Director João Armando

"A nossa realidade não permite viver apenas da escrita"

"A nossa realidade não permite viver apenas da escrita"
Foto: D.R.

«Quotidiano San» é o título do livro da autoria de Salvador Ferreira que chega ao mercado dia 15 de Março, no Chã de Caxinde. Por questões económicas, o povo San tem transferido o seu habitat para outros locais, onde encontra recursos de sobrevivência.

O que retrata o livro «Quotidiano San»?
O «Quotidiano San» é um livro que convida as pessoas a fazerem uma viagem ao passado, presente e futuro da comunidade San em Angola. Visa ajudar ao entendimento da transformação do seu estilo de vida nómada para algo diferente, aproximado ao sedentário, mas que, apesar disso, continua a realizar actividades típicas de nómadas.

O que o levou a escolher este povo como tema de um livro?
Duas razões. Primeiro, em 2009, pela primeira vez, estabeleci contacto directo com a comunidade San e, por força disso, iniciei um processo de aprendizagem relativamente ao modo de vida San. Segundo, apesar da sua existência secular, pouco se tem falado sobre este povo e sobre o seu modo de vida.

Que mudanças na trajectória desta comunidade estão registadas no livro?
No passado, os San eram caçadores- recolectores e desfrutavam da natureza, mas o seu modo de vida tem sofrido transformações. Sendo pessoas ligadas à natureza, criaram novas formas de estar para se isolarem das ameaças externas. Entretanto, terminada a guerra civil e esgotada a possibilidade de continuarem a praticar o nomadismo, devido à perda das suas terras, tornou-se óbvio e inteligente transformarem o seu estilo de vida na perspectiva da sua sobrevivência.

Fez visitas à comunidade ou escreveu o livro a partir de registos já existentes?
Este livro resulta de uma pesquisa realizada durante cerca de oito anos em três diferentes etapas. A primeira etapa, ocorreu entre 2009 e 2013, durante a monitorização de três projectos sociais de apoio às comunidades San do Cuando Cubango e do Cunene. A segunda, aconteceu em 2011, quando trabalhei na produção de um livro sobre a comunidade San "Onde Angola Começa", financiado pela BP Angola. A terceira ocorreu, entre 2014 e 2017, altura em que entrevistei membros da comunidade San e profissionais de várias áreas. Foi a etapa mais longa da pesquisa, envolvendo diversas viagens de carro que totalizaram mais de 12 mil quilómetros.

Como foi a experiência de conviver com uma "sociedade" tão ancestral?
A experiência de conviver com esta comunidade foi muito especial e comovente. Para muitas pessoas, os San são simples habitantes rurais que vivem algures distantes da civilização urbana. Mas, a convivência com eles, demonstra que são pessoas com capacidade e habilidades excepcionais, que lhes permitem sobreviver num ambiente cheio de adversidades, como a natureza.

Que papel têm as questões económicas na vida dos San?
As questões económicas têm um papel de extrema importância pelo seguinte: existem factores políticos, sociais e económicos que têm vindo a forçar os San a transferirem o seu habitat para outros locais onde, geralmente, encontram pessoas com modos de vida diferentes e, fruto da necessidade de se adaptarem, têm adoptado novas formas de vida para que, de forma digna, garantam a sua sobrevivência alimentar.

O texto e as fotos são da sua autoria?
O texto foi escrito por mim com base na observação, pesquisa bibliográfica e entrevistas. Todas as fotos, exceptuando duas, foram captadas por mim.

Qual dos livros foi mais difícil de conceber o "parcerias público-privadas" ou o "Quotidiano San"? Porquê?
Creio que foi o das PPP por se tratar de um livro académico e, como tal, requereu muito mais pesquisa bibliográfica para assegurar que estivesse em conformidade com as exigências académicas. Já o «Quotidiano San» dependeu mais e, fundamentalmente, da minha criatividade.

Além destes, tem mais dois livros. Pensa deixar a sua carreira, como técnico do INE, e dedicar-se apenas à escrita?
Não. Até agora, a escrita tem sido um assunto que concilio com o meu trabalho. A nossa realidade ainda não permite viver apenas da escrita.

Como concilia as tarefas profissionais com as de escritor?
Trata-se de um exercício que gera muitos conflitos porque ambos usam o mesmo recurso: o "tempo". É importante disciplina, rigor e, sobretudo, foco.

A crise tem uma influência positiva ou negativa no seu trabalho como autor?
A crise não tem influência nenhuma no meu trabalho. O único aspecto é a dificuldade de obter apoios para a publicação.

O técnico de estatísticas "apaixonado" pela escrita

Salvador Ferreira "Santinho", para os mais chegados, confessou que cozinha perfeitamente, "dote" que ganhou quando cumpriu a vida militar e foi estudante em regime de internato. Natural de Camame, no Cuanza Norte, casado com Filipa Ferreira e pai de Bruninha, Ndayamena, Tchilésio e Kiari, como fez questão de sublinhar, passa o tempo livre a ler e a escrever. Tem o estudo médio em Ciências Agrárias e a licenciatura em Economia e Estudos Sociais pela Universidade de Swansea, no País de Gales, Reino Unido, e mestrado em Planificação e Gestão de Desenvolvimento Social, sendo actualmente Consultor do Projecto Estatístico de Angola. Em 2011, publicou o livro Parceria Público-Privada em Angola - Uma experiência sobre o Microcrédito, Em 2012, "A Fotografia do Quotidiano" e, em 2015, Tchivinguiro - Uma Memória Colectiva, colectânea de ensaios baseados em histórias verídicas testemunhadas ao longo do tempo no Tchivinguiro.

(entrevista publicada na edição 514 do Expansão, de sexta-feira, dia 7 de Março de 2019, disponível em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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