Director Carlos Rosado de Carvalho

O mercado da comunicação em Angola

O mercado da comunicação em Angola

Se falares a um homem numa linguagem que ele compreenda, a tua mensagem entra na sua cabeça. Se lhe falares na sua própria linguagem, a tua mensagem entra-lhe directamente no coração. Nelson Mandela

Dos anos de dar aulas, à experiência enquanto profissional, ficou-me a lição de que, para comunicarmos eficazmente, devemos falar a linguagem do outro - e não fazer prevalecer a nossa.

Em Roma, sê romano. Em Angola, aprendi a ser um tradutor de todas as culturas que aqui desaguam, uma ponte entre a bagagem cultural que se traz e a língua falada na Banda. O mercado de comunicação em Angola é dos mais pulsantes que conheço.

São muitas as marcas, as empresas, as pessoas de todas as nacionalidades que se deixam fascinar pelo pôr-do-sol, pelas gentes, pelas 18 províncias, pelo ritmo, pelos cheiros, e, sem ingenuidade, pela economia vibrante que é um desafio de dígitos para todos nós.

Definir este mercado de comunicação e relações públicas é um exercício que exige ponderação pelo excesso de ideias e razões que pulam a querer marcar o seu território. Curiosamente, quando me apresentam outros profissionais da área, por vezes a medo, dizem: é teu concorrente.

Mas Angola ensinou-me que pessoas são pessoas, os profissionais não se amedrontam e, pessoalmente, respeitei sempre as relações estabelecidas no mercado, preferindo manter amigos a criar maus ambientes.

Angola é um país a comemorar 40 anos de independência, mas, muito mais do que a independência, o País comemora o muito que conseguiu em tão pouco tempo. Opiniões à parte, ficamo-nos com os factos: cada vez mais empresas angolanas nascem, crescem e dão frutos.

Cada vez mais marcas estrangeiras apostam na terra, cada vez mais instituições internacionais olham para esta economia com respeito e como desafio, com vontade e com coragem. Desde as empresas angolanas, públicas, semipúblicas, ou da esfera do Estado, às empresas internacionais, sejam do sector petrolífero, sejam extrapetróleo, serviços, produtos, companhias aéreas, enfim, uma diversidade negocial abrangente, todas adquiriram nestes últimos anos a consciência de que o mercado só é benéfico se nos dermos a conhecer, se falarem de nós, se criarmos diálogo.

Concorrência em crescendo

O mercado angolano, por estar a crescer significativamente, reconhece em números uma crescente procura de serviços profissionais de consultoria em comunicação e relações públicas. Não são apenas as multinacionais a gerar esta procura.

Os grupos nacionais, por experiência e observação, reconhecem que a comunicação tem, com primazia atestada, de ser gerida. O maior desafio passa por conhecer a realidade local e desenvolver tácticas que garantam uma operacionalização eficaz das estratégias. A noção do funcionamento do mercado e o profissionalismo nesta área são, portanto, as chaves do sucesso no mercado angolano.

Às agências presentes, que são muitas, resta estar em permanente trabalho de adaptação e fazer os possíveis por agarrar a sua fatia de mercado e não perder o lugar para uma concorrência que é cada vez maior e mais numerosa. Angola tem clientes que aumentam constantemente em número e em exigência, que sabem o que querem e não transigem.

É precisamente este equilíbrio entre a constante mudança e a mesma prestação, porque podemos ficar parados, não podemos ficar à sombra do excelente trabalho de ontem. Neste país, onde todos os dias aterram centenas de pessoas com projectos na bagagem, onde se asfaltam quilómetros de estrada em todas as direcções, onde se erguem edifícios em poucos meses, mesmo com a crise do petróleo, a dinâmica é sempre enorme.

