Energia sem crueldade | O que a saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da OPEP+ significa para um país que também disse chega?
A es perança que se abre, nesta nova era pós-OPEP, é a de que a energia deixe finalmente de ser usada como instrumento de crueldade e passe a ser, como sempre deveria ter sido, um veículo de prosperidade com partilhada. E isso só será plena mente alcançado quando cada país, cada comunidade tiver acesso à energia limpa, barata e produzida localmente.
A 1 de Maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos oficializaram a sua saída da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Para muitos analistas internacionais, foi um terramoto geopolítico sem precedentes: o cartel perdia o seu terceiro maior produtor, com uma capacidade instalada de 4,8 milhões de barris por dia, no pior momento possível, a apenas três meses do início da guerra com o Irão e do maior colapso de oferta de energia da história recente.
Para mim, como especialista angolano em economia da energia, este foi apenas o eco confirmado de uma mudança estrutural que já havíamos identificado em Dezembro de 2023, quando o nosso próprio país, Angola, decidiu abandonar a mesma organização. O que está em curso não é uma simples renegociação de quotas, nem um desentendimento entre vizinhos do Golfo.
Estamos a assistir ao funeral do modelo de cartel que durante seis décadas usou a energia como arma de pressão, criando privação artificial e infligindo sofrimento a milhões de pessoas em todo o mundo. Do ponto de vista técnico, esta decisão vinha sendo preparada há anos nos balanços da ADNOC, a empresa petrolífera nacional dos EAU.
Com uma capacidade instalada de 4,8 milhões de barris por dia e a meta ambiciosa de atingir 5 milhões já em 2027, três anos antes do previsto originalmente, Abu Dhabi investiu 150 mil milhões de dólares na sua infraestrutura de produção. Dentro do sistema de quotas da OPEP+, no entanto, os EAU viam-se confinados a produzir cerca de 30% abaixo da sua capacidade real, deixando literalmente mais de 1,5 milhões de barris por dia encalhados no subsolo. Para um país com custos de extração entre os mais baixos do mundo, isto equivalia a sacrificar dezenas de milhares de milhões de dólares anuais em receitas potenciais. O Baker Institute for Public Policy estimou que a libertação desta capacidade excedentária poderia desbloquear mais de 50 mil milhões USD por ano.
A isso soma-se a questão do timing: vivemos na era do pico da procura por petróleo. Como explicou Jorge Leon, da Rystad Energy, "esperar pela sua vez dentro de um sistema de quotas começa a parecer deixar dinheiro em cima da mesa". Os EAU perce..














