"A "Burla Tailandesa" foi a maior tentativa de burla ao Estado angolano"

"A "Burla Tailandesa" foi a maior tentativa de burla ao Estado angolano"
Foto: Lídia Onde

O autor do livro "Burla Tailandesa: Para além do processo" revela os meandros de um esquema ardiloso que foi orquestrado no exterior do País e que envolvia 50 mil milhões USD. O objectivo é dar a conhecer o que não foi publicado na imprensa.

O que o levou a publicar este livro sobre a "Burla Tailandesa"?
Foi justamente a necessidade de registar para a nossa memória colectiva aquela que foi considerada como a maior tentativa de burla ao Estado angolano que acabou sendo frustrada. Estamos a falar de uma acção que, de acordo com o Ministério Público, visava desfalcar o Estado em 50 mil milhões USD. Um valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de muitos países. Porém, para as pessoas compreenderem melhor qual foi a conclusão do tribunal terão mesmo de ler a "Burla Tailandesa: para além do processo".

Acha que este processo judicial marca, de alguma forma, o arranque de uma nova era na justiça angolana? Porquê?
Até certo ponto penso sim, no que concerne à actuação dos juízes, tendo em conta que foi a primeira vez, se não estou errado, que o Tribunal Supremo realizou um julgamento público. Até então a acção dos magistrados judiciais desse órgão de soberania resumia-se em apreciar os recursos interpostos sobre as decisões dos tribunais inferiores de todo país, quer pelos advogados quer pelo Ministério Público.

Acompanhou de perto o julgamento. Estes burlões prometiam investir no País. No seu entender, quais os principais investimentos que eles prometiam e que deviam ter levado algumas das altas figuras do Estado envolvidas a desconfiar dessas promessas?
No livro abordamos de forma exaustiva vários projectos empresariais que eles pretendiam alegadamente investir através de acordos de parceria celebrados com a cooperativa N"jango Yetu, afecta às Forças Armadas Angolanas, bem como de projectos da empresária Celeste de Brito que poderiam beneficiar de uma fasquia dos 50 mil milhões USD.

Se essa burla se efectuasse, que impacto teria na economia do País?
Essa análise só os economistas podem fazer. Há no livro a opinião do assessor económico do vice-presidente da República, de alguns bancários e de um banqueiro a respeito do assunto.

O que é que o livro traz de novo fora do que já foi publicado nos órgãos de comunicação?
Muita coisa. Nós reconstituímos toda a história, começando do primeiro contacto entre a Celeste de Brito e o empresário canadiano Pirre René até ao momento em que o tribunal anunciou a sentença. Por outro lado, as audiências de julgamento duravam mais de 4 horas e os órgãos de comunicação, até por imperativo de ordem técnica, só transmitiam o essencial. O que cada repórter considerava como o facto mais relevante.

Que mensagem pretende passar para a sociedade com a publicação deste livro?
O livro retrata factos reais. As pessoas estão devidamente identificadas. Sou um narrador ausente. Não há outra mensagem senão a de que nós, os jornalistas angolanos, também podemos fazer esse exercício de escrita à semelhança do que é feito em outras partes do mundo.

Conhece mais casos de tentativas de burlas semelhantes no Pais?
Apenas esse que narro neste que é o primeiro livro reportagem do género a ser publicado em Angola desde a proclamação da Independência.

Qual tem sido o papel da polícia neste tipo de casos?
Se a polícia e a PGR tivessem cumprido o seu papel, acha que o País hoje poderia estar diferente? Porquê? Essa pergunta só eles podem responder. Como jornalista tenho limitado a minha acção em reportar factos cumprindo com as normas que norteiam o exercício dessa nobre profissão.

Porque é que em Angola é tão difícil para a justiça investigar os crimes económicos?
Não sei se é ou não difícil. Só os técnicos que trabalham nessa área pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) e da Procuradoria Geral da República (PGR) podem responder.

E em termos jornalísticos?
Porque é que se investiga pouco o crime económico? No nosso País as fontes institucionais ainda são muito fechadas. Por outro lado, julgo ser por não existir um forte investimento das redacções nesse sentido.

O facto de muitas empresas que fazem negócios com o Estado serem sociedades anónimas impede essas investigações?
Há sempre uma forma de se descobrir quem são tais "anónimos". O jornalista Investigativo Rafael Marques de Morais tem nos ensinado isso, através do seu trabalho.

Angola vive dias difíceis. Que impacto tem a crise económica na sua vida?
Como acontece em qualquer família angolana, a minha também está a ser afectada. Felizmente eu e a minha esposa ainda estamos empregados.

Jornalista há 15 anos passou pelo Agora e está no PAÍS

Paulo Sérgio Baptista dos Santos nasceu em Luanda, em 1983. Formou-se em jornalismo no Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL), em 2003. Conta com uma licenciatura em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e de Relações Internacionais (CIS). É jornalista há 15 anos. Passou pela empresa de comunicação e marketing Elo-Comunicação, pelo Semanário Agora, onde foi editor de Sociedade, e foi chefe de redacção da revista Xietu Angola. Desde 2 de Outubro de 2008 integra o jornal O PAÍS tendo já exercido a função de editor de Sociedade. Actualmente exerce a função de chefe de redacção adjunto. É co-criador do jornal O CRIME.

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