Director João Armando

"Seria ingénuo pensar que a produção e leitura podem tirar o País da crise" 

"Seria ingénuo pensar que a produção e leitura podem tirar o País da crise" 
Foto: D.R.

Depois de publicar "guardados numa gaveta imaginária" em Lisboa, em Janeiro, o livro será lançado em Luanda, no início de Fevereiro. Os poemas reflectem um certo olhar sobre as dificuldades do dia-a-dia e as desigualdades socioeconómicas em Luanda.

O que retrata o livro "Guardados Numa Gaveta Imaginária"?
São poemas inspirados em situações do quotidiano, nos rituais da vida na cidade, Luanda, entre eles os da infância, expressando sentimentos, emoções de um sujeito poético.

O escritor José Luís Mendonça diz que a sua poesia é "o legado poético de Viriato da Cruz". É a sua inspiração?
O que o escritor José Luís Mendonça nomeia, no posfácio do livro, é a eleição de Viriato da Cruz entre os poetas predecessores, pertencentes à Geração da Mensagem. De facto, um dos poemas do livro - "Andando Pela Calçada" - faz uma evocação a Viriato, revisitando passagens de poemas seus, nomeando também a sua companheira, Eugénia.

Como viu, na sua estreia, ser comparada a esta personalidade angolana?
Viriato da Cruz é, certamente, um dos poetas predecessores que mais admiro. Embora tenha publicado apenas um livro de poemas e tenha até afirmado, em certa fase da actividade política, que a poesia seria "a arte menor", é entre os poetas da Mensagem um dos maiores. A sua poesia é marcada por uma profunda beleza e lirismo, criadora de um universo único e inconfundível. Entre os poetas vivos, nomearia, entre os preferidos, José Luís Mendonça, João Melo e Amélia da Lomba.

Há quanto tempo projectava lançar o seu livro?
Trago o livro "guardado na gaveta" há dois anos. A maioria dos poemas reunidos neste livro foi escrito entre 2014 e 2016, sensivelmente o mesmo período em que estive em Lisboa a realizar o mestrado (20016/17). Desde 2017, que contactava editoras em Lisboa e Luanda e a primeira resposta afirmativa que tive foi de Luanda. Em Novembro de 2018, surgiu esta hipótese de publicar com a Guerra e Paz Editores, em Lisboa.

Publicou em Lisboa. Quando será lançado em Luanda?
O livro foi publicado em meados de Janeiro em Lisboa, mas o primeiro lançamento será em Luanda, no início de Fevereiro.

Publicar é muito caro?
Não posso dizer que seja barato, mas é um investimento a que os novos autores precisam estar receptivos se pretenderem divulgar o seu trabalho. Segundo pude perceber, pelo meu editor, as pessoas lêem e compram cada vez menos livros, o que é lamentável. No Brasil, por exemplo, o maior mercado livreiro ao nível da lusofonia, duas grandes livrarias, creio que a Saraiva e a Cultura, faliram. O meu editor aborda a necessidade crescente de criação de proximidade entre os escritores e as suas comunidades. Por razões óbvias, faço o lançamento em Luanda.

A crise económica influencia a sua escrita?
Tenho alguns contos, que gostava de publicar este ano, e aí sim a observação da realidade marcada pela crise económica e de valores penso estar presente com alguma distopia e desalento.

O momento económico é um factor impeditivo para o avanço dos seus projectos?
Sem dúvida, principalmente no que diz respeito à publicação. Tenho dois livros por publicar, um de contos e outro de poemas, serão publicados em 2020. Veremos que tipo de apoios conseguirei para os publicar em Luanda. Aqui reside a influência negativa da crise económica sobre a escrita, devido à escassez de apoio financeiro às editoras.

Como a literatura pode ajudar a tirar Angola deste "buraco" económico?
As sociedades são constituídas por várias dimensões: política, económica, social, cultural e literária também. Embora haja ligações e complementaridade entre elas, seria ingénuo pensar que a produção e leitura ficcional poderiam retirar o País da situação económica crítica em que se encontra. Isso só será possível através de políticas e medidas económicas adequadas ao nosso contexto, ao empenho e resiliência dos nossos governantes e à sociedade, no seu todo. A literatura dá-nos possibilidades de evasão, de nos colocarmos na pele de outros, de contactar com outras realidades, por outras palavras, de sonhar.

Paixão pela escrita consumada com livro de estreia
Foi registada com o nome Xiangui Faria da Cruz, mas apresenta-se como Tchiangui Cruz no mundo literário. Apesar de publicar a sua primeira obra literária, a crítica compara a sua escrita ao autor Viriato da Cruz. Tchiangui resgatou, com o livro "Poemas guardados numa gaveta", a vontade de escrever, que a acompanha desde a adolescência. Formada em Estudos Portugueses e Lusófonos, nos tempos livres gosta de caminhar junto ao mar, ler e ver filmes.

Paulo Flores ocupa o topo suas preferências musicais, ao lançar o "Semba da Benção e da Consolação". Actualmente, lê dois livros. O primeiro anda na carteira, o segundo na cabeceira, "Luanda, Lisboa, Paraíso", romance de Djaimilia Pereira de Almeida, e o "Correio para Mulheres", de Clarice Lispector, uma compilação de textos publicados entre 1950 e 1960 no "Correio Feminino" e "Só para Mulheres". Tem em carteira o lançamento de um livro de contos e um de ensaios sobre cinema lusófono

Partilhar no Facebook

Comentários

Destaques

ios Play Store Windows Store
 
×

Pesquise no i