Soluções e medidas urgentes para o crescimento da economia em 2026
Apesar do pessimismo e da descrença na tomada de medidas que contribuam efectivamente para o desenvolvimento da nossa economia, os 15 convidados pelo Expansão para fazer a projecção do ano avançam com ideias e acções que deveriam ser seguidas para que o País pudesse ter um crescimento maior e mais harmonioso, envolvendo todos os cidadãos de forma inclusiva, permitindo a melhoria das condições de vida à maioria da população. Um exercício que repetimos todos os inícios de ano, sendo que muitas das opiniões aqui expressas são repetidas porque o País continua longe de ter uma economia de acordo com as suas potencialidades.
GALVÃO BRANCO | Consultor
Estou em crer que no próximo exercício económico (2026) mesmo em momento eleitoral, não venha a registar-se significativos crescimentos na economia nacional, que continuará dependente da produção de petróleo quer em termos de volume como dos preços que será comercializado no mercado internacional. Poderão eventualmente ocorrer novas descobertas que influenciarão positivamente as receitas fiscais com impacto na tesouraria nacional.
FERNANDO PACHECO Eng. Agrónomo
No sector agrícola é de esperar que alguns importantes investimentos empresariais, iniciados ou anunciados em 2025, comecem a dar frutos e que surjam novos. No entanto, quem pretende pensar estrategicamente em Angola, ou simplesmente fazer futurologia, esbarra com vários tipos de obstáculos, com particular relevância para a ausência de estatísticas consistentes e/ou para a sua credibilidade. Por outro lado, em Angola como em muitos outros países africanos, deparamo- -nos com convivências difíceis entre uma expressão ideológica assente no primado do direito e da lei, por um lado, e o respeito, frequentemente incontornável, por valores colectivos ou de grupo, solidariedades de tipo variado, normas de parentesco e certas crenças, por outro, aspectos que no nosso caso são agravados por um nefasto determinismo político- -partidário. Com este "cadinho", a que já me referi em idêntico exer cício solicitado pelo Expansão há um ano, qualquer vaticínio sobre o desempenho da economia, em 2026 e nos próximos anos, não pode ser optimista enquanto esta situação não for revertida. Não resisto a referir o caso da inflação e os reiterados incumprimentos das metas estabelecidas ao longo dos anos. No OGE de 2024 a taxa de inflação estimada era de 15,3%, a real foi de 27,5%. Para 2025 o Executivo estimou inicialmente 16,6% e depois corrigiu para 17,5% (sendo a de Novembro exactamente de 16,6%), o que tem sido considerado um êxito, como fosse possível aos angolanos suportarem mais este abalo, quando se sabe que a perda do poder de compra dos funcionários públicos, nos últimos quatro anos, foi de 38%. Nada garante que a inflação se mantenha nesse nível ou venha a baixar nos próximos anos (a previsão para 2026 é de 13,7%), pois a nossa inflação tem um comportamento do tipo iô-iô, sobe e desce de acordo com insondáveis variáveis. O mesmo se poderá dizer sobre outros indicadores macroeconómicos e sectoriais. Finalmente, não podemos deixar de fora a imprevisibilidade da evolução do contexto internacional cada vez mais sóbrio. Noutra perspectiva, reitero mais uma afirmação de há um ano. Em Angola não se respeitam o Plano Nacional, as políticas e medidas de política, os programas e os projectos aprovados. Ainda que tenham força de lei. Este, e outros tipos de ´modus operandi´ erráticos, aliado às persistentes fragilidades institucionais, violenta a confiança dos empresários no ambiente de negócios, como os índices regularmente revelados comprovam. Não posso, pois, esperar desenvolvimentos positivos sem adequadas medidas de correcção.
FILOMENA OLIVEIRA - Empresária
Estando a um ano de eleições esperamos melhorias consideráveis, como vem sendo da praxe no âmbito do comportamento político em épocas similares. No entanto, estas melhorias terão de ser obrigatoriamente sustentáveis e duradouras, assentes em políticas, programas e projectos com impacto significativo na vida dos cidadãos.
Com o actual nível de falta de apoio concreto e palpável e de oportunidades de criação de rendimento e de recursos básicos nas famílias, o elevado índice de desemprego numa população maioritariamente jovem, corremos o risco de logo de seguida mergulharmos num ambiente de total descrédito político e de instabilidade social. Este cenário onde cerca de 60% da população tem menos de 25 anos, e 30% dos jovens está desempregado, poderá vir a ser agravado de sobremaneira se o Executivo ceder à imposição do FMI de retirar o subsídio ao gasóleo, atirando o custo por litro deste factor de produção em todos os sectores da economia para uma fasquia bem perto dos mil kwanzas por litro, impactando directamente na renda das famílias, nas empresas, em especial as Micro Pequenas e Médias Empresas que têm estado a ser assoladas de morte prematura acelerada em Angola, mesmo que sejam instituídos suprimentos sociais tipo "Kwendinha" para todos.
MÁRIO NASCIMENTO - Presidente da ABANC
2025 foi um ano difícil para a economia e para os angolanos. Vínhamos de um crescimento de 4,4% em 2024, e era expectativa que 2025 fosse também um ano com um crescimento robusto, acima do crescimento da população, estimado em cerca de 3,3%. Para 2026, é expectável que a economia cresça, embora a um ritmo inferior a 2025, mas que os esforços no sentido da consolidação fiscal se mantenham e que a taxa de inflação diminua. Tendo em conta que 2026 é o ano pré-eleitoral, a economia tenderá a entrar num "modo de gestão de riscos", pois haverá uma maior sensibilidade política, maior pressão social e, por isso, maior tentação de despesa, justamente quando o espaço orçamental é limitado, principalmente pelo peso do serviço da dívida.
