Saltar para conteúdo da página

Logo Jornal EXPANSÃO

EXPANSÃO - Página Inicial

África

OMC veio a África para ganhar fôlego, mas saiu mais fragilizada

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO

Tentativa de avançar com dossiers importantes para impulsionar as economias e o comércio mundial esbarrou na intransigência de vários membros. EUA enfrentou oposição do Brasil na questão do comércio electrónico e (para já) perdeu o embate.

A conferência ministerial é o órgão decisório de mais alto nível da Organização Mundial do Comércio (OMC) e desta vez foi realizada na capital de Camarões, Yaoundé, entre os dias 26 e 29 de Março. Apesar da escolha ter sido justificada pelo potencial ainda por desenvolver no continente africano, o encontro ficou marcado pela total ausência de consenso em temas fundamentais e pela instabilidade que afecta a economia mundial, afectada por conflitos armados, guerras de tarifas e novas frentes proteccionistas.

Se a ideia era promover a esperança num futuro brilhante e na reforma da instituição, a OMC saiu de África mais fragilizada. Ao longo da 14ª Conferência Ministerial (MC14), com o bloqueio em temas como a moratória sobre o comércio electrónico e a própria reforma da OMC, o sistema que tem orientado e harmonizado as trocas comerciais entre as diferentes economias está em vias de ser substituído por uma realidade mais fragmentada, com países ou regiões a criarem estruturas paralelas para continuarem a fazer negócios entre si, o que pode originar uma dispersão de regras e novos regulamentos.

No caso do comércio electrónico, um dossier fundamental devido à evolução tecnológica e à explosão dos sistemas digitais (sobretudo via IA - Inteligência Artificial ou máquinas de muito elevada capacidade de tratamento e análise de informação) os EUA, com a China em cima do muro, pretendiam tornar permanente a moratória que evita a taxação deste e doutros tipos de negócios online, incluindo a prestação de serviços. A posição norte-americana é fácil de compreender e está alinhada com as vontades das empresas de tecnologia (Google, Amazon, Meta, entre outros) que têm vindo, a pouco e pouco, a "colonizar" boa parte da economia global.

De acordo com um comunicado da IBON International, uma organização da sociedade civil que cita a UNCTAD, esta moratória já provocou perdas avaliadas em 56 mil milhões USD nos países em desenvolvimento, em apenas 13 anos, entre 2007 e 2020. A questão da IA é muito importante para os países africanos, que pretendem ter mais margem de manobra para taxar estas empresas e negócios, até como forma de garantirem alguma receita fiscal, e protegerem a nascente indústria local.

O impacto da IA nas empresas é enorme, como já é visível, e vai provocar autênticas razias na geração de empregos (as máquinas preparam-se para substituir os seres humanos em inúmeras funções), com as regiões menos desenvolvidas e capacitadas para entrar neste jogo a estarem na primeira linha de impactos negativos. Em termos de investimento em IA, África vale menos de 0,5% do capital de risco aplicado neste tipo de produtos.

Os EUA, que chegaram a propor uma moratória de 5 anos (até 2031) para evitar a cobrança de taxas no comércio electrónico, talvez não contassem com a oposição férrea do Brasil, que bateu o pé durante o último dia da MC14, ao informar que apenas aceitava uma extensão de 2 anos (tal como os países africanos, que ainda assim mantinham alguma flexibilidade para negociar), com contrapartidas noutros campos de negociação, como é o caso da agricultura. Com as duas partes extremas, a moratória acabou por cair totalmente, o que abre espaço à cobrança de taxas online, pelo menos até decisão em contrário.

Este episódio indica também outra transformação estrutural dentro da OMC, que no fundo representa a realidade política e económica do mundo, com países como a China, Brasil ou Índia cada vez mais envolvidos nas grandes decisões. A tensão entre a velha ordem - um especialista sobre a vida interna da OMC dizia, em Yaoundé, que no início da OMC apenas quatro países ou regiões (EUA, Canadá, Japão e UE) se engajavam realmente - e os países emergentes parece estar para durar.

Leia o artigo integral na edição 870 do Expansão, quinta-feira, dia 02 de Abril de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui

Logo Jornal EXPANSÃO Newsletter gratuita
Edição da Semana

Receba diariamente por email as principais notícias de Angola e do Mundo