Director João Armando

"Esta visita deverá servir para convencer as empresas francesas a investir em Angola"

"Esta visita deverá servir para convencer as empresas francesas a investir em Angola"

Desde que João Lourenço esteve em França, novos projectos nasceram em Angola e a cooperação, ao nível da formação, avançou na área da agricultura. Novos investimentos esperam sinal verde, numa altura em que Paris pede o apoio de Angola à candidatura francesa à direcção da FAO, revela Didier Guillaume, ministro francês da Agricultura e Alimentação.

Esteve em Angola, nos dias 1 e 2 de Abril, para aprofundar a cooperação entre Angola e França, no domínio da Agricultura. De que maneira?
O Presidente Lourenço, na sua visita a França, evocou a prioridade dada ao desenvolvimento da agricultura. Pretendemos ajudá-lo a ser bem-sucedido. Trata-se da minha primeira viagem a África, nas funções de ministro da Agricultura e da Alimentação. África é um continente com o qual o Presidente Emmanuel Macron deseja estabelecer uma parceria ambiciosa e equilibrada. A agricultura constitui, com a saúde e educação, um dos três pilares centrais.

Teve audiências com vários membros do Governo. Que assuntos foram abordados?
Aproveitei a oportunidade para reiterar a firmeza da nossa parceria. Quero igualmente dar a garantia da disponibilidade de França para trazer a sua experiência e perícia e pô-la ao serviço do desenvolvimento de fileiras agrícolas sustentáveis, rentáveis e geradoras de empregos e valor. A comitiva que integra esta deslocação ilustra o nosso compromisso: empresas, especialistas da formação técnica e superior, centros de investigação e agência de desenvolvimento. Mobilizamos o vasto painel da nossa perícia. É também necessário iniciar um debate sobre a agricultura africana e global que deve, na realidade, lidar com os desafios do momento.

Que desafios são esses?
Desenvolvimento sustentável, segurança alimentar, mudança climática... A França está fortemente empenhada em todas essas questões. São desafios abordados no seio das organizações multilaterais. Não deixarei assim de evocar a candidatura da França e da União Europeia à Direcção-Geral da FAO. A senhora Catherine Geslain-Lanéelle dispõe das qualificações exigidas, além de que seria a primeira mulher no cargo. Aguardamos o apoio de Angola e do Grupo África da FAO, presidido por Angola.

Está prevista a assinatura de algum acordo?
A aproximação dos dois países acelerou-se nos últimos cinco anos, através de uma série de acordos e convenções. O acordo intergovernamental celebrado entre França e Angola, em Março de 2018, no sector da agricultura constitui um quadro estruturante de cooperação. Desde a assinatura deste acordo, várias iniciativas foram concretizadas.

Nesta visita, houve um fórum agro-industrial, com 30 empresas francesas. Que empresas são e já têm projectos previstos para Angola?
São cooperativas de ajuda ao desenvolvimento das fileiras agrícola e pecuária, alimentação e saúde animal, equipamentos agro-industriais e inputs agrícolas, designadamente sementes. Entre elas, contam-se a Adepta, GNIS, Geocoton BRLI, Raiz Up/Le Goussant, Vitalac, Sylvinov, Sirius, Socamia/Castel, Bureau Veritas, Technisem, Biomerieux, Solevo.

Para além da Castel e Sirius, têm investimentos aqui?
Elas demonstram interesse, mas estão a realizar estudos de mercado e de viabilidade. As decisões de investimento levam tempo, contudo, as nossas empresas têm plena consciência do potencial agrícola de Angola. Esta visita deverá igualmente servir para as autoridades e parceiros angolanos convencerem estas empresas.

Quanto já foi investido no sector por empresários franceses?
Várias centenas de milhões de euros se levarmos em conta a Castel, que é um actor económico preponderante em Angola. Aliás, tive a oportunidade de visitar um importante projecto de investimento da empresa, na província de Malanje, onde a Castel gere, em colaboração com um parceiro local, uma fazenda de cultivo do milho. Os acordos assinados e os compromissos vão favorecer novas implantações.

Após a visita do Presidente João Lourenço a França, em Maio de 2018, foram criados dois grupos de trabalho no domínio da agricultura para identificar projectos prioritários e para dar uma linha de direcção, no quadro da cooperação, quer no campo do investimento, quer no da formação profissional. Que resultados práticos já existem?
Posso mencionar a contribuição da Mecatherm na industrialização de produção de pão com a inauguração, em Fevereiro, de uma linha de produção em Luanda. A DimaPão, cuja capacidade de produção é de 150 000 pães/dia, gerou 150 postos de trabalho. A empresa Technisem, especializada na produção e comercialização de sementes hortícolas. Observo, por outro lado, que as discussões para acompanhar o fomento das fileiras no domínio do mel e do algodão estão bem adiantadas.

