A variável confiança

A variável confiança

O adiamento do prazo do concurso para licitação dos blocos onshore, depois dos avisos de praticamente todos os especialistas e media que seria impossível cumprir o desiderato de ter empresas nacionais a candidatarem-se, com excepção da Sumoil, devido às condições impostas de forma unilateral, levanta outra vez a questão da governação à distância. Longe do mercado. Longe dos envolvidos, mas pior, sem ouvir os sinais que chegavam dos operadores.

Apesar das explicações que agora se podem trabalhar nos departamentos de comunicação, volta-se ao estado em que se deveria ter começado se o bom senso se tivesse sobreposto a uma arrogância muito própria de quem acha que tem os trunfos todos do baralho e não precisa dos parceiros para completar o jogo. Neste caso, em particular, a inflexão veio a dois dias do fecho do concurso, e agora passa-se o mais rápido possível a mensagem de que, afinal, não é necessário um milhão de dólares para entrar na corrida. Mas ninguém assume a responsabilidade do erro nem se pede desculpa aos operadores.

Infelizmente, não é um caso inédito nesta coisa da decisão e contra-decisão. Estende-se a outros sectores e a outras instituições, e representa essa enorme distância entre os que estão nos gabinetes da baixa de Luanda ou da cidade financeira, e os que no terreno desenvolvem a verdadeira produção nacional. Às vezes, é preciso lembrar que o crescimento económico não se faz com relatórios e comunicados, mas com investimento, unidades fabris, pessoas e produtos. E com diálogo. E fundamentalmente com confiança. Muitos defendem que esta é mesmo a variável mais importante na equação económica, a confiança.

E uma coisa é errar com o apoio do sector a que se destina uma determinada medida, com a responsabilidade a ser dividida, mantendo uma almofada de protecção para futuras iniciativas, outra é errar contra a opinião dos envolvidos, abrindo espaço à especulação sobre as capacidade e visão de quem dirige. E isso tem diferentes impactos no ranking da confiança. Pode não ter reflexos no dia seguinte, mas a médio prazo influencia nas decisões de investimento, nos projectos de cooperação e, claro, nos resultados económicos da actividade.

Hoje não precisamos apenas de aumentar a nossa produção nas mais diversas áreas, precisamos de bons parceiros, sérios e competitivos, que não vejam Angola apenas como um enorme pote de dólares, onde podem maximizar os seus dividendos. E estes, os que nos interessam, prezam bastante essa variável da confiança. Temos de ter cuidado com as nossas atitudes para que não tenham reflexos negativos nesta enorme caminhada de levar o País para a frente. O primeiro passo é ouvir e ter a humildade de reconhecer que não somos possuidores de toda a sapiência.

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