Director Carlos Rosado de Carvalho

A economia no jornalismo ou o jornalismo económico de Angola (II.ª parte)

A economia no jornalismo ou o jornalismo económico de Angola (II.ª parte)

Os economistas encontram falhas na maneira como a informação económica é divulgada.

Do ponto de vista jornalístico, o que se seguiu foi um processo histórico-económico marcado por dois momentos: a concentração das publicações de um carácter oficial, com uma abordagem que reflectia a ideologia dominante, ora sobre as realizações do Estado, ora sobre as unidades de produção. O segundo momento é marcado pelo nascimento da imprensa privada, onde se assiste a uma preocupação em ouvir outras vozes e sensibilidades político-empresariais, principalmente do mundo académico, fugindo ao formalista dogmático e estatal e com uma preocupação muito acentuada na interpretação dos factos.
Ao longo dos anos 90, há, não só a assunção desta nova lógica do jornalismo económico, como a emergência do jornalismo económico marcado por uma economia de mercado, onde alguns jornalistas merecem aqui o nosso destaque, na medida em que impulsionam esta mudança. Podemos citar aqui alguns nomes de jornalistas que foram fundamentais nestes processos no nosso ponto de vista: Reginaldo Silva, António Freitas, Mário Paiva, Luís Júnior, Pedro Cabral, Mariana Ribeiro, Pedro Chitas, Raimundo Salvador, Gustavo Costa, Samuel Chissingue e Cristóvão Neto, para além de novos nomes que despontaram nos últimos tempos - Evaristo Mulaza, Jorge Zua, António Nogueira, António Pedro e outros. Nesta altura, o espaço de análise era preenchido por analistas como Jonuel Gonçalves, Galvão Branco, José Oliveira, Lago de Carvalho, Alves da Rocha, Paulo de Carvalho, Carlos Gomes e outros, que preencheram as emissões de rádio, TV"s e páginas dos jornais, formulando opiniões e interpretando os factos económicos relevantes como a situação do mercado cambial, taxa de inflação, casos de sucesso no sector privado, aprovação e revisão do OGE e pouco mais. Também é importante referir que o conteúdo, neste tempo, esteve circunscrito aos grandes temas económicos da época. Neste período, RNA, LAC, TPA, Jornal de Angola, Comércio Actualidade, Correio da Semana, Agora, Angolense, revista Energia e algumas publicações afectas aos ministérios dominaram o panorama mediático angolano (Luandense?) trazendo abordagens de cariz económico.
Em 1998, temos de sublinhar o facto de ter surgido o prémio Kianda de Jornalismo económico, uma iniciativa da Associação dos Jornalistas Económicos de Angola (AJECO), com o patrocínio da Inter-comercial Moagens, que assim apadrinhava a atribuição do prémio. Este teve o condão de estimular a profissionalização da abordagem das matérias de cariz económico, embora tenha sucumbido poucos anos depois devido às dificuldades financeiras do patrocinador, que a dado momento se tornou também co-proprietário de uma publicação, o Jornal Angolense.
Apesar disso, não podemos deixar de realçar outros momentos, como o boom das revistas de economia (Economia & Mercados, Figuras & Negócios, Estratégia) e o aparecimento do primeiro jornal de especialidade e económica, o Expansão, a 12 de Fevereiro de 2009, uma iniciativa de um grupo de jovens angolanos regressados de Portugal e animados pelos novos rumos da economia angolana - Domingos Vunge, Arlindo das Chagas e Victor Fernandes, associados a grupos económicos.
O lançamento do Expansão é antecedido do Novo Jornal, uma verdadeira "pedrada no charco no panorama mediático nacional", demarcando-se pelo rigor e a separação entre informação e opinião. Convém sublinharmos que enquanto aprimorávamos este artigo, fomos surpreendidos com um novo projecto gráfico do Novo Jornal que suprimiu os cadernos de Economia e Mutamba. O Expansão segue-lhe a tendência, apostando num grafismo inovador e uma abordagem focalizada nas matérias económicas. Do ponto de vista do jornalismo económico, o Novo Jornal traz, entre os vários cadernos, um encarte cujo conteúdo é apenas económico, deixando claro sinal de que era o momento de aparecimento de uma publicação apenas com este teor. E como vimos, não tardou. Precisamente, um ano depois do NJ nasce o Expansão.
O nascimento do Expansão coincide com uma fase de reaquecimento da economia angolana, saída da guerra e marcada pela reconstrução, fruto de um ambicioso Programa Nacional de Reconstrução que incluía milhares de quilómetros de estradas e pontes, escolas, hospitais, órgãos da administração do Estado, saneamento urbano e reabilitação das cidades que eram verdadeiros escombros, etc. Neste contexto, as Edições Novembro lançaram igualmente o semanário Jornal de Economia & Finanças.
A tábua de lançamento do projecto Expansão foi a revista Estratégia. Do Expansão, por razões empresariais, nasce em 2015 um novo projecto editorial, a Media Rumo, grupo responsável por três inovadoras publicações - Jornal Mercado (de especialidade económica, mas com foco grande em banca e finanças), Revista Rumos (Business Inteligence) e o jornal Vanguarda (um jornal generalista voltado para políticas públicas de desenvolvimento).
A consolidação do jornalismo económico na fase actual, do nosso ponto de vista, dá-se também com o nascimento de novas publicações em 2015 e 2016 focalizadas nas questões de cariz económico e financeiro. Referimo-nos aos jornais Mercado e Valor Económico e revista Forbes, distanciando-se do Expansão pelo formato, design e conteúdo.


