Agricultura pesa 23% no PIB, mas continua sem protecção dos seguros
O seguro agrícola continua com uma expressão residual. Com apenas 78 milhões Kz de prémios e uma sinistralidade de 290,8%, as seguradoras enfrentam dificuldades para desenvolver o negócio, enquanto milhares de produtores permanecem expostos aos riscos da actividade.
A agricultura tornou-se o sector com maior contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) de Angola, ao atingir um peso de 23,06%, ultrapassando o sector petrolífero. No entanto, este crescimento não tem sido acompanhado pelo desenvolvimento de mecanismos de protecção financeira capazes de reduzir os riscos da actividade.
Milhares de produtores continuam expostos a perdas provocadas por fenómenos climáticos, pragas e outros acontecimentos que podem comprometer uma campanha agrícola, num mercado em que o seguro agrícola permanece praticamente estagnado. Segundo os dados do IV trimestre de 2025 da Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG), a taxa de sinistralidade do seguro agrícola atingiu 290,8%, evidenciando as dificuldades de sustentabilidade deste segmento. A produção de prémios brutos emitidos ficou limitada a 78 milhões Kz, enquanto os custos com sinistros ultrapassaram os 226 milhões Kz.
Na prática, por cada 100 Kz recebidos em prémios, as seguradoras suportaram cerca de 291 Kz em sinistros, sem contabilizar os restantes custos operacionais. Um desequilíbrio que reduz a atractividade do negócio e ajuda a explicar a resistência das companhias em apostar num segmento com elevado potencial, mas também com riscos significativos e uma carteira de clientes reduzida.
A experiência internacional mostra que o desenvolvimento do seguro agrícola dificilmente acontece sem intervenção pública, sobretudo em mercados dominados por pequenos produtores. Países como Moçambique, Senegal e Quénia têm recorrido a programas governamentais e mecanismos de incentivo para aumentar a cobertura dos riscos agrícolas. Angola também conheceu vários projectos- -piloto, mas as iniciativas não conseguiram ganhar escala, em grande medida pela ausência de apoio público continuado.
Actualmente, apenas quatro seguradoras comercializam produtos agrícolas no País: Viva Seguros, Nossa Seguros, ENSA e SanlamAllianz. O desenvolvimento deste segmento tem contado com a cooperação entre a ARSEG e a International Finance Corporation (IFC), numa tentativa de alargar a oferta e aumentar a penetração do seguro junto dos produtores.
O paradoxo do sector agrícola
O paradoxo é evidente. A agricultura, apresentada como um dos motores da diversificação económica e um dos maiores empregadores do País, continua a desenvolver-se sem uma rede de protecção financeira proporcional à sua importância. Quanto maior for a produção e o investimento realizado, maior será a exposição a perdas que podem comprometer a actividade e a recuperação do capital investido...











