"Eu não sou um produto de concurso de música, só fui conhecido lá"
Com ambição de pisar palcos de festivais internacionais e conquistar o mundo, o músico pretende cantar vários estilos de música. Este ano vai lançar novas músicas e um novo álbum em 2026 e estará no Huambo a 30 de Agosto.
Depois de vencer vários concursos e não poder usufruir dos prémios, a vitória do "Unitel Estrelas ao Palco" compensou os prémios não recebidos?
Claro, claro que compensou, porque, imagina, o nível de expansão e audiência que teve o concurso ajudou-me a conseguir seguir a minha carreira a solo, sem ter, por exemplo, apoio no início. Então, acabou por facilitar tudo, porque os holofotes estavam praticamente virados todos para mim.
Começou a cantar com 6 anos, na igreja. Profissionalmente quando é que começa?
Profissionalmente, não lembro exactamente quando comecei, mas foi muito cedo. Lembro-me que com os meus 14, 15 anos, já fazia alguns "bicos" com karaoke, já tinha músicas gravadas e já fazia shows no bairro, era conhecido lá por obrigação devido aos vizinhos.
Foi conhecido inicialmente como "Michael Jackson". Como foi o processo de mudança de identidade artística?
Deixem-me dizer que foi uma faca de dois gumes. O facto de eu ter sido conhecido inicialmente em Angola e fora de Angola também, como um intérprete imitador de Michael Jackson dificultou o processo de retorno à minha própria identidade, como Anderson Mário, porque eu precisava mostrar às pessoas o que tenho de melhor no Anderson Mário, que possa superar o que os encantou em mim ao imitar Michael Jackson.
Considera-se um músico internacional?
Por acaso, não. Ainda não me considero um artista internacional.
Pensa internacionalizar a sua carreira a curto prazo, a médio ou longo prazo?
Esse processo de internacionalização não é exactamente um processo a que nós podemos dar timings, porque vamos depender um bocadinho daquilo que é o cair na graça do povo estrangeiro, para de alguma forma podermos levar a nossa cultura, em representação do nosso país lá fora e sermos conhecidos por isso.
Já experimentou vários estilos musicais, mas hoje está mais inclinado para o kizomba e R&B. Pretende cantar outros estilos?
Pretendo sim, no final, cultura é isso. Cultura é você poder encaixar-se em vários ângulos da cultura musical e poder levar a sua identidade em vários estilos, porque, imagina, cada estilo de música representa uma cultura. Podes ver que há pessoas que ouvem semba, mas não ouvem kizomba, há quem ouça zouk e não kuduro, e há quem ouça kuduro e não Semba, porque ouvir música também é uma cultura. Acredito que cada estilo musical representa um povo específico que se identifica com aquele estilo, então eu, no esforço de querer conquistar o mundo inteiro, vou encaixar-me em vários estilos.
Que balanço faz do seu percurso?
Devo confessar que os resultados superaram as minhas expectativas. Houve muito benefício, além do esforço que fiz. Então, o balanço é super positivo, estou a viver coisas que sonhei viver daqui a uns 10 anos e já estou a vivê-las há mais ou menos dois anos. Então, as bênçãos só vão multiplicar. E sou muito grato a Deus por isso.
Que apreciação faz do mercado da música nacional?
O mercado musical angolano está cheio de novos talentos, principalmente nesta nova geração, em que há maior expansão, há mais abertura para os músicos novos brilharem. Mas, como tudo, nós precisamos sempre evoluir mais, porque, de alguma forma, ainda não somos nem uma mínima potência musical no mundo. Por exemplo, há estilos nossos que são super conhecidos e tomam conta das bancadas lá fora, mas ainda assim o nome Angola não soa em representação a esses estilos. Então precisamos sempre melhorar para podermos expandir e colocar Angola no verdadeiro mapa mundial da música.
Disse que não pretende voltar a estudar. É porque entende que o nível que tem é suficiente para a sua carreira ou é porque entende que, como músico, não precisa de estudar mais?
Vou começar por dizer que acredito que o universo dá-nos aquilo que desejamos no nosso coração mais do que aquilo que declaramos ao próprio universo, por exemplo. Porque a verdade sobre nós está no silêncio e não exactamente nas palavras que podemos manipular a qualquer momento. Com isso, quero dizer que quando disse que já não quero voltar a estudar ou que já não vou voltar a estudar, não é exactamente porque entendo que um músico não precisa estudar. Porque, na verdade eu estudei.
O que está por detrás desta declaração?
Na verdade, faço essas declarações porque não quero ser associado a outro nicho que não seja a minha arte. A arte é meio-ciumenta, eu quero dedicar-me a ela a 100%. Logo, uso essas frases para desviar a atenção para a minha arte, porque se eu disser que quero estudar, as pessoas vão-me perguntar o que quero estudar. E se eu explicar o que quero estudar, as pessoas vão começar a procurar as minhas valências na minha área de formação. E se as minhas valências na minha área de formação forem tão boas quanto o meu talento na música, as pessoas começam a colocar na balança. E quando colocam na balança, já começo a pôr 50-50 em cada lado. A minha arte já deixa de ser 100% pura. Eu entendo assim, não que seja uma verdade absoluta, mas que é uma opinião minha, que eu levo como mantra e uso para benefício do desenvolvimento da minha carreira.
Em que momento é que se sente inspirado? Tem um ritual quando está a compor as suas músicas?
Olha, não existe um momento específico que me deixa inspirado. Inspiro-me com base nas coisas que vivo, que vejo e vivencio, por exemplo, por isso é que escrevo várias histórias diferentes que não são só de amor. É porque eu vivo vários momentos da vida que me inspiram a fazer uma música. E essa minha música que componho em vários momentos da minha vida dá nostalgia a várias pessoas que viveram aquele momento da música que cantei. Então, é mais ou menos isso, não existe exactamente um momento específico. Eu posso estar a fazer esta entrevista e estar a ter, por exemplo, ideias de uma música sobre este momento. Então, diversos momentos inspiram uma música.
Como avalia a relação entre a velha e a nova geração de músicos nacionais?
Vou sempre basear o meu discurso na minha experiência, na minha vivência. A minha relação com a antiga geração é de muito respeito, é de veneração, é de entender que há muita coisa para aprender e que, com a velha escola, se vai à genuinidade da arte. Então, preciso relacionar-me bem com os kotas para poder ir, sempre que possível, buscar aquela genuinidade que há nas músicas que eram feitas antigamente. Há esse respeito e acredito que a nova geração também respeita, não posso defender categoricamente porque cada um pensa por si.
É produto de concursos de música. Acha que é uma plataforma onde se lançam novos talentos?
Não, eu não sou produto de um concurso de música, eu só fui conhecido lá, porque antes de ir para os concursos eu já fazia arte e já era conhecido. Outra coisa, acho que o concurso não é a maior fonte para encontrar os talentos. Pode ser a maior fonte para tornar os talentos conhecidos, mas não para encontrá-los. Porque em meia curva que se fizer, vai encontrar um milhão de talentos por ali nas ruas a mostrar a sua arte. Então, é bom que se deixe claro isso, não sou um produto de concurso. Eu só fui conhecido num concurso, sou um produto das ruas.
Leia o artigo integral na edição 841 do Expansão, de sexta-feira, dia 29 de Agosto de 2025, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)