Saber sair
O mundo está cheio de exemplos de gente que poderia ter saído pela porta grande e preferiu procurar uma janela para voltar a entrar. Mudaram regras, reinterpretaram estatutos, descobriram excepções, prolongaram mandatos ou simplesmente convenceram-se de que o calendário não se lhes aplicava.
Saber entrar é relativamente fácil. Entra-se com entusiasmo, projectos, promessas, energia e, muitas vezes, aplausos. O problema é a saída. Sobretudo quando, durante muitos anos, nos habituámos à cadeira, à secretária, ao motorista, aos assessores, ao tratamento por "senhor presidente", "senhor ministro", "senhor administrador", "senhor director" ou simplesmente "chefe".
A cadeira tem propriedades estranhas. Quanto mais tempo nela permanecemos, mais confortável fica. E começa mesmo a desenvolver uma espécie de cola invisível que dificulta tremendamente o movimento de levantar. Acontece na política, nas empresas, no futebol, nas associações, nas federações, nos clubes e até nas organizações, onde teoricamente ninguém ganha nada. Há sempre alguém convencido de que, se sair, aquilo fecha no dia seguinte. É uma enorme injustiça para com a humanidade. Afinal, conseguimos sobreviver à queda do Império Romano, à máquina de escrever e ao desaparecimento do fax.
Saber sair significa perceber que existe um momento em que passar para a fila de trás não representa uma derrota. Pelo contrário. Pode ser a última grande vitória de uma carreira. Significa olhar para quem vem a seguir e admitir, genuinamente, uma possibilidade terrível para qualquer ego bem alimentado: talvez faça melhor! E ainda bem.
Porque o verdadeiro sucesso de quem dirige não deveria medir-se apenas pelo que fez enquanto esteve no comando, mas também pelo que continua a funcionar depois de partir. Se tudo desmorona quando o chefe sai, talvez não estivéssemos perante uma grande instituição.
Estávamos perante uma pessoa rodeada de mobiliário. O mundo está cheio de exemplos de gente que poderia ter saído pela porta grande e preferiu procurar uma janela para voltar a entrar. Mudaram regras, reinterpretaram estatutos, descobriram excepções, prolongaram mandatos ou simplesmente convenceram-se de que o calendário não se lhes aplicava.
Outros nem precisaram disso. Bastou perderem progressivamente capacidade, energia ou ligação à realidade sem perceberem que já estavam a prejudicar aquilo que durante muitos anos ajudaram a construir. E assim foram ficando. Até serem empurrados. É precisamente aqui que reside a diferença entre sair e ser retirado. Quem sai escolhe o momento, organiza a sucessão, preserva o legado e recebe os aplausos. Quem espera demasiado arrisca-se a descobrir que os aplausos já acabaram e que alguém começou discretamente a procurar a chave da porta.
Angola entra agora num período particularmente interessante para esta reflexão. Dentro de cerca de dois meses realiza-se o congresso do partido que governa o País, num ciclo político que desembocará nas eleições gerais de 2027. É, portanto, tempo de renovação, reposicionamentos, entradas e, inevitavelmente, saídas. E não apenas no topo. Em diferentes níveis da política, da administração pública, das empresas e das organizações haverá pessoas confrontadas com uma das perguntas mais difíceis da vida profissional: chegou a minha vez de passar para a fila de trás?
Não deveria haver drama. A fila de trás também tem cadeiras. E a vantagem importante, permite observar aquilo que os outros fazem, aconselhar quando solicitado, transmitir experiência e descobrir que o mundo continua a girar sem a nossa assinatura no último despacho. Aliás, uma sociedade saudável precisa tanto de pessoas preparadas para assumir responsabilidades como de dirigentes preparados para as entregar. Porque ninguém é dono do cargo que ocupa. É apenas seu inquilino por algum tempo.
Na política, como nas empresas, no futebol e na própria vida, há um tempo para entrar, um tempo para fazer e um tempo para sair. Os melhores percebem os três. Os outros normalmente percebem os dois primeiros. Do terceiro são apenas informadosL.