O OGE 2026 sinaliza um peso muito elevado do serviço da dívida (cerca de 46% da despesa), e uma estratégia de maior recurso ao financiamento no mercado interno, que irá criar ainda maior pressão no sistema bancário e na liquidez da economia. Do ponto de vista macroeconómico, o cenário mais provável aponta para crescimento moderado, sustentado sobretudo pelo sector petrolífero e por alguma recuperação gradual do sector não-petrolífero.
A inflação deverá continuar a trajectória descendente, resultado da política monetária restritiva do BNA, mas permanecerá num patamar ainda elevado para padrões de eco poder de compra e o consumo. Contudo, para 2026 perspectivam-se riscos que ameaçam os cenários base do Executivo, do BNA e das instituições. Desde logo, a volatilidade do preço e da produção de petróleo, com forte impacto na receita fiscal, na taxa de câmbio de referência e na liquidez em moeda estrangeira, com impacto nos preços dos produtos e na taxa de inflação.
Do lado da política fiscal, a disciplina fiscal em ano pré-eleitoral é extremamente difícil de se verificar, o que a concretizar-se, muito dificilmente se poderá evitar a derrapagens das despesas publicas, e desta forma ameaçar a continuidade da desinflação e da descida sustentada de taxas de juro. Outros riscos são a ameaça a continuidade das reformas relativas ao ambiente de negócios, a diminuição e desacelaração dos investimento e reformas nos sectores da energia e da logística, vitais para a para aceleração do desenvolvimento do sector não-petrolífero.
O grande teste em 2026 será a capacidade do executivo em conciliar estabilidade macroeconómica com resposta às pressões sociais, evitando derrapagens fiscais que comprometam o esforço de consolidação realizado nos últimos anos.
JUDITE CORREIA - Economista
Como estamos num ano pré-eleitoral, é natural que haja um conjunto de medidas promocionais, populares e propagandistas que abranjam a maioria da população que, no caso angolano, são os jovens e as mulheres.
Angola é um país com enormes potencialidades, que podia ser um dos países mais ricos de África e, no entanto, é dos mais pobres, o que é difícil de entender para muitos.
Temos um País doente, que urge dinamizar e desenvolver, para bem não só dos angolanos e dos africanos, mas de todo o mundo, e temos tudo para que isso aconteça. Por exemplo, no sector dos transportes, fundamental num País quatorze vezes e meia a dimensão de Portugal, seria fundamental aumentar a mobilidade e as comunicações com carácter de urgência e seria aconselhável que começasse já em 2026. Para citar um caso facilmente exequível, começar a restaurar as estradas nacionais, até com a implementação do antigo sistema dos cantoneiros, em que havia pessoal encarregue de cuidar e velar pelo bom estado de um troço específico das estradas nacionais.
De capital importância, seria começar já a implementar a criação de uma quarta linha de caminhos de ferro, que unisse, em sentido vertical as três paralelas já existentes, o que iria permitir uma muito maior mobilidade, intercâmbio e articulação, com grandes vantagens para o desenvolvimento e coesão do país. O atraso gritante das Províncias, com a macrocefalia da região de Luanda também devia ser já combatido em 2026....
SÉRGIO CALUNDUNGO - Sociólogo
A verdade é que os sinais actuais indicam um cenário de incerteza, mas ainda assim não podemos deixar de considerar as oportunidades. Habitualmente em Angola, quando há proximidade das eleições nota-se uma tendência de aumento das despesas públicas, com foco em infraestruturas e equipamentos, e nós não podemos esquecer que os preços do barril de petróleo continuam voláteis. Se não houver reformas estruturais, o risco é repetir ciclos de endividamento e gastos com projectos que tenham pouco impacto a médio e longo prazo.
A minha esperança é de que se trabalhe para promover transparência orçamental e participação dos cidadãos para garantir que cada kwanza investido gere impacto económico e social real. Acredito que com maior abertura no acesso a dados e reforço dos mecanismos de monitoria, incluindo por actores independentes, pode- -se transformar este ano "pré-eleitoral" num ponto de viragem para uma economia mais inclusiva e resiliente.
A questão é saber como podemos influenciar essa agenda? MÁRIO RUI PIRES Consultor Na minha opinião, quaisquer acções em 2026, nunca vão ter reflexos efectivos até às eleições de 2027, a economia não reage instantaneamente. De qualquer forma, acho que o Executivo tem que definitivamente orientar o seu esforço de apoio ao Sector Privado, seja nacional ou internacional, em termos de apoio institucional e financeiro, para sectores específicos, que venham a ter impactos no médio prazo, e nos aspectos que mais afectam a população mais pobre. Estamos especificamente a falar da Agricultura familiar e comercial, associadas à produção de milho, soja, feijão e arroz, a Pecuária das Aves e Caprinos, e a Agroindústria, associada à matéria-prima de produção local, como seja, hortícolas, frutas, etc. Adicionalmente estimular o sector mineiro e o sector do turismo.
NETO COSTA - Economista
Angola confronta-se com problemas persistentes de instabilidade macroeconómica e estruturais, estes relacionados com o capital humano e infraestruturas, que têm impactado negativamente no investimento privado, de tal modo que continua fortemente dependente do sector petrolífero. E a isso associa-se uma despesa pública não racionalizada, apesar da retórica, traduzida em prioridades erradas, gastos ineficientes e ineficazes e um Tesouro Público demasiado endividado. Deste modo, sendo 2026 ano de véspera das eleições gerais e porque o poder executivo acha-se no "caminho certo", o que se pode esperar é que a economia nacional continue a caminhar ao sabor do comportamento da renda petrolífera, agravado com a expansão das despesas públicas ineficientes e ineficazes com fins eleitoralistas.