Considerações finais
Com o êxito da primeira emissão de eurobonds, tornou-se mais premente o desafio de se compreender correctamente os conceitos económicos, ou seja, de haver por parte dos Media conhecimento técnico sólido dos fenómenos económicos e o seu impacto sobre os mercados e a vida das pessoas, havendo então uma verdadeira especialização de jornalistas económicos, que se paute pelo rigor e responsabilidade, não cedendo ao imediatismo, sob pena de produzirem uma informação que agita os mercados financeiros, os investidores e as agências de notação de risco e cria vários prejuízos para o Estado e as empresas.
Os economistas, muitas vezes, encontram falhas na maneira como a informação de cariz económico é divulgada pelos jornalistas. Isso é comum em temas como o OGE, o balanço financeiro de um banco, o volume de investimento de uma fábrica como os resultados do leilão dos títulos do tesouro, só para exemplificar.
Quando isso sucede, eles acusam rapidamente a imprensa de desconhecimento, distorção e uma ênfase equivocada sobre um aspecto diferente do preferível. Ademais, os jornalistas são acusados com e sem razão: com razão, na medida em que muitas vezes se revela um gritante desconhecimento dos fundamentos económicos; e sem razão, na medida em há também algumas falhas de comunicação dos próprios economistas que fazem discursos incompreensíveis e longe das reais preocupações dos cidadãos.
Os economistas-académicos estão muitas vezes preocupados com as questões de política e esforçam-se em elaborar teses ou desenhar insights para os políticos. Este exercício nem sempre resulta frutífero no espaço público. Por alguma razão, segundo a observação do estudioso Richard Parker da Universidade de Harvard, os Media preferem os analistas (no caso Americano de Wall Street). Claramente, a questão de Parker é a de perceber o caminho para ultrapassar esta situação. E a sua resposta é inequívoca: os jornalistas devem melhorar o seu nível de literacia económica. E se isso é tão válido para a imprensa norte-americana, como ele sublinha, imaginemos o que dizer da realidade angolana... Foi claramente este o propósito de um curso ministrado pelo Instituto de Formação em Finanças Públicas e dirigido aos jornalistas angolanos que abordam quotidianamente as questões de economia e finanças públicas. É importante também realçar a necessidade de uma maior especialização dentro das questões económicas.
Por isso mesmo, é fundamental dotar os jornalistas de conhecimentos técnicos sobre o funcionamento do sistema económico nacional, com vista a garantir melhorias na compreensão da opinião pública e uma correcta abordagem dos fenómenos de natureza económica e financeira e das medidas do executivo para fazer face ao dilema actual, ou seja, uma reforma estrutural que nos permita abandonar o modelo de monocultura fiscal.
Os Media devem ter um maior e melhor domínio e um espaço cada vez maior sobre as diferentes áreas e questões de economia e financeira que interessam aos particulares, empresas, famílias e outras entidades. E há sinais claros de que as questões económicas deixarão de ter um tratamento politizado e de que se procura explorar devidamente outras plataformas tecnológicas para a disseminação deste género de informação.

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