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EXPANSÃO - Página Inicial

Grande Entrevista

"Não temos grandes bancos para financiar os grandes projectos que o País exige"

Mário Nascimento, presidente da Associação Angolana de Bancos

Mário Nascimento diz que são injustas as acusações sobre os bancos estarem a dificultar o processo de diversificação económica do País. O crédito, a "avidez" pela dívida pública, os desafios e futuras fusões, são os temas centrais da Grande Entrevista.

Chegou à presidência da ABANC há quase dez meses, em tempos de mudanças no sistema financeiro nacional, com a entrada em vigor da nova lei das instituições financeiras. Que balanço faz ao seu mandato?

Já fizemos algumas coisas naquilo que é o espaço de intervenção com os associados. Já estamos até em processo de reestruturação da banca, para sermos mais assertivos na nossa missão e também sermos mais interventores no espaço público. Esta tem sido a nossa maior preocupação. Do ponto de vista do balanço, apesar dos dez meses, acho que ainda é cedo para fazer um balanço. Temos estado a fazer o papel que nos foi incumbido, mas precisamos ainda de tempo para consolidar e até termos aqui um processo de maior coesão e maior espaço de auscultação daquilo que são os associados mais pequenos. No fundo, os bancos mais pequenos também sentem esta falta de alguma voz junto da ABANC e do supervisor. E nós temos estado também com esta preocupação.

Quais os principais desafios que o sector bancário enfrenta actualmente?

Podemos até dizer que há bancos cujos desafios são muito internos e aqueles têm alguns desafios mais de enquadramento do sector. Mas eu reconheceria quatro desafios na banca: primeiro é o processo de modernização da própria banca; os bancos estão num processo de digitalização, de reforço dos canais de distribuição ou até produtos mais atractivos. E a pandemia acabou por trazer para o espaço público alguns desses desafios, nomeadamente a questão da banca remota, do internet banking, da desmaterialização de alguns produtos e serviços bancários. Por isso a digitalização é claramente um dos desafios da banca.

Mas há mais...

Outro desafio tem a ver com o espaço de reformas que o próprio sistema bancário precisa de ter. Acho que nós temos que ter um sistema bancário, além de mais sólido e mais resiliente, que tenha e acomode mais a preocupação dos depositantes. Precisamos de ter um sistema bancário mais inclusivo.

O sistema bancário actual não é inclusivo?

Não. O nosso espaço de bancarização precisa ainda de crescer. Precisamos de tornar a banca mais inclusiva. Apesar de tudo, a banca ainda tem espaço para chegar mais próximo dos cidadãos. É só vermos que ainda temos espaço para trazer para o sector bancário muito do que é a informalidade. Precisamos de reforçar alguns aspectos relacionados com a concorrência. Precisamos de uma banca mais concorrente para que haja maior disponibilização de produtos bancários. E maior qualidade da prestação de serviços.

Os clientes queixam-se muito dos bancos em Angola...

Já temos feito muito naquilo que é a satisfação dos nossos clientes mas ainda temos um nível de queixas dos nossos depositantes que achamos que há espaço para melhoria, nomeadamente na qualidade de serviço que tem a ver com o atendimento, com os tempos de respostas daquilo que são as solicitações e aí claramente precisamos de aumentar a qualidade dos serviços a prestar aos nossos clientes.

Mas também há desafios relacionados com as relações com os sistemas financeiros lá fora...

Temos provavelmente desafios que vão decorrer agora da solicitação do BNA para equivalência de supervisão junto do banco central europeu, e a banca angolana precisa de capacitar-se não só do ponto vista financeiro organizacional, mas também do ponto de vista procedimental. Precisamos criar aqui uma banca que também consiga estar inserida no sistema financeiro internacional e estar adequada aquilo que são os requisitos, nomeadamente requisitos de transparência, de disponibilização de informação de adequação dos procedimentos aos temas de branqueamento de capitais e penso que isso eventualmente é um dos desafios que também temos. E que provavelmente pode ser que resolva alguns dos desafios que nós temos relacionados com a questão da relação de correspondência [bancária].

Muito se tem falado na falta de correspondentes bancários...

Um dos problemas que a banca angolana tem é o processo da correspondência, processo que decorre exactamente dessa nossa organização, da transparência do nosso sistema financeira, a questão de termos aqui processos mais sérios de ver e definir a tipologia de clientes que nós temos.

Considerando estes desafios que enumerou, se for feito um teste à banca angolana no que toca à questão da equivalência de supervisão ao Banco Central Europeu (BCE). Angola passaria neste teste?

