Mercado de capitais
O mercado de capitais pode ser importante para a afirmação da classe média que está fora da linha ascensional partidária ou do amiguismo, porque, na verdade, é mais democrático, permite a participação de todos em pé de igualdade, do que uma nomeação ou promoção para um lugar simpaticamente bem remunerado.
Esta distribuição recorde de dividendos das empresas cotadas em bolsa pode ter um impacto significativo naquilo que é o desenvolvimento do mercado de capitais no País. Mesmo para os mais cépticos, as evidências não deixam dúvidas - o investimento no mercado bolsista é de longe o mais rentável dos mecanismos de aplicação de poupanças que existe no País, muito acima dos tradicionais depósitos prazos, dos recentes fundos de investimento, e mesmo do imobiliário, que passa por um período mais complicado, com pouco retorno devido à inexistência de um mercado dinâmico.
Para este ano especial também contribuiu muito a decisão dos dois bancos mais rentáveis, BAI e BFA, que distribuíram 50 e 60% dos seus lucros, contribuindo com mais de 286 mil milhões Kz, um pouco mais de 300 milhões USD, para o total de 313,3 mil milhões Kz que as cinco empresas cotadas em bolsa vão entregar aos seus accionistas. Uma parte significativa deste valor vai para o Estado, por via da sua participação no BFA, ENSA e BODIVA, mas uma fatia importante é riqueza que é entregue a privados, cidadãos, que de uma forma ou de outra, vão reinjectar parte deste valor na nossa economia.
Ninguém duvida que é necessário que uma parte importante da riqueza do País saia da mão do Estado, ou dos cidadãos que trabalham no Estado, para a sociedade civil, pois é esta, e isto está comprovado nas economias de maior sucesso, que têm maior capacidade de multiplicá-la e distribuí-la de forma mais justa.
O mercado de capitais pode ser importante para a afirmação da classe média que está fora da linha ascensional partidária ou do amiguismo, porque, na verdade, é mais democrático, permite a participação de todos em pé de igualdade, do que uma nomeação ou promoção para um lugar simpaticamente bem remunerado.
A ascensão social ainda está muito enviesada. Começa na educação de base, onde alguns têm acesso às melhores escolas e outros têm de suportar as vicissitudes do ensino público, passa depois à formação superior com os filhos e os primos dos mesmos a chegarem às universidades mais galardoadas do estrangeiro e os normais a lutarem nas escolas nacionais.
Segue-se o recrutamento profissional, onde a maioria da selecção ainda se faz com critérios que têm pouco a ver com a meritocracia. E o sector público continua a ser o melhor empregador, o que ajuda a perpetuar as actuas elites na parte superior da hierarquia social, independentemente do seu valor ou do seu contributo para o País. Pode parecer uma heresia, mas, dentro da nossa realidade, o mercado de capitais é um dos processos mais democráticos de geração de riqueza e afirmação social. Pensei que nunca ia dizer isto...













