Director Carlos Rosado de Carvalho

"A confiança no mercado angolano está a voltar"

"A confiança no mercado angolano está a voltar"
Foto: César Magalhães

O ano de 2018 foi mau para a Krones Angola, subsidiária do líder mundial na produção de linhas de engarrafamento. Como faltam novos projectos, a "exportação" de técnicos está a salvar a facturação, antes do investimento voltar.

A Krones integrou a comitiva que acompanhou o Presidente João Lourenço à Alemanha. O que a visita trouxe?
Foi extremamente importante para ter uma ponte entre Angola e a Alemanha. Como a Alemanha é um fornecedor de equipamento de alta qualidade, essa conexão é muito importante. No Fórum Económico, em Berlim, estiveram 270 empresas alemãs, muitas estão interessadas em Angola, querem saber como está a situação e o mercado.

E como está o mercado?
Digo às empresas alemãs que estão interessadas em Angola que a Krones está no País, desde 2007, a trabalhar com muito sucesso. Claro que a crise nos obrigou a reajustes, mas também temos responsabilidade, como empresa que está em Angola, de chamar outras empresas alemãs. Tive várias conversas com empresas da área da construção, produção de comida, etc...

Angola é hoje um mercado mais atractivo?
Todos os analistas e pessoas com quem falamos dizem que 2018 ainda foi um ano difícil, mas 2019 vai ser um ano bem melhor para todo o mercado.

Esse optimismo resulta da mudança do ciclo político?
E dos ajustes cambiais. Hoje em dia, existe maior disponibilidade de divisas. Todos esses sinais que estão a chegar à Krones mostram que a confiança no mercado angolano está a voltar.

Há um melhor ambiente de negócios?
Sim.

A melhoria está relacionada com a mudança de ciclo político?
Com as tendências do momento, podemos dizer que estamos no caminho para melhorar e, talvez, tenha a ver com a mudança política.

A Krones publica as suas contas trimestralmente, na sua página na internet. Angola tem nova legislação que favorece a transparência. Esse é um dos bons indicadores?
Sim. A estabilidade no País também é um bom indicador.

O compliance e a transparência são regras de ouro?
Hoje todo o mundo quer um preço melhor, com maior transparência. Uma das coisas mais importantes na Krones, foi trabalhar no compliance para que todos saibam como é feito o negócio e como são tratados os contratos. Nós temos uma filosofia sem tolerância. No ano passado, despedimos duas pessoas, assim que percebemos que estavam a roubar a empresa.

A Krones Angola mudou de edifício, em Abril. Essa mudança corresponde a uma fase de expansão?
Sim.

Há perspectiva de novos clientes?
Temos 4 a 5 clientes novos interessados em entrar na indústria de bebidas, das águas.

A Krones Angola tem algum concorrente no País?
Não. No nosso segmento somos os únicos. Existem outras empresas que emprestam serviços, mas na área das bebidas somos só nós.

Segundo o último relatório trimestral da Krones, a guerra comercial dos EUA à China e a alguns países europeus, como a Alemanha, teve reflexos nos resultados do grupo. E em Angola?
Não. Uma crise é uma crise. Às vezes, existem ondas e as empresas precisam esperar um certo tempo e, quando a onda voltar a subir, já estamos aqui, preparados. Vamos sair mais fortes dessa crise.

Aproveita-se a onda em baixo para a reorganização?
Todas as empresas têm o mesmo sistema. Têm de verificar os custos e ver onde podem diminuir. Deve-se melhorar a área de transportes, logística. Tudo isto deve ser feito quando a onda está em baixo. Quando 2019 entrar, as pessoas voltam a investir e nós já estamos cá, mais fortalecidos. Mesmo para os nossos líderes na Alemanha, África é muito importante, tal como Angola, temos 150% de apoio.

No relatório do 2.º trimestre deste ano, o grupo diz que não conseguiu alcançar os resultados, pelo aumento dos custos, dos materiais e do pessoal. Isso verificou-se também em Angola?
Sim, temos uma grande responsabilidade social. Nos últimos anos, o nosso aumento de salário andou entre 13 e 20%, inclusive pagámos um bónus, de dois salários, anual para ajudar os nossos funcionários a sobreviver à crise. O mesmo acontece com os produtos. O nosso fornecedor de peças é a Krones Alemanha, mas nós temos de lhe pagar.

Quais as maiores dificuldades que a crise trouxe?
Uma crise sempre traz necessidade de ajustar processos e pessoas. O que mais nos afectou foi o corte de pessoal. Diminuímos o número de trabalhadores, em 2015. Com a nova estrutura, entendemos que os nossos clientes precisam de manutenção. É um serviço que vendemos.