E no domínio da formação?
Nos domínios agrícola, agro-alimentar e veterinário, várias formas de cooperação foram identificadas, por ocasião da missão a Angola de peritos franceses no final de 2018, no ensino técnico e o superior.

A formação fez parte da agenda desta visita?
Para aprofundar as formas de cooperação no campo do ensino agrícola e da investigação, tive encontros com a ministra do Ensino Superior, da Ciência, Tecnologia e Inovação, Maria do Rosário Sambo, e da Educação, Maria Cândida Teixeira.

Quanto representa o agro-negócio em Angola para os empresários franceses?
As empresas francesas exportam para Angola cerca de 50 milhões EUR em bens alimentares e, localmente, a Castel é a maior produtora de cerveja do País, empregando mais de 4 500 pessoas. O que desejamos é que um maior número de empresas produzam localmente. Isto requer bom conhecimento do painel local. Ainda há um ano, as nossas empresas pouco ou nada conheciam do meio agrícola angolano. Fizemos assim um grande esforço, em parceria com o Ministério da Agricultura angolano, agricultores e da nossa embaixada em Luanda para que pudessem conhecer melhor o contexto.

Quais são os principais destinos africanos do investimento francês na agricultura e em que posição está Angola?
Em 2016, um gabinete de auditoria classificou a França como a segunda maior fonte de investimento em África. Todos os sectores combinados, com perto de 100 projectos, perfazem 3,3 mil milhões USD de capital investido. Tratando-se de investimentos no sector agrícola, são tradicionalmente orientados para os países francófonos da África do Oeste, para o Mali e a Nigéria. Em vez de falar em classificação, é mais importante olhar para o potencial agrícola de África, que continua sub-explorado, representando importante oportunidade de desenvolvimento. Na África Austral, várias empresas francesas dos sectores agrícola e agro-alimentar estão presentes e possuem uma estratégia regional. Elas estão atentas ao desenvolvimento positivo que Angola registou recentemente.

Que tipo de negócios interessam aos empresários franceses em Angola?
A perícia francesa no sector agrícola e alimentar é vasta. A França é a primeira potência agrícola europeia. Também é líder no mercado mundial, designadamente em genética animal e vegetal, animais vivos, cereais, produtos processados (vinhos e bebidas alcoólicas, produtos de mercearia e produtos lácteos), mas também em maquinaria e equipamentos agrícolas e agro-alimentares. Os nossos produtos e a nossa perícia são exportados em todo o mundo e a França dispõe de grandes empresas que se internacionalizam.

São áreas que podem beneficiar da cooperação francesa?
O que é importante é identificar sectores onde a perícia das empresas é mais útil e valorizada, onde podem apoiar-se com parceiros fortes e a sua acção pode encontrar a recompensa económica almejada. Esses investimentos devem operar-se num espírito de parceria e respeitanto as boas práticas.

Alguns dos projectos agroalimentares franceses em Angola visam a exportação? Quais e para que países?
Parece-me que as empresas francesas estão primeiro interessadas em responder às necessidades do mercado interno angolano. Somente numa segunda fase, quando tiverem uma boa visão das condições de produção em Angola e dos pontos fortes, é que poderão exportar.

 Quintiliano dos Santos

"Agricultura e formação são centrais na visita de Macron a Angola"

A sua presença em Angola serviu para preparar a visita do Presidente Macron durante o ano de 2019, como foi anunciado?
Depois da visita a França do Presidente Lourenço, o diálogo de alto nível será prosseguido entre os dois Presidentes e a este respeito, uma visita do Presidente francês a Angola constituiria um dos pontos altos da relação bilateral. A visita oficial a França do Presidente Lourenço incluía uma sequência agrícola: visita de uma cooperativa (ARTERRIS) e de um liceu agrícola. Confirmo-vos que o tema da agricultura e da formação são dois pilares fortes e duradouros do nosso relacionamento bilateral que devem figurar no centro das temáticas desenvolvidas por ocasião da visita do Presidente francês.

Quais são as principais dificuldades do mercado angolano no campo do investimento agrícola para os empresários franceses e como irá a cooperação com a França resolver estas dificuldades?
Nos últimos anos, as empresas francesas que investiram em Angola ou que negociaram com Angola viram-se confrontadas com restrições nas suas transferências financeiras para o exterior. Esta dificuldade não está definitivamente resolvida, mas está em vias de melhorar. Penso que é um preliminar para o regresso da confiança. No entanto, no sector agrícola, as empresas francesas não esperam que esta dificuldade seja retirada para se interessarem pelo mercado angolano.

Não é um obstáculo?
Elas sabem que a prospeção é uma operação de longo fôlego. Tecemos laços muito frutuosos com o Ministério da Agricultura e Florestas, no âmbito do acordo agrícola bilateral, assinado a 1 de Março de 2018, perfazendo justamente um ano. Numerosas reuniões foram realizadas entre peritos dos dois países. Isto permitiu às nossas empresas aprofundar o seu conhecimento do mercado angolano, de forma a poderem agir quando considerarem que as condições necessárias serão preenchidas. A minha vinda aqui com empresas será, assim o espero, uma etapa importante para a concretização de parcerias.

