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Angola

Vendedores resistem a mudança e preferem ficar em zonas proibidas

REQUALIFICAÇÃO DO MERCADO DOS CONGOLESES AFECTA 2.223 COMERCIANTES

Obras de requalificação do mercado dos Congoleses prevêem um investimento de mil milhões Kz. Os vendedores apontam o acesso como principal empecilho na sua transferência para três mercados alternativos indicados pela administração municipal: Chapada, Ngola e do Popula.

O encerramento do mercado dos Congoleses, no município d o R a n g e l , obr i g ou m a i s d e dois mil vendedores a procurar alternativas. Contudo, em vez de ocuparem os espaços indicados pela administração, muitos regressaram às ruas e esquinas dos Congoleses, desafiando a proibição do Governo Provincial de Luanda (GPL) e expondo a persistência da informalidade no comércio da capital.

O mercado dos Congoleses, reconhecido pela sua intensa movimentação e diversidade de produtos, foi encerrado, no dia 22 de Junho, para obras de requalificação, que deverão prolongar-se por seis meses. Finda a requalificação, está previsto o regresso dos vendedores ao mercado.

Até lá, os comerciantes foram instruídos a procurarem mercados alternativos, onde permanecerão provisoriamente, tendo recebido uma ficha que comprova que "pertencem" ao mercado dos Congoleses e que, segundo a Administração do Rangel, garante o seu regresso.

O projecto de requalificação, inscrito no Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2026, prevê um investimento de mil milhões de kz e promete devolver à cidade "um espaço moderno, limpo e seguro, capaz de responder às exigências de higiene e organização que há muito eram reclamadas", refere o administrador do Rangel, Lourenço Domingos.

Apesar das garantias oficiais, a realidade mostra que os mercados alternativos designados para acolher os vendedores permanecem praticamente desertos, o que atesta a resistência na mudança. Os comerciantes preferem manter-se nas ruas para não perder a clientela habitual, revelando o dilema entre a necessidade de modernização urbana e a sobrevivência diária de milhares de famílias que dependem da economia informal.

Espaços vazios, ruas cheias

Para não ficarem à deriva durante a requalificação do mercado dos Congoleses, a Administração Municipal do Rangel distribuiu os 2.223 comerciantes registados por três mercados alternativos: Chapada, localizado no bairro Marçal, para onde foram encaminhados 850 vendedores; Ngola, situado nas imediações do próprio mercado dos Congoleses, com 686 vendedores; e o das Neves Bendinhas, mais conhecido como Popula, no bairro Popular, acolheria os restantes 687 vendedores.

Na prática, porém, os novos espaços permanecem praticamente vazios. Muitos vendedores resistem à mudança e continuam a comercializar nas ruas e esquinas próximas ao antigo mercado, ocupando zonas impróprias como passeios e até mesmo trechos das estradas.

A principal razão apontada é a perda de clientela e as dificuldades de acesso aos novos mercados, factores que tornam inviável a sua permanência nos mercados para onde foram transferidos provisoriamente. Pedro Fernando (nome fictício), técnico de electrónica com mais de 15 anos de experiência, explica ao Expansão por que continua a vender nas ruas, apesar da orientação da administração municipal.

"A requalificação merece requalificação merece aplausos, mas a direcção municipal pecou em nos mandar para zonas de difícil acesso. No mercado da Chapada, por exemplo, o acesso é o maior empecilho. Por isso, continuo a vender na rua", explicou.

Segundo ele, muitas vezes, são os próprios clientes que incentivam os vendedores a permanecer em locais impróprios, já que não se deslocam até aos mercados alternativos. Dona Joana Ferraz, que também optou pelo anonimato, reforça dificuldade de adaptação. "No mercado do Popula quase ninguém me conhece. As minhas clientes não aceitarão se deslocar até lá só para comprar carne de 2000 kz ou couve de 500 kz. Prefiro continuar aqui, mesmo que seja nas esquinas e informal", disse a mulher, que vende carne abatida e verduras há duas décadas nos Congoleses.

Joana Ferraz relata que monta a sua banca diariamente, às 7h00, e só a retira por volta das 18h00, numa rotina que se repete há anos. A resistência dos comerciantes expõe e reforça um problema estrutural, a informalidade, que sustenta milhares de famílias e que continua a ser o rosto da economia angolana.

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