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Opinião

Produzir e inovar localmente, vencer globalmente | O paradoxo competitivo de Angola (Parte I)

CONVIDADA

Angola tem, nalguns sectores, esta oportunidade ao alcance, mas exige investimento coordenado em capacidade industrial intermédia, normalmente fora do alcance de uma única empresa isolada. É aqui que entra o segundo movimento, a organização em polos industriais. E

O lema escolhido para a FILDA 2026 é uma equação económica que Angola quer resolver com urgência e que está relacionada com como transformar a produção interna em competitividade externa, num mercado global cada vez mais exigente em qualidade, rastreabilidade e inovação. Os números ajudam a dimensionar o desafio. A indústria transformadora pesa hoje cerca de 5% do PIB angolano, ainda longe do pico de 6,8% registado em 2016 e da meta de mais de 9% prevista no Plano de Desenvolvimento Industrial.

No primeiro trimestre de 2026, o sector não petrolífero cresceu 6,22% em termos homólogos, com a indústria transformadora a contribuir com 0,48 pontos percentuais para a expansão do PIB nacional, um sinal positivo, mas que confirma que o sector ainda não assumiu o papel estrutural que o seu potencial permitiria. Há espaço de crescimento considerável, mas só se materializa se a expansão de capacidade for acompanhada por ganhos reais de produtividade e de inserção em cadeias de valor mais sofisticadas e integradas. A tentação, perante este desafio, é tratá-lo como dois objectivos separados, primeiro produzimos, depois, talvez, exportamos. A literatura e as diversas experiências em outras economias sobre desenvolvimento industrial diz-nos o contrário.

As economias que conseguiram saltar de produtoras locais para competidoras globais fizeram-no porque desenharam a competitividade externa desde a primeira linha de produção, e porque apostaram simultaneamente em dois movimentos complementares, a verticalização das cadeias produtivas e a concentração territorial dessa capacidade em polos industriais especializados.

Verticalizar significa deixar de exportar matéria-prima ou produto semi-acabado e captar, dentro de fronteiras, as etapas de maior valor acrescentado, como o processamento, refinação, embalagem, certificação. É a diferença entre vender cobre em bruto e vender componentes prontos para a indústria eléctrica, entre exportar café verde e exportar café torrado e certificado para mercados exigentes.

Angola tem, nalguns sectores, esta oportunidade ao alcance, mas exige investimento coordenado em capacidade industrial intermédia, normalmente fora do alcance de uma única empresa isolada. É aqui que entra o segundo movimento, a organização em polos industriais. Experiências como o Hub Industrial de Viana, com mais de 300 empresas instaladas, mostram o valor da concentração geográfica de capacidade produtiva, com a partilha de infra-estrutura, redução de custos logísticos, proximidade entre fornecedores e clientes industriais. Mas a concentração geográfica, por si só, não basta.

O conceito de arranjo produtivo local, ou seja uma aglomeração de empresas de um mesmo sector, ligadas pela proximidade física e por uma rede densa de fornecedores comuns, centros de formação técnica, laboratórios de certificação e associações sectoriais, ajuda a perceber a diferença entre um polo que é apenas um condomínio de fábricas vizinhas e um polo que gera, de facto, vantagem competitiva colectiva. É essa densidade institucional, mais do que a simples partilha de terreno e energia, que transforma proximidade em produtividade. É neste ponto que vale a pena introduzir um conceito ainda pouco discutido no contexto angolano, a coopetição.

A coopetição é a capacidade de empresas concorrentes cooperarem estrategicamente em determinadas frentes (investigação aplicada, formação técnica, certificação de qualidade, negociação conjunta de insumos ou de acesso a mercados externos) sem deixarem de competir nas frentes em que a diferenciação faz sentido.

Em mercados de escala reduzida como o angolano, a coopetição não é uma opção ideológica, mas uma necessidade estrutural. Nenhuma empresa isolada tem dimensão para sustentar sozinha os investimentos em certificação internacional, rastreabilidade ou inovação tecnológica que os mercados externos exigem. Feito em conjunto, dentro de um polo ou de uma cadeia sectorial, esse investimento torna-se viável.

O termo, cunhado por Adam Brandenburger e Barry Nalebuff na obra Co-opetition (1996), aplica princípios da teoria dos jogos a relações empresariais que a linguagem tradicional de mercado, dividida entre aliados e rivais, não consegue captar com precisão.

Quando a coopetição deixa de ser pontual e passa a ser estrutural, o resultado é o que a literatura designa por ecossistema integrado de produção: fornecedores, produtores, distribuidores, financiadores, instituições de formação e entidades reguladoras a funcionar como um sistema interdependente, e não como uma cadeia linear de fornecimento.

A diferença prática é significativa, pois num ecossistema, a inovação circula em várias direcções, os dados de produção e de mercado são partilhados de forma estruturada, e a resposta a choques externos (uma quebra de matéria-prima, uma exigência regulatória nova num mercado de destino) é absorvida colectivamente, não por cada empresa isoladamente. É este o patamar a que um arranjo produtivo local amadurecido pode aspirar. Este é o primeiro nível de resposta ao paradoxo competitivo de Angola. Organizar a produção em rede, com densidade institucional suficiente para sustentar investimentos que nenhuma empresa isolada justificaria a solo.

A parte II desta reflexão trata do segundo nível, a tecnologia que liga fábricas a mercados, os corredores logísticos e a distribuição territorial da capacidade produtiva.

Este é o primeiro de dois artigos sobre este tema, a segunda parte será publicada no próximo mês.

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