O Investimento Directo Estrangeiro em Angola Dois sectores, duas histórias
A evolução do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em Angola entre 2017 e o 1.º Trimestre de 2026 revela duas trajectórias distintas e, em larga medida, divergentes: um sector não-petrolífero em recuperação sustentada e consistente, e um sector petrolífero historicamente caracterizado por saldos líquidos negativos, que regressou a saldos positivos em 2025 e manteve essa tendência no início de 2026.
A evolução do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em Angola entre 2017 e o 1.º Trimestre de 2026 revela duas trajectórias distintas e, em larga medida, divergentes: um sector não-petrolífero em recuperação sustentada e consistente, e um sector petrolífero historicamente caracterizado por saldos líquidos negativos, que regressou a saldos positivos em 2025 e manteve essa tendência no início de 2026.
O sector não-petrolífero Uma recuperação consistente
O IDE não-petrolífero registou, em 2025, um saldo líquido de 959,4 milhões USD - mais do que o dobro do valor apurado em 2024 (353,5 milhões USD, +171,5%) e o valor mais elevado de toda a série desde 2017. O 1.º Trimestre de 2026 prolonga esta trajectória de forma muito expressiva, com um saldo de 304,0 milhões USD - um valor já próximo de um terço do total anual de 2025 concentrado num único trimestre, e que, a manter este ritmo, poderá aproximar-se ou mesmo superar o recorde do ano anterior.
Olhando a série completa, o padrão de crescimento não é linear, mas é claramente ascendente desde 2020: de um saldo de apenas 113,4 milhões USD nesse ano, para 248,5 milhões em 2021, uma ligeira contracção para 197,6 milhões em 2022 e 124,0 em 2023 e depois uma aceleração clara em 2024 e 2025. Esta trajectória sugere uma consolidação gradual da confiança de investidores estrangeiros em sectores da economia angolana fora do petróleo, num contexto em que o país tem procurado atrair capital, através de uma diplomacia económica mais activa. Uma característica adicional reforça a robustez desta leitura: ao contrário do sector petrolífero, o IDE não-petrolífero praticamente não regista saídas de capital desde 2019; em seis dos últimos sete anos (2020 a 2025), com excepção de 2018, as saídas desta rubrica foram nulas ou residuais. Isto significa que o crescimento do saldo resulta quase integralmente de entradas novas de capital Ainda assim, é importante relativizar a dimensão absoluta destes números: mesmo no seu melhor ano de sempre (2025), o IDE não-petrolífero (959,4 milhões USD) representa um valor modesto face à dimensão da economia angolana e aos montantes historicamente movimentados pelo sector petrolífero, cujas entradas anuais rondam os 6 a 10 mil milhões de dólares. A recuperação é real, consistente e deve ser assinalada de forma positiva, mas o país está ainda longe de uma diversificação efectiva das suas fontes de investimento directo estrangeiro; a normalização deste indicador é, por ora, uma tendência a consolidar, não um objectivo alcançado. O sector petrolífero Uma leitura mais cautelosa sobre as saídas de capital O sector petrolífero apresenta uma dinâmica de saldos bem mais volátil e de maior escala. Entre 2017 e 2024, registou sistematicamente saldos líquidos negativos; isto é, as saídas de capital superaram sempre as novas entradas, num intervalo que foi de -1.463,8 milhões USD em 2024 a um máximo de -- 7.293,2 milhões USD em 2017. Importa, contudo, qualificar com rigor a natureza destas saídas. Estes valores não devem ser lidos, sem mais, como "desinvestimento" do sector petrolífero em Angola. A rubrica de saídas de IDE petrolífero corresponde à recuperação contratual de investimentos antigos, normal no sector petrolífero, que se inicia quando os investimentos já estão a produzir e se prolonga durante alguns anos. Os investimentos avultados no auge petrolífero foram recuperados pelas petrolíferas até 2024. A redução das saídas de IDE em 2025 corresponde ao fim da recuperação dos investimentos avultados do passado, não tem relação com os investimentos actuais. Feita esta ressalva, o que os dados de facto evidenciam é uma alteração relevante no saldo líquido entre entradas e saídas a partir de 2025; pela primeira vez desde 2017, o sector petrolífero registou um saldo líquido positivo, de 1.256,7 milhões USD, resultado de entradas de 10.027,1 milhões USD superiores a saídas de 8.770,5 milhões USD. O 1.º Trimestre de 2026 confirma a continuidade desta inversão, com um novo saldo positivo de 163,2 milhões USD (entradas de 2.174,0 milhões USD face a saídas de 2.010,8 milhões USD). O sector petrolífero As entradas de capital numa trajectória de crescimento sustentado Se a leitura do saldo líquido exige a ressalva feita acima sobre a natureza das saídas, a análise isolada das entradas de capital no sector petrolífero conta, por si só, uma história de crescimento consistente e é esta, no fundo, a variável que melhor reflecte o interesse efectivo de investidores estrangeiros pelo sector. As entradas de IDE petrolífero cresceram de forma praticamente ininterrupta desde 2020: de 6.197,5 milhões USD nesse ano, para 6.278,1 milhões em 2021, 6.811,3 milhões em 2022, 8.678,5 milhões em 2023, 9.513,3 milhões em 2024 e 10.027,1 milhões em 2025; um aumento acumulado de 61,8% em cinco anos, e o valor mais elevado de toda a série desde 2017. Note-se que este crescimento ocorreu de forma gradual e sustentada, e não por via de um único ano excepcional, o que reforça a leitura de uma tendência estrutural de reforço do investimento, e não de um efeito pontual. O 1.º Trimestre de 2026 confirma a continuidade desta trajectória: as entradas do trimestre (2.174,0 milhões USD) equivalem a cerca de 21,7% do total anual recorde de 2025, um ritmo consistente com a manutenção, e mesmo possível reforço, deste nível elevado de investimento ao longo do ano. Esta trajectória ascendente das entradas é o elemento mais robusto para sustentar uma leitura positiva sobre o sector petrolífero: independentemente da dimensão das saídas que, como assinalado, reflectem sobretudo a recuperação contratual de investimentos antigos e não uma medida do investimento actual. A viragem no saldo líquido reflecte, assim, sobretudo a conjugação de duas dinâmicas: por um lado, o crescimento sustentado das entradas de capital já descrito; por outro, o facto de, com o fim do ciclo de recuperação dos investimentos avultados do passado já assinalado, as saídas tenderem naturalmente a moderar- -se. Tratando-se, contudo, de um sector historicamente sensível a factores conjunturais diversos, esta inversão do saldo líquido deve ser lida com prudência: não é ainda possível confirmar, com apenas um ano e um trimestre de dados, se se trata de uma tendência já consolidada ou se poderá ainda ser afectada por factores externos ao sector. Leitura de conjunto Em síntese, o 1.º Trimestre de 2026 confirma dois sinais positivos e distintos, mas de natureza diferente, no Investimento Directo Estrangeiro em Angola. Por um lado, o sector não-petrolífero














