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Opinião

Os problemas que enfrentam os jovens produtores agrícolas nas províncias

CONVIDADA

Com o declínio inevitável do modelo assente exclusivamente na renda petrolífera - uma riqueza que nunca foi revertida a favor do povo -, a Geração Z surge não por opção, mas por exclusão de partes, como o motor necessário para a transição económica.

A imposição abrupta de quotas à importação de bens alimentares essenciais por parte do Executivo coloca a Geração Z perante o fardo histórico de resolver, sem apoios reais, a autossuficiência que o Estado falhou em garantir ao longo de décadas de governação.

O recente anúncio do Executivo angolano - que obriga os importadores de carne de porco, frango, arroz e açúcar refinado a adquirirem 20% das suas necessidades no mercado nacional - representa muito mais do que uma manobra económica tardia: constitui uma clara admissão de fracasso das políticas de fomento à produção interna. Para a população jovem angolana nascida entre meados dos anos 90 e o início da década de 2010 - a chamada Geração Z -, esta medida funciona como um teste.

O executivo transfere para os ombros da juventude a responsabilidade por uma promessa nunca cumprida de diversificação da economia, num país em que a própria liderança política se manteve historicamente dependente e refém do exterior. Esta transferência de responsabilidade gera um fenómeno de ansiedade sem precedentes. Exige-se que uma juventude fustigada pelo desemprego estrutural e pela falta de oportunidades de financiamento bancário se transforme, por decreto, num exército de empreendedores agrícolas de sucesso. O Estado, ao desresponsabilizar-se do planeamento macroeconómico de longo prazo, empurra para a iniciativa privada individual o peso de uma segurança alimentar que deveria ser uma fundação pública indestrutível.

A juventude angolana actual vive uma dualidade asfixiante, fruto da negligência estatal crónica. Se, por um lado, está plenamente integrada na era digital e na globalização através do consumo de tecnologia e redes sociais; por outro, depara-se com as fragilidades estruturais de um mercado de abastecimento interno sabotado pela falta de investimento público. Os jovens produtores agrícolas nas províncias enfrentam estradas destruídas e a falta de electricidade e água para escoar os produtos. A Geração Z rejeita a burocracia sufocante, o compadrio institucional e a corrupção que caracterizam os processos administrativos do Estado Angolano.

É neste fosso entre o digital e o real que a fractura se torna mais evidente. Enquanto os jovens dominam plataformas digitais e idealizam cadeias de distribuição modernas e eficientes, esbarram na realidade física de um país desconectado. Sem vias secundárias e terciárias transitáveis, o suor do trabalho no campo apodrece à beira da estrada antes de chegar aos grandes centros urbanos. A inovação tecnológica desta geração é anulada por uma infraestrutura que parou no tempo.

Esta directiva económica levanta temores legítimos de que a escassez imediata de oferta interna - provocada pela falta de apoio estatal prévio à agricultura - resulte na subida vertiginosa de preços no comércio a retalho, penalizando as famílias mais desfavorecidas.

A eficácia desta medida não dependerá do esforço dos jovens, mas sim da urgente e duvidosa capacidade de reforma do próprio Estado. Há o risco real de que a medida dos 20% agrave o custo de vida antes que o governo resolva os problemas estruturais da produção nacional.

A redução da dependência de bens alimentares importados posiciona-se como um factor de emergência nacional para o futuro demográfico de Angola. Com o declínio inevitável do modelo assente exclusivamente na renda petrolífera - uma riqueza que nunca foi revertida a favor do povo -, a Geração Z surge não por opção, mas por exclusão de partes, como o motor necessário para a transição económica. Resta saber se o Estado angolano será um parceiro ou, como tem sido, o principal obstáculo ao desenvolvimento da sua juventude.

Marta Bickel Professora na LAIS- British School of Angola

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