Funeral do petróleo
Uma coisa é o peso estatístico no PIB. Outra, completamente diferente, é o peso real da economia nas exportações, nas receitas fiscais, nas reservas internacionais, na capacidade de gerar divisas e no financiamento do Estado. E aí o petróleo continua a mandar quase sozinho.
A nova narrativa oficial da economia angolana tem qualquer coisa de milagroso. Depois de décadas a viver do petróleo, afinal bastou uma revisão estatística, umas novas fórmulas de cálculo e uma boa campanha mediática para descobrirmos que Angola já não é um país petrolífero, agora é agrícola. E mais, a agricultura já vale o dobro do petróleo no PIB. Quem diria? Tantos anos a procurar a diversificação económica e afinal ela estava escondida numa folha de Excel.
A tese, promovida com evidente entusiasmo pelo ministro da Coordenação Económica e amplificada pela comunicação social pública, tenta vender uma ideia politicamente sedutora. Final mente conseguimos libertar-nos da dependência petrolífera. O problema é que não é verdade.
A agricultura cresceu nos últimos anos, há mais produção, mais projectos, mais financiamento e maior participação da actividade agrícola no conjunto da economia. Isso é positivo e merece reconhecimento. Mas transformar esse avanço numa espécie de "re volução estrutural" é outra conversa. E bastante mais perigosa.
Porque uma coisa é o peso estatístico no PIB. Outra, completamente diferente, é o peso real da economia nas exportações, nas receitas fiscais, nas reservas internacionais, na capacidade de gerar divisas e no financiamento do Estado. E aí o petróleo continua a mandar quase sozinho.
Mas então como aparece esta "explosão" agrícola no PIB? A resposta está menos no campo e mais na metodologia. O novo cálculo das contas nacionais alterou os critérios de valorização da produção agrícola e ampliou os preços usados para calcular o valor final da produção. No entanto, poucos sabem exactamente quais são esses referenciais, como são construídos ou até que ponto reflectem efectivamente o mercado.
No fundo, estamos perante uma velha tentação do País, confundir anúncios com transformações, discursos com resultados e estatísticas com realidade económica. A verdadeira diversificação económica não se mede apenas pelo peso relativo no PIB. Mede-se pela capacidade de exportar, substituir importações, criar cadeias industriais, aumentar produtividade, gerar emprego qualificado, arrecadar impostos fora do petróleo e produzir divisas de forma sustentável.
Se amanhã o preço do barril cair drasticamente, não serão as exportações agrícolas que irão segurar o kwanza, financiar o OGE ou estabilizar as reservas internacionais. Continuará a ser o petróleo. Exactamente como nos últimos 50 anos.
Talvez por isso fosse mais prudente celebrar menos e produzir mais. Porque transformar Angola numa potência agrícola exige muito mais do que recalcular o PIB. Exige estradas rurais, armazenamento, irrigação, crédito agrícola funcional, seguros, mecanização, sementes, logística, investigação científica, cadeias de frio e mercados organizados. Exige competitividade. E, sobretudo, exige tempo. Até lá, talvez seja melhor não declarar já o funeral do petróleo. Afinal, em Angola, ainda é ele que continua a pagar a festa.