Foi significativa a diminuição de novos projectos?
Sim. Não temos projectos novos, zero, em 2018. O último projecto que tivemos foi o da Pura, com uma linha rápida de engarrafamento. Estamos à espera da decisão de alguns clientes. A Krones está a trabalhar com o Commerzbank na Alemanha e com a Euler Hermes, para o financiamento de equipamentos que vêm da Alemanha. Nós indicamos essa possibilidade a todos os clientes.

É uma forma de facilitar a vida aos clientes?
Sim. A Krones ajuda os clientes nessa intermediação. Podemos participar na elaboração do projecto, respondendo a questões técnicas, mas somos um fornecedor de equipamentos e serviços. Não financiamos, nem investimos.

Produzem todos os componentes das linhas de enchimento?
Somos a única empresa que consegue construir e fornecer todo o equipamento para uma cervejaria, começando pela sala de cozimento, com os tanques onde fica a cerveja, até à linha de enchimento em PET, lata ou vidro. Conseguimos entregar uma cervejaria chave na mão.

O material é todo produzido na Alemanha?
As máquinas novas saem todas da Alemanha, mas vamos produzi-las também nas nossas lifecycle centers (centros sem produção) maiores. Nós tratamos de tudo. No projecto Sagres/ Luandina, de 60 milhões de euros, planeámos tudo, desde a construção ao enchimento. A Refriango, o Grupo Castel, a Eka, Coca-Cola e a Compal são nossos clientes.

A desvalorização cambial encareceu o produto final?
As nossas peças e os nossos custos são sempre em euros. Um euro na Alemanha custa um euro em todo o mundo. A percentagem que colocamos, por exemplo, para o transporte, depende de cada país. Não há hipótese de colocar 300% por cima. No caso de Angola e no caso das peças, 1.8 euros significa que colocámos 80% em cima para entregar a peça em Angola, na fábrica. Esses 80% incluem transporte, importação, risco cambial e a margem da Krones Angola.

"ANGOLA DEVE OPTAR PELO ENSINO DUAL, ENTRE ESCOLAS E EMPRESAS"

Como é que a Krones recruta os seus técnicos?
Estamos a recrutar nas escolas directamente, via internet, na plataforma da Jobartis, na Filda e temos um acordo com o Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC) em Talatona. Nós fornecemos estágios.

É fácil arranjar um bom técnico?
Não é assim tão fácil. A Krones vai ter sempre que qualificar a mão-de-obra, porque a nossa tecnologia é muito específica, não existe no mercado. Apesar disso, se houvesse ensino mais prático facilitaria a vida das empresas. Já reunimos com o ISPTEC e eles fizeram um levantamento das necessidades para ter em atenção esse aspecto nos currículos.

Falta ensino prático?
Sim. Muitas vezes, os técnicos chegam com carências, em termos de conhecimentos básicos, nomeadamente ao nível da electricidade, automação, programação, o que faz com que tenham de ir para o exterior, não para fazer formações específicas com as nossas máquinas, mas para fazer formação em electricidade básica. Já se viu da parte de algumas instituições de ensino vontade de adequar os currículos às necessidades do mercado.

É necessário maior diálogo entre empresas e instituições de ensino?
Sim, já está a acontecer. Estamos a trabalhar com as universidades, para identificar as pessoas que estão bem treinadas, mas a preparação final precisa de ser connosco, na Krones. O segundo passo, no futuro, e isso vai demorar mais tempo, é o estudo dual.

Ensino repartido entre as escolas e as empresas?
Sim, como temos na Alemanha e no Quénia. A Krones Quénia, por exemplo, fez uma área de treinamento específica para estudantes. Eles fazem a parte prática na Krones e a parte teórica numa escola do Governo. Seria a melhor solução, como dissemos numa reunião, no dia 7 de Agosto, em Berlim, com um membro do Governo angolano e 20 empresas alemãs. Estamos dispostos a trabalhar nesse sentido. O treinamento é fundamental para termos as pessoas qualificadas que precisamos.

"Não há projectos novos e estamos a "exportar" os nossos técnicos"

Quanto representa a Krones Angola nas receitas do grupo, que em 2017 foram de 3.691,4 milhões de euros?
Devemos estar com 1% do total do mundo, mas não podemos ver isso assim. As nossas vendas, desde 2013, estão sempre a subir. Em 2016, tivemos um ano muito bom, com receitas de 11,8 milhões de euros, quase duplicámos o resultado de 2013, que foi de 7,3 milhões de euros.