"África Digital vai estimular inovação e empreendedorismo em Angola"

 Quintiliano dos Santos

Durante o seu discurso em Ouagadougou, no Burquina Faso, em Novembro de 2017, o Presidente Macron declarou linhas de cooperação com África. No domínio da formação, propôs que todas as empresas que invistam em África estejam empenhadas na formação profissional local com a garantia do Estado francês. Em relação a Angola, o que já foi feito nesta área desde o discurso de 2017?
A formação dos jovens é essencial e o Presidente [francês] repetiu isso mesmo há um mês, durante a sua visita à Etiópia e ao Quénia! As nossas empresas presentes em Angola (penso na Total, em particular) sempre demostraram interesse em desenvolver a formação. O sector agrícola não será excepção. Tenho um apreço particular visto que os estabelecimentos do meu ministério formam em França cerca de 200 000 jovens, desde o nível técnico ao doutoramento, nos sectores da agricultura, agro-alimentar, da veterinária, floresta, do meio ambiente e da gestão da água. Essas instituições estão particularmente mobilizadas para reforçar as parcerias com os seus homólogos africanos. Elas formam alunos provenientes de toda a África, mais de 500 por ano, e mobilizam-se para o desenvolvimento da formação de jovens no estrangeiro, desenvolvendo designadamente formações cruzadas. Espero que esta visita permita intensificar esses intercâmbios, que já deram frutos em Malanje e no Huambo.

Quantos estudantes angolanos beneficiam desses programas?
Todos os anos, entre 500 e 700 estudantes angolanos são acolhidos em França, no âmbito dos seus estudos superiores: devemos estar preparados para acolher ainda mais na formação agrícola e agro-alimentar.

O Presidente Macron também lançou, em Ouagadougou, o programa "África Digital", que visa identificar as startups africanas mais promissoras, com o objectivo de financiar pequenos negócios que anteciparão a transformação da agricultura africana. Já existem projectos seleccionados em África e em Angola, em particular?
A iniciativa Digital Africa almeja reunir numa plataforma os intervenientes do empreendedorismo e da inovação africanos. Numerosos empresários africanos, incubadoras, plataformas de inovação ou redes já aderiram a esta plataforma. Ela deverá permitir estimular a ligação em rede de actores e catalisar as iniciativas com a partilha dos recursos. Encontrei-me e discutimos longamente com startups da África Digital por ocasião do Salão Internacional de Agricultura, em Fevereiro. Os meus intercâmbios com empresários da Costa do Marfim ou do Burkina Faso, por exemplo, foram fascinantes. Oferecem soluções inovadoras, sobretudo para as agricultoras e agricultores. Não haja dúvida que esta iniciativa estimulará o empreendedorismo e a inovação em Angola, especialmente no sector agrícola!

Em Novembro de 2018, uma delegação de peritos franceses esteve, em Malanje, onde visitou o Instituto Superior de Tecnologia Agro-alimentar de Malanje. Essa visita já deu frutos?
Aquando da última visita a França do Presidente Lourenço e do ministro Marcos Nhunga, o meu ministério comprometeu-se a enviar a Angola uma missão de peritos no intuito de dinamizar a nossa cooperação no sector da formação de quadros angolanos em agro-alimentar. A missão que integrou representantes de estabelecimentos do ensino superior agrícola francês, designadamente Montpellier SupAgro, que, acompanhou historicamente falando, a criação do Instituto Superior de Tecnologia Agro-alimentar de Malanje (ISTAM), deslocou-se a Angola. O ISTAM ilustra a vontade partilhada dos nossos dois países em investir conjuntamente na agricultura e na área agro-alimentar. Este instituto foi concebido para se transformar num dos centros de excelência em agro-alimentar do continente africano e faço votos para que seja rapidamente inaugurado.

Já há para a inauguração?
A previsão é que venha a acolher estudantes no início do ano académico 2020.

Um Senador na Agricultura

Nascido em 1959, Didier Guillaume assumiu a pasta da Agricultura e da Alimentação a 16 de Outubro de 2018, sucedendo no cargo Stéphane Travert, numa mini remodelação governamental, após a demissão de quatro ministros em três dias e dois meses antes de os "coletes amarelos" mergulharem a França numa vaga de protestos contra o aumento do preço dos combustíveis.

No meio da maior crise do seu Governo, o Presidente Macron foi buscar o senador e presidente do grupo parlamentar socialista no Senado, para assumir a pasta da Agricultura, tirando partido da sua experiência política para ultrapassar a turbulência política e social. Senador pela circunscrição administrativa de Drôme, na região Auvérnia-Ródano-Alpes, foi presidente da Câmara Municipal de Bourg-de-Péage, conselheiro e presidente do Conselho Geral da Drôme.

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