Do "eldorado" ao caos, um retrato da "guerra" que o gás fez explodir em Moçambique

Do "eldorado" ao caos, um retrato da "guerra" que  o gás fez explodir em Moçambique
Foto: D.R.

Corrupção, negócios de armas, excessiva militarização da região - com a presença de mercenários, grupos privados de segurança e forças armadas moçambicanas - luta entre duas facções da Frelimo (o partido do governo) na disputa pelas receitas da exploração de gás natural em Moçambique e agravamento das desigualdades sociais criaram uma mistura explosiva que mergulhou a província de Cabo Delgado num clima de violência e guerra.

Este é um quadro descrito em vários estudos e relatórios publicados no último ano e que foi confirmado ao Expansão por Abudo Gafuro, voluntário e líder da Kuendeleya, associação que no último ano assiste centenas de deslocados em Cabo Delgado (ver artigo de opinião na página 16), fornecendo comida, água e tecto a quem foge dos ataques dos grupos insurgentes. E que ecoa na afirmação do antigo bispo católico de Pemba, que em Fevereiro foi transferido para a diocese brasileira de Cachoeira, depois de "ameaças" de expulsão e de morte de pessoas ligadas ao "governo moçambicano".

Em entrevista ao jornal italiano La República, publicada este domingo, o bispo Luíz Fernando Lisboa deixa claro que o que se passa em Cabo Delgado "não é uma guerra religiosa", mas "económica", numa disputa pela exploração dos recursos naturais que junta multinacionais, corrupção ao mais alto nível e perseguição a todos aqueles que tentam denunciar o que se passa em Cabo Delgado. É o caso do jornalista Ibrahim Mbaruco, que está desaparecido desde o dia 7 de Abril de 2020, depois de ter alertado um colega que estava a ser seguido por um grupo de soldados.

Apesar desta mistura explosiva, que já causou mais de mil mortos e milhares de deslocados, o governo moçambicano recusa intervenção militar externa para combater a insurgência, alegando razões de "soberania".

Do Eldorado do gás ao caos

"Do Eldorado do gás ao caos" é o relatório mais pormenorizado e também o mais cáustico sobre o que se passa no norte de Moçambique. Divulgado em Junho de 2020, em plena pandemia da Covid-19, pela associação Justiça Ambiental (JA), o estudo revela a inoperância e conivência do governo moçambicano no caos que se instalou em Cabo Delgado, já demonstrado em pesquisas de vários investigadores e organismos. Mas aponta o dedo também ao Estado francês, aos grandes bancos privados franceses, incluindo o BNP Paribas, a Sociéte Générale e o Crédit Agricole, assim como ao "gigante dos combustíveis fósseis" Total, alguns dos "maiores beneficiários" das "enormes reservas" de GNL em Moçambique, cuja exploração vai exigir um "investimento de 60 mil milhões, num período estimado de 5 anos, até o gás começar a "jorrar" dinheiro. Todos querem ganhar o seu qui
nhão no boom do gás natural em Moçambique, sobretudo, as empresas francesas, que, com o apoio da sua diplomacia económica, foram-se instalando com relativo sucesso. E "empurraram Moçambique para a armadilha do gás", graças a uma "teia de corrupção estatal, negócios de armas, violações de direitos humanos" que "tem deixado a sua marca de destruição antes mesmo da primeira gota de gás natural liquefeito ter sido extraída", denuncia a JA.

(Leia o artigo integral na edição 620 do Expansão, de sexta-feira, dia 16 de Abril de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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