Precisamente no pior ano, desde o início da crise de 2014. A que se deveu?
O planeamento de uma fábrica, desde a assinatura do contrato até à sua construção, demora 24 meses. O pico corresponde a um contrato realizado antes. Comparando 2016 com 2018, caímos para metade. As receitas da Krones Angola em 2018 serão de 4,6 milhões de euros.

É a crise a reflectir-se nos resultados da empresa?
Não surgiram novas empresas a querer investir no mercado das bebidas, que é muito restrito. Não há projectos novos de linhas de engarrafamento, as receitas em Angola vêm do aumento da manutenção e do serviço pós-venda. O nosso conceito mundial é trabalhar por região. A facturação de Angola entra nas contas de África e Médio Oriente, região que gera quase 600 milhões de euros, por ano, embora seja uma empresa independente. Nesta região, temos empresas na África do Sul, Angola, Nigéria e Quénia. Há alguns meses, abrimos uma na Etiópia e outra no Dubai.

África é a 2.ª maior região em termos de facturação, a seguir à Europa?
Sim. A Krones está a ver um grande potencial em África, por isso, aumentámos o número de subsidiárias. Vai haver mais uma no Sudão e estamos a pensar em mais uma em Marrocos.

Qual foi a primeira subsidiária a ser criada em África?
Foi a de África do Sul. Nós começámos a trabalhar em Angola, em 2007. Em 2009, a empresa foi registada como subsidiária e hoje somos uma empresa de direito angolano. Servimos Angola e a República Democrática do Congo. A Krones surgiu na Alemanha, em 1951, hoje somos uma multinacional. Em 2018, planeamos uma receita de 4 mil milhões de euros. A nossa história tem sido sempre a crescer, em funcionários, vendas e manutenção. O único ano mau foi o de 2009, por causa da crise mundial.

A empresa é líder mundial na produção de linhas de engarrafamento. Qual é a vossa quota de mercado?
Temos 40% do mercado mundial. Existem dois outros concorrentes, um em França e outro na Alemanha, e os três têm uma quota de mercado mundial de 65%. Os restantes 35% estão divididos por múltiplas pequenas empresas, que produzem linhas de produção de baixa velocidade. Os nossos equipamentos trabalham com velocidades extremamente altas. Nós montámos uma linha de engarrafamento PET de águas em Angola, a Pura, que é a mais rápida de África.

Como trabalham com máquinas de alta precisão, a área dos técnicos é fulcral?
Sim, temos 29 técnicos, num total de 49 funcionários. O número de técnicos é superior, mas com esses serviços ganhamos dinheiro. Não temos nenhum técnico expatriado, só angolanos. E, melhor, na região de África e Médio Oriente, estamos a "vender" os nossos técnicos e a receber divisas. A formação é tão boa que eles fazem serviços na África do Sul, Nigéria, Quénia e Dubai. E já tivemos um técnico a viajar para a China. Isto mostra que estamos no caminho certo com a formação, os técnicos e a forma como trabalhamos.

Quantos anos demora a formar um técnico com esse nível?
São precisos entre 3 a 5 anos, depende da pessoa. Essa formação tem muitos custos, temos de mandar os técnicos para fora do país, na Alemanha, por exemplo, onde temos uma academia com 80 professores, África do Sul, ou Brasil. Por vezes, os técnicos chegam a estar dois anos, no cliente, sem cobrar um tostão, porque estão a fazer formação on job. Tem custos elevados, mas é um investimento. Dos 29 técnicos, já cobramos serviços prestados por 19.

PERFIL: De Aprendiz a Director

Thomas Schmidt assumiu, em 2015, a direcção da Krones Angola, uma das subsidiárias que a líder mundial de produção e montagem de linhas de enchimento e engarrafamento de bebidas tem na região de África e Médio Oriente. É a segunda maior região do grupo, em termos de facturação, com 563,5 milhões de euros, em 2017, logo a seguir à Europa Ocidental, com 630,2 milhões de euros. Antes de chegar a Angola, Thomas Schmidt foi director de vendas da Krones Brasil, onde esteve durante nove anos, consolidando uma carreira que começou na sede do grupo, em Neutraubling, na Alemanha, na base da pirâmide. Entrou na Krones AG, em 1986, como aprendiz e, ao longo de 28 anos de trabalho na multinacional alemã foi subindo internamente, passando de técnico qualificado a gestor de topo.


(Entrevista publicada na edição 494 do Expansão, de sexta-feira 12 de Outubro de 2018, disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

Partilhar no Facebook

Comentários

Destaques

ios Play Store Windows Store
 
×

Pesquise no i