Recessão anunciada

Recessão anunciada

O cenário económico não deixa muitas dúvidas. O PIB do País caminha para um novo decréscimo. Várias instituições internacionais já o tinham dito nas suas análises, agora foram os dados do BNA que mostram uma baixa importante no índice da actividade económica do país. Pior que isso, uma tendência e não apenas um facto isolado.

O consumo interno também está a diminuir, as vendas de divisas pelo BNA tiveram o seu valor mensal mais baixo desde a entrada do sistema cambial flexível, no entanto o diferencial cambial entre o mercado formal e informal está a aumentar, e a diversificação económica não arranca. Dados que devemos olhar com bastante realismo. Com muita atenção. Sem querer esconder o "pó" debaixo do tapete. Ele não vai desaparecer, pelo contrário, vai acumular.

Também não vale a pena dramatizar, porque também estamos numa processo de reorganização social que tem sempre influência na actividade económica, mas temos que ser mais rápidos a implantar decisões. Todos sabíamos que a moralização da actividade empresarial, a exigência da transparência, iria ter efeitos secundários.

E também que aquelas estruturas que sempre se habituaram a viver sem fazer contas, a prosperarem entre decretos que defendiam as suas empresas e o acesso a fundos que pareciam não acabar, não iriam mudar de "chip" de um dia para o outro. Mas neste aspecto, o Governo tem que dar o exemplo, e exigir mais resultados a si próprio e às empresas que tutela. E, mais uma vez, tomar decisões. Se por um lado não pode paralisar alguns sectores fundamentais para a nossa economia, aumentar o desemprego, por outro, não pode ficar refém destas estruturas, nem destas pessoas.

Parece-me que estamos a falar muito, mas a fazer pouco. Não vale a pena multiplicar as comissões, aumentar os estudos, temos que decidir. Obrigar os diversos sectores do Estado a mexerem-se, pequenos movimentos que todos somados nos podem levar para a frente. Há que mudar uma certa mentalidade assente em processos de intenções que assola os nossos principais organismos, onde o anúncio de um qualquer projecto parece que é um fim e não o princípio de alguma coisa.

Vem aí a quarta recessão em quatro anos. E não podemos encarar este facto com aquele espírito de que uma "fezada" nos vai salvar. Pensar que se o preço de petróleo disparar afinal a nossa estratégia estava certa. Rezar para que uma força divina crie um qualquer conflito que beneficie o preço do crude. Ou mesmo, que por um golpe de magia, tudo nos apareça feito amanhã de manhã. Ou que apenas lá para Novembro pensamos no que vamos fazer. Fazer é agora. Já!

Mas também não podemos alimentar o sentimento de que tudo está mal e temos que começar de início. O caminho parece definido, agora temos é que andar mais depressa. Alguém que marque o ritmo e que não se deixe influenciar por aqueles que já se habituaram a viver sentados.


Editorial da edição 531 do Expansão, de sexta-feira, dia 5 de Julho de 2019, já disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui.

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