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Opinião

Apertar o parafuso

EDITORIAL

A história política está cheia de governos que confundiram disciplina com consenso e silêncio com aprovação. Durante algum tempo, tudo parece funcionar. As vozes críticas diminuem, os aplausos aumentam e instala-se uma agradável sensação de controlo. Até ao dia em que aparece uma urna de voto. As urnas têm esse defeito terrível, não fazem barulho.

À medida que se aproxima o calendário eleitoral, parece instalar-se uma curiosa teoria da física política: quanto maior a pressão, maior será a estabilidade. É uma ideia fascinante. Quase tão fascinante como acreditar que uma panela de pressão resolve o problema do vapor mantendo a tampa fechada para sempre.

Nos últimos tempos, começa a notar-se um ambiente mais pesado. Não necessariamente por grandes acontecimentos, mas por pequenos sinais que, somados, acabam por desenhar um padrão. Uns moderam as palavras, outros evitam perguntas incómodas, alguns preferem não dar opiniões e muitos descobrem subitamente as vantagens do silêncio. Afinal, nunca se sabe quando uma observação menos alinhada pode ser interpretada como uma ameaça à ordem cósmica.

O mais irónico é que este tipo de estratégia costuma produzir exactamente o efeito contrário ao desejado. A psicologia humana tem destas manias inconvenientes. Quando alguém sente que lhe querem indicar com demasiada insistência o caminho certo, começa imediatamente a procurar a saída de emergência.

Existe hoje uma enorme faixa de cidadãos que não vive nas trincheiras políticas. Não veste camisolas, não participa em guerras ideológicas e não acorda todos os dias a pensar em partidos. São pessoas que trabalham, pagam impostos, reclamam do trânsito, das escolas, dos hospitais, do preço do pão e da conta da electricidade. Estão, politicamente, sentadas no centro da sala, ainda a decidir para que lado olhar.

Esses cidadãos não gostam particularmente da oposição nem são necessariamente apaixonados pelo poder. O que apreciam é a sensação de liberdade para pensar, criticar, concordar num dia e discordar no outro sem que alguém lhes entregue um certificado de fidelidade política.

Empurrá-los é um erro clássico. Porque quem está encostado à parede raramente continua parado. Normalmente procura espaço. E, por uma espécie da lei universal da convivência humana, quando o empurrão vem da esquerda, foge para a direita; quando vem da direita, foge para a esquerda. O instinto não é ideológico. É apenas humano.

A história política está cheia de governos que confundiram disciplina com consenso e silêncio com aprovação. Durante algum tempo, tudo parece funcionar. As vozes críticas diminuem, os aplausos aumentam e instala-se uma agradável sensação de controlo. Até ao dia em que aparece uma urna de voto. As urnas têm esse defeito terrível, não fazem barulho.

Talvez por isso fosse prudente recordar uma velha regra da gestão - válida tanto para empresas como para governos. Quando todos à sua volta dizem apenas aquilo que o chefe gosta de ouvir, não significa que tudo esteja bem. Significa apenas que alguém deixou de dizer o que realmente pensa.

Ainda falta um ano para as eleições. Em política, um ano é uma eternidade. Tempo suficiente para conquistar confiança, corrigir erros e convencer os indecisos. Ou, pelo contrário, para transformar cidadãos moderados em eleitores determinados... do outro lado.

O problema de apertar demasiado o parafuso é que chega uma altura em que ele parte. E quando isso acontece já não há chave que resolva. A democracia também funciona assim. Quanto mais se tenta alinhar todas as vozes, mais cresce a vontade de desafinar. E há uma péssima notícia para quem acredita que controla a partitura, os eleitores não votam em coro.

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