Quando Pequim recebe Trump e Putin - O que está realmente em jogo na energia global?
A pergunta relevante para países como Angola é outra: estaremos preparados para compreender e aproveitar a nova geopolítica da energia antes que ela seja desenhada sem nós?
Por trás das fotografias diplomáticas, dos apertos de mão e dos discursos sobre estabilidade internacional, existe uma questão menos visível, mas decisiva: quem controlará a próxima ordem energética mundial? Uma aproximação entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Presidente da China, Xi Jinping, não é apenas um acontecimento geopolítico. É um potencial ponto de inflexão para os mercados de petróleo, gás, minerais críticos, tecnologia industrial e transição energética. Tal como tenho defendido, hoje a energia já não é apenas uma commodity.
É um instrumento de poder. A Rússia continua a depender fortemente das exportações de petróleo e gás para sustentar a sua economia e capacidade estratégica. Desde a guerra na Ucrânia, Moscovo acelerou o seu pivô para a Ásia, particularmente para a China, que se tornou um dos principais compradores de crude russo descontado. Para Pequim, esta relação oferece algo essencial: segurança energética, diversificação de fornecedores e maior margem de manobra face às pressões ocidentais.
Mas a equação torna-se mais complexa quando se introduz o Presidente Donald Trump
Ao contrário da lógica multilateral tradicional, Trump tende a abordar relações internacionais sob uma ótica transacional. Isso pode significar menos previsibilidade diplomática, mas também possíveis mudanças na arquitectura das sanções, nas relações comerciais e na política energética norte-americana.
A sua visão assenta num princípio conhecido: reforçar a produção doméstica de energia, proteger a competitividade industrial americana e utilizar a abundância energética dos EUA como activo estratégico global.
Num mundo assim, a China enfrenta um paradoxo. Por um lado, lidera a cadeia industrial da transição energética: domina o refino de minerais críticos, controla grande parte da produção global de painéis solares, baterias e componentes essenciais para veículos eléctricos. Por outro, continua profundamente dependente de petróleo, carvão e gás para sustentar a sua escala industrial.
A grande narrativa internacional sugere um mundo em rápida descarbonização. A realidade, contudo, é mais complexa. Segundo a IEA, a procura global de energia cresceu cerca de 2,2% em 2024, acima da média da última década, impulsionada sobretudo pelas economias emergentes. A procura mundial de petróleo permanece resiliente, situando-se em torno de 103--104 milhões de barris por dia, enquanto o gás natural consolidou-se como combustível de transição em múltiplas economias, apoiado pela expansão do LNG e por preocupações com segurança energética.
Embora o investimento em energia limpa tenha ultrapassado USD 2,2 biliões em 2025, aproximadamente o dobro do destinado a petróleo, gás e carvão, os hidrocarbonetos continuam a ocupar um lugar central no sistema energético mundial. A transição energética avança, mas fá-lo num mundo que continua a consumir grandes volumes de combustíveis fósseis. É aqui que a geopolítica energética regressa ao centro do debate...