A pergunta é injusta. Estamos num processo de solicitação, o que implica que temos de fazer algumas reformas no sistema. Não é só Angola. Se formos ver, há uma série de países no mundo que não têm equivalência de supervisão do BCE. Nós somos dos poucos países em África que está a pedir esta solicitação. Penso que em África só a África do Sul é que terá essa equivalência. Por isso, se se fizer uma avaliação actualmente nós temos [condições]. Nós não estaríamos habilitados. Não é uma questão só de passar é uma questão de habilitação.

Para Angola ter uma supervisão equivalente à do BCE, que reformas teria de submeter?

Nós para passarmos tínhamos de estar em condições de nos habilitar para podermos passar. Estamos num processo de habilitação. Como se sabe, o BNA iniciou um processo de supervisão que trabalha de um lado o BNA e do outro lado os bancos comerciais. Da parte do BNA, tem a ver com muitas questões regulatórias e organizacionais.

E da parte da banca?

Tem a ver com questões relacionada com adequação de capital, com questões de procedimentos relativos ao compliance, governação corporativa e também o cumprimento daquilo que são alguns processos de prestação de informação.

Portanto não passaríamos no teste...

Se tivermos de fazer uma avaliação hoje, sem o processo de habilitação estiver concluído, nós não estaríamos em condições de passar. Para isso é preciso que nós nos habilitemos e criemos as condições para depois fazermos essa solicitação [da equivalência à supervisão do BCE]. Por isso, nem sequer fizemos essa solicitação e nem seria razoável que nós estivéssemos a fazer essa solicitação nesta altura.
Angola tem hoje 25 bancos a operar no mercado. Acredita que ainda há espaço para novos bancos ou temos bancos a mais?

O ter bancos a mais pressupõe sempre nós termos a procura de serviços bancários completamente satisfeita. Satisfeita no sentido não só do acesso aos bancos, como do acesso aos serviços financeiros e bancários. Nós temos uma particularidade que é os bancos quase todos a fazerem exactamente as mesmas coisas. Os desafios têm de ser vencidos com aqueles que cá já estão. Não temos dúvidas que são aqueles bancos que cá estão têm que vencer esse desafio para que possamos exactamente ter o sistema financeiro e o sistema bancário melhor.

Então não há espaço para mais bancos?

Claro que há sempre espaço para o surgimento de mais bancos ou o surgimento de entrada de novos bancos. E a entrada de novos bancos tem sempre uma vantagem que traz sempre mais concorrência e traz sempre qualidade. Pelo menos é sempre essa a expectativa no surgimento de bancos. Esta questão de termos ou não termos mais bancos depende do que é que estamos a falar. Como disse, temos muitos bancos a fazerem exactamente as mesmas coisas. Eu acho que há espaço para bancos diferenciados para actuação em zonas específicas.

Como assim?

Isto é, eu não acredito que não haja espaço para surgimento de bancos regionais. Neste momento temos uma banca muito centralizada na decisão das sedes, que é em Luanda. E é um pouco o que ocorre no processo político que temos no país. Se há uma descentralização política, também é expectável que haja uma descentralização económica e financeira. Por isso, bancos pequenos, com interesses regionais, para financiamento de projectos pequenos regionais, eu penso que há espaço.

Mas o governador do BNA tem apontado à fusão de bancos. Significa isto que estão a chegar desafios muito grandes à banca nos próximos tempos?

Eu estou de acordo com o senhor governador. A banca precisa de consolidação. O que eu estou a dizer é que temos muitos bancos a fazerem exactamente as mesmas coisas. Neste contexto, é preciso que haja consolidação. Nós não podemos estar num paradigma em que a banca esteja toda ela do mesmo lado, em que há bancos que depois têm dificuldades ou perspectivas de sobrevivência muito limitada porque não são diferentes dos bancos que já cá estão. E até não são nem mais eficientes, nem prestam melhor serviço. E aí estou de acordo que é preciso uma consolidação.

Então admite que vêm ai mudanças...

Claro que o processo de consolidação vai trazer mudanças, porque o sistema não vai ser o mesmo. Teremos um sistema bancário eventualmente com maior concorrência e maior capacidade de intervenção dos bancos. Nós apesar de termos muitos bancos, penso que não temos tantos bancos com capital suficiente para fazerem grandes operações.

(Leia a entrevista integral na edição 630 do Expansão, de sexta-feira, dia 25 de Junho de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)