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Opinião

Corredores de Desenvolvimento | A nova fronteira da integração económica Africana e o papel estratégico de Angola

CONVIDADA

Os corredores de desenvolvimento não são apenas vias de transporte. São instrumentos de transformação económica, integração regional e progresso social. E é precisamente nesta convergência entre infraestrutura, política pública e desenvolvimento humano que reside uma das maiores oportunidades para o futuro de Angola e de África.

O desenvolvimento económico sustentável das nações sempre esteve profundamente associado à sua capacidade de conectar territórios, mercados e pessoas. Ao longo da história, as grandes transformações económicas foram impulsionadas por infraestruturas que facilitaram a circulação de bens, serviços, conhecimento e capital. Dos corredores comerciais da antiguidade às modernas redes multimodais de transporte, a conectividade tem sido um dos principais fatores de prosperidade das sociedades.

Ao longo dos anos os corredores logísticos evoluíram para um conceito mais abrangente e estratégico: os corredores de desenvolvimento. Já não se trata apenas de infraestruturas destinadas ao transporte de mercadorias entre pontos de origem e destino. Trata-se de plataformas integradas de crescimento económico, industrialização, criação de emprego e integração regional.

Apesar de deter cerca de 30% das reservas minerais mundiais, mais de 60% das terras aráveis não cultivadas do planeta e uma das populações mais jovens do mundo, o continente africano continua a enfrentar desafios estruturais relacionados com os elevados custos logísticos, a fragmentação dos mercados e a limitada transformação local das matérias-primas.

As economias africanas foram estruturadas para exportar recursos naturais em estado bruto e importar produtos acabados com elevado valor acrescentado. Este modelo limitou a industrialização, reduziu a geração de empregos qualificados e restringiu a capacidade de retenção de riqueza dentro das economias nacionais. Com um mercado potencial de cerca de 1,4 mil milhões de pessoas e um PIB combinado superior a 3,4 biliões de dólares, a AfCFTA poderá aumentar o comércio intra-africano em mais de 50% até 2035, segundo estimativas do Banco Mundial.

Contudo, a integração económica não será alcançada apenas através de acordos comerciais ou harmonização regulatória. A integração exige infraestrutura. Exige corredores capazes de conectar centros produtivos, zonas industriais, mercados consumidores e portas de entrada para o comércio internacional.

Neste contexto, os corredores de desenvolvimento devem ser encarados como instrumentos de política económica e não apenas como projetos de transporte. Um corredor moderno integra portos marítimos, aeroportos, caminhos-de-ferro, estradas, plataformas logísticas, parques industriais, zonas económicas especiais e centros de distribuição. A sua função vai além da movimentação de carga. O seu verdadeiro objetivo consiste em criar ecossistemas económicos capazes de estimular investimento privado, aumentar a produtividade e promover o desenvolvimento territorial equilibrado. Angola encontra-se numa posição singular para liderar esta transformação em África. A sua localização geográfica, associada à extensa fachada atlântica de cerca de 1.650 quilómetros e às ligações históricas ao interior do continente, confere ao país uma vantagem competitiva e significativa no contexto da integração regional. Além disso, Angola faz fronteira com mercados estratégicos da África Austral e Central, posicionando-se como uma ponte natural entre regiões económicas de elevado potencial.

A modernização dos portos de Lobito, Luanda e Namibe, a reabilitação dos caminhos-de-ferro de Benguela, Luanda e Moçâmedes, bem como a entrada em operação do Novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, representam ativos fundamentais para a construção de uma nova economia orientada para a conectividade regional. Entre estes ativos, o Corredor do Lobito destaca-se como um dos projetos mais transformadores atualmente em desenvolvimento no continente africano.

A importância estratégica do Corredor do Lobito transcende largamente a sua dimensão ferroviária. Estruturado em torno do Porto do Lobito e da Linha Férrea de Benguela, o corredor estabelece uma ligação direta entre o Oceano Atlântico, a República Democrática do Congo e a Zâmbia. Esta infraestrutura oferece uma alternativa competitiva para o escoamento de minerais críticos provenientes do Copperbelt, uma das regiões mineiras mais importantes do mundo, responsável por uma parcela significativa da produção global de cobre e cobalto.

O potencial do corredor não reside apenas na exportação de recursos minerais. O verdadeiro valor económico será gerado pela capacidade de atrair investimento industrial, promover a transformação local de matérias-primas e desenvolver cadeias de valor regionais.

O desafio africano não consiste apenas em transportar cobre, cobalto, manganês, lítio ou produtos agrícolas para os mercados internacionais. O desafio consiste em criar condições para que uma parcela crescente destes recursos seja transformada localmente, gerando valor acrescentado, emprego qualificado e receitas fiscais.

Ao proporcionar acesso eficiente à energia, aos transportes, à armazenagem e aos mercados, estes corredores reduzem custos e aumentam a competitividade dos investimentos industriais, tornam- -se catalisadores da diversificação económica e da industrialização.

Paralelamente, os centros urbanos e populacionais desempenham um papel determinante neste processo. Luanda, com mais de 9 milhões de habitantes na sua área metropolitana, Benguela, Huambo, Huíla e outras cidades emergentes representam importantes polos de consumo, serviços e inovação. A sua ligação eficiente às regiões produtoras contribui para reduzir custos logísticos, melhorar o abastecimento dos mercados internos e fortalecer a integração económica nacional.

As plataformas logísticas assumem igualmente uma função estratégica. Estas infraestruturas permitem consolidar cargas, reduzir tempos de trânsito, aumentar a eficiência das cadeias de abastecimento. Mais do que simples áreas de armazenagem, devem ser concebidas como centros de geração de negócios, inovação e emprego. Por esta razão, os corredores do futuro devem ser planeados numa perspetiva integrada, articulando políticas de transporte, industrialização, educação, emprego, ordenamento do território e desenvolvimento regional.

O sucesso desta visão dependerá da capacidade de converter infraestruturas em desenvolvimento, conectividade em competitividade e localização geográfica em prosperidade partilhada. Se plenamente desenvolvido, o Corredor do Lobito poderá posicionar Angola como uma das principais portas de entrada e saída do comércio regional da África Central e Austral, reforçando o seu papel geoeconómico no continente.

Os corredores de desenvolvimento não são apenas vias de transporte. São instrumentos de transformação económica, integração regional e progresso social. E é precisamente nesta convergência entre infraestrutura, política pública e desenvolvimento humano que reside uma das maiores oportunidades para o futuro de Angola e de África.

Paula Bartolomeu, Administradora da ARCCLA

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