Angola já não é 'coutada' de língua, nem refém de quem saiba mais. Angola é hoje um mercado livre, onde impera quem presta o melhor serviço e de acordo com exigências internacionais. Aqui convivem agências de várias nacionalidades, aqui o ritmo é o da terra, aqui a dança é de cá. As empresas de comunicação em Angola devem posicionar- se como o parceiro privilegiado, como uma 'janela' de oportunidades, garantindo o aconselhamento necessário sobre o mercado, os seus sectores, actores e agentes, mas também daquelas que já iniciaram operação em Angola e pretendem trabalhar a sua reputação e a dos seus produtos e serviços.

O mercado, após ter desenvolvido um processo de aprendizagem e de ajuste, quer mais oferta, mais diversificação, mais especialização. Há as agências presentes, mas há sempre lugar para mais, que tragam a competência e o poder de responder à altura dos desafios. Se, há uns anos, neste mercado, se abriam espelhos de empresas portuguesas, há muito que se cortou o cordão umbilical com a ex-metrópole e são os ares africanos a abrir horizontes na velha Europa. Por cá, porque se aprende de tanto convívio, porque aqui temos mesmo de conviver entre angolanos e estrangeiros, a mente respira melhor, torna-se mais elástica, mais tolerante, mais colorida. E o orgulho da terra sente-se.

Um mercado com 50 agências

Angola também viu nascer agências de comunicação que passaram fronteiras, que se internacionalizaram, que foram atrás do fio condutor que trouxe tantas para cá: afinal, a língua portuguesa é bidireccional, podemos seguir- lhe o rasto e visitar a terra dos visitantes e mostrar que a música de cá é música de todos. O mercado da comunicação atingiu uma maturidade em tempo recorde.

Neste presente em que vivemos, as empresas valem o trabalho que mostram, e os melhores embaixadores do nosso trabalho são os clientes. Os números oficiais apontam para cerca de 50 agências que trabalham a área da comunicação, 40 das quais associadas da Associação Angolana de Empresas de Publicidade e Marketing (AAEPM). Mas acredito que haja muito trabalho feito sem ser via agências oficiais, recorrendo a mercados lusófonos e até mais económicos. Mas estas são as que convergiram visões estratégicas e tiveram como objectivo fazer crescer o mercado, crescerem elas próprias e, sobretudo, aprenderem que o caminho se faz caminhando.

Se, há uns anos, estes números me assustavam, hoje reconheço que o lugar de que falo, para todas estas agências, é um lugar onde só fica quem faz por merecer, e comunicar é das actividades mais transparentes: ou se consegue… Para acertar o passo desta comunicação, resta-me dedicar algumas palavras ao meio que nós, os comunicadores, usamos: a imprensa; e o fim a que nos destinamos: a opinião pública.

O mérito deste amadurecimento do mercado está em vários termos da equação. A imprensa em Angola cresceu, desenvolveu-se, adaptou-se e profissionalizou-se no sentido massivo do termo. Temos mais e melhores jornalistas, mais críticos, com menos secretária e com mais faro para questionar. A imprensa não se limita a servir de veículo, incomoda-se, agita-se e obriga- -nos a estarmos atentos e a sermos éticos. Lido com jovens, hoje, como lidava com a velha guarda, a com escola feita de saber deontológico, e isso agrada-me.

Os desafios de sabermos trabalhar com, em vez de fazer o trabalho por, têm sido a maior recompensa nesta 'Angola da Dipanda'. Da opinião pública, essa massa anónima em que o verdadeiro poder assenta, pois julga, condena ou deífica, a opinião pública angolana dá cartas e não se deixa levar com música de embalar.

Estão atentos, lêem, não têm memória curta e falam, falam e discutem, esmiúçam e lembram. São mais certos que o norte da bússola, que neste lado dos trópicos aponta a mais a sul. Citei Mandela, mas termino com Vergílio Ferreira: "Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti." E nesta frase está tudo o que não defendo na comunicação!

* Director de Relações Públicas do Grupo Zwela

 

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