Nível, emitido na TPA em 2007, o radialista e investigador cultural conta agora com quatro livros publicados: Sarrabulhada I (2009), Relato da minha trajectória (2014), Meio século sem Luís Visconde (2018) e Sarrabulhada II, assim como o DVD "Da África para América" (2011).

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