As "nossas" metodologias
O problema não está nos técnicos que refinam os métodos de cálculo. O problema está na tentação política de apresentar cada revisão estatística como se fosse uma realização económica. Não é a mesma coisa. Quando um indicador melhora porque uma fórmula passou a considerar variáveis diferentes, estamos apenas perante uma nova forma de medir a realidade.
Há países que crescem através do investimento, da produtividade, da inovação ou do aumento das exportações. Em Angola, por vezes, parece existir um caminho mais rápido: mudar a metodologia. A mais recente demonstração desta capacidade quase mágica surgiu com a actualização dos critérios utilizados pelo INA COM para medir os utilizadores da Internet. De um momento para o outro, o País passou a ter cerca de 18 milhões de utilizadores, um aumento de 48% face aos números anteriormente conhecidos. Sem que tivesse sido necessário instalar mais uma antena, lançar mais um cabo submarino, construir mais uma central de dados ou vender mais alguns milhões de telemóveis.
Naturalmente, as metodologias devem evoluir. Novas fontes de informação, novas tecnologias e novos comportamentos dos consumidores obrigam a rever modelos de cálculo. Isso acontece em todo o mundo. O problema surge quando as alterações começam a transformar-se numa espécie de elevador estatístico permanente, capaz de melhorar indicadores sem que a realidade seja obrigada a acompanhar ao mesmo ritmo.
Nos últimos meses, habituámo-nos a assistir a exercícios semelhantes em diferentes áreas. O PIB muda de tamanho, a população activa ganha nova dimensão, os indicadores sectoriais são recalculados e, agora, também o universo digital cresce de forma significativa. Tudo isto pode ser tecnicamente correcto. Mas existe um risco evidente: criar a percepção de que o País avança mais depressa nos relatórios do que nas estradas, nas fábricas, nas escolas, nos hospitais ou nos empregos.
O problema não está nos técnicos que refinam os métodos de cálculo. O problema está na tentação política de apresentar cada revisão estatística como se fosse uma realização económica. Não é a mesma coisa. Quando um indicador melhora porque uma fórmula passou a considerar variáveis diferentes, estamos apenas perante uma nova forma de medir a realidade. Pode ser uma medição mais correcta, mas continua a ser apenas uma medição. Aliás, este excesso de entusiasmo estatístico acaba por produzir um efeito perverso. Em vez de valorizar os progressos verdadeiros, acaba por lançar dúvidas sobre eles. Se os números mudam frequentemente por força das metodologias, o cidadão comum passa a desconfiar tanto das boas como das más notícias.
Talvez por isso fosse mais sensato celebrar menos as revisões metodológicas e comunicar mais as realizações concretas. As metodologias são importantes. Muito importantes. Mas um país não se desenvolve por decreto estatístico. Nem cresce apenas porque alguém mudou a régua.













