Consultoria aumentada e a redefinição do papel do Contabilista em Angola
As instituições de ensino e as organizações profissionais também desempenham um papel determinante neste processo. A actualização dos programas de formação e o investimento na qualificação contínua serão essenciais para preparar profissionais capazes de responder às exigências de uma economia cada vez mais digital.
A transformação digital está a alterar profundamente a forma como as empresas se organizam, operam, tomam decisões e gerem os seus riscos. Neste contexto, as profissões da contabilidade e da consultoria fiscal atravessam igualmente uma das maiores mudanças da sua história. A inteligência artificial (IA), a automação de processos, a análise avançada de dados e a crescente digitalização das obrigações fiscais não representam apenas novos instrumentos tecnológicos, mas estão a redefinir o papel do consultor. Em Angola, esta mudança assume especial relevância.
A modernização da Administração Geral Tributária (AGT), a implementação da facturação electrónica, a evolução dos ficheiros do tipo SAF-T e o reforço dos mecanismos de controlo fiscal, exigem das empresas uma capacidade de adaptação e resposta cada vez maior. Neste novo paradigma, o verdadeiro factor diferenciador deixa de ser a simples produção de informação contabilística ou fiscal para passar a ser a capacidade de analisar e interpretar dados que permitam antecipar riscos e apoiar nas decisões estratégicas do negócio. É neste contexto que ganha força o conceito de consultoria aumentada. Não se trata de substituir o profissional pela inteligência artificial, mas sim de potenciar as suas capacidades através do recurso à tecnologia. A IA consegue analisar grandes volumes de informação em poucos segundos, identificar padrões, detectar inconsistências e automatizar tarefas repetitivas.
Contudo, continua a depender do julgamento humano para interpretar os resultados, compreender o contexto empresarial e formular recomendações adaptadas à realidade de cada organização. Esta complementaridade é particularmente importante em Angola, onde muitas empresas enfrentam desafios relacionados com a qualidade da informação financeira, a digitalização dos processos e a escassez de recursos especializados. A utilização inteligente destas ferramentas pode reduzir erros, aumentar a produtividade e libertar tempo para actividades de maior valor acrescentado, como o planeamento fiscal, a gestão de risco, o apoio ao investimento e a melhoria dos processos internos.
Ao mesmo tempo, a digitalização reforça a responsabilidade dos profissionais. A automatização não elimina a necessidade de rigor técnico nem transfere a responsabilidade pelas decisões tomadas. Pelo contrário, exige maior capacidade crítica para validar resultados, garantir a conformidade legal e assegurar que os algoritmos são utilizados de forma ética e transparente. A evolução tecnológica traz igualmente novos desafios para as organizações.
A protecção dos dados, a cibersegurança, a qualidade da informação e a governação dos sistemas tornam-se factores essenciais para garantir confiança nos processos digitais. A adopção da inteligência artificial deve ser acompanhada por políticas claras de controlo, supervisão e responsabilidade, assegurando que a tecnologia serve os objectivos do negócio, sem comprometer os princípios éticos e legais.
Para os profissionais, esta transformação implica uma mudança de perfil. As competências técnicas continuarão a ser fundamentais, mas serão complementadas por conhecimentos em análise de dados, tecnologias digitais, gestão da informação e comunicação estratégica. O consultor do futuro terá de combinar conhecimento fiscal e contabilístico com capacidade analítica, visão de negócio e domínio das ferramentas tecnológicas. Assim, os profissionais de contabilidade e fiscalidade tenderão a evoluir de meros processadores de dados para analistas e parceiros estratégicos de negócio.
As instituições de ensino e as organizações profissionais também desempenham um papel determinante neste processo. A actualização dos programas de formação e o investimento na qualificação contínua serão essenciais para preparar profissionais capazes de responder às exigências de uma economia cada vez mais digital.
No caso angolano, esta evolução representa igualmente uma oportunidade para aumentar a competitividade das empresas. Organizações que consigam integrar tecnologia, talento e boas práticas de governação estarão mais bem preparadas para cumprir as exigências regulatórias, atrair investimento, reduzir custos operacionais e responder com maior rapidez às mudanças do mercado. Mais do que uma revolução tecnológica, estamos perante uma mudança de paradigma. O valor da consultoria deixará de assentar predominantemente na produção de informação para se concentrar na geração de conhecimento, na antecipação de riscos e na criação de valor para as organizações.
A inteligência artificial não substituirá os consultores. Substituirá, isso sim, muitas das tarefas repetitivas que durante décadas ocuparam grande parte do seu tempo. Os profissionais que mais cedo abraçarem esta mudança, estarão também em melhores condições para assumir um papel mais estratégico, mais próximo da gestão e mais relevante para o desenvolvimento das empresas. A consultoria aumentada representa, assim, uma oportunidade para elevar a qualidade da profissão em Angola. O futuro pertencerá não às organizações que simplesmente adoptarem inteligência artificial, mas àquelas que conseguirem combinar tecnologia, conhecimento humano e ética profissional para criar soluções mais inteligentes, mais eficientes e mais sustentáveis.
AURÉLIO MARCÃO, Director de Business Services da KPMG Angola*











