"A questão financeira é sempre um desafio enorme"

"A questão financeira é sempre um desafio enorme"
Foto: D.R.

"Para lá dos meus passos" é o novo documentário da Geração 80. Acompanha a vida de cinco bailarinos que vão explorar os conceitos de tradição, cultura e identidade, ao mesmo tempo que questionam a transformação e a desconstrução destes temas nas suas vidas.

A Geração 80 volta a apresentar um documentário ao público. Como foi o processo criativo?
Quando a Paula [Agostinho] e eu começámos a filmar com a Companhia de Dança Contemporânea, sabíamos que queríamos acompanhar a montagem do seu mais recente espectáculo e que o nosso filme seria um prolongamento do tema iniciado em palco, mas não sabíamos sequer de que tema se tratava. Fomos descobrindo ao longo do processo. A estrutura narrativa só surgiu na verdade na ilha de edição em conjunto com a Gretel Marin, editora deste filme.

É difícil trabalhar em produção de filmes em Angola?
Sim. Hoje, não há em Angola nenhum fundo público activo para a produção de conteúdo cinematográfico e não existe nenhum concurso transparente apresentado aos profissionais de cinema e no qual possamos concorrer. A maioria das produções que vemos lançadas são fruto do empenho, resiliência, solidariedade e colaboração de profissionais da área que continuam a acreditar na pertinência das suas obras, independentemente das dificuldades práticas que enfrentam. Eu acredito que o Estado tem a responsabilidade de promover e apoiar a cultura porque cultura é também história e educação. Os patrocínios são bem-vindos mas irremediavelmente só um número pequeno de pessoas tem o privilégio de aceder a patrocínios e apoios.

O que vos levou a criar este documentário?
Em Outubro de 2016 estreava, num pequeno auditório no centro da cidade de Luanda, o espectáculo "Ceci N"est Pas Une Porte" da Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Nessa altura vivíamos um clima político tenso. Em palco, os bailarinos dançavam confinados a pequenas caixas fracamente iluminadas, lutando para se expressar dentro de um espaço apertado e sufocante. Foi no final daquela hora de espectáculo que se implantou na minha cabeça a ideia para este documentário. Que caminho percorriam aqueles bailarinos até chegarem ao palco? Como poderia eu, através do cinema, dar continuidade ao debate que se iniciava em palco?

E decidiram avançar...
No início de 2017 propus-me então - desafiando a Paula Agostinho, que partilhava das mesmas curiosidades, para este projecto. "Para lá dos meus passos" usa o espectáculo como ponto de partida para acompanhar a reflexão dos bailarinos sobre os temas explorados ao longo da peça.

Quanto tempo, quanto custou e como foi financiada a produção deste documentário?
Este projecto teve um período de filmagem de um ano e meio, tendo começado a sua produção em Janeiro de 2017. O documentário teve um custo de cerca de 10 milhões Kz, sendo que 75% dos custos foram assumidos pela Geração 80 e o restante por contribuições particulares. Tivemos também o apoio do Banco Económico que nos proporcionou o evento da ante-estreia. Mas tal como explicado anteriormente, este documentário, como tantos outros projectos produzidos no nosso contexto artístico, está hoje terminado graças à importante contribuição de profissionais altruístas e solidários, muitos deles recebendo nenhuma ou apenas uma simbólica remuneração pelo seu trabalho. Caso os pagamentos tivessem sido um justo reflexo da especial contribuição de cada um dos intervenientes nesta produção, o custo total do projecto seria, com certeza, mais alto.

Encontraram muitas dificuldades?
Tivemos algumas dificuldades, umas mais estéticas e ligadas à nossa própria aprendizagem na produção de um documentário; e outras mais práticas, nomeadamente a dificuldade em financiar o projecto. A questão financeira é sempre um desafio enorme para a produção de filmes em Angola. E associada a esta dificuldade surgem os tempos de espera - por vezes demasiadamente prolongados - que o projecto teve de atravessar enquanto não se reunia o dinheiro suficiente para a fase seguinte.

Como vão divulgar o documentário?
O nosso foco até ao final do ano é fazer uma distribuição nacional. Queremos levar o filme ao máximo de salas possíveis, sejam profissionais ou improvisadas, não só em Luanda mas pelo menos nas 5 províncias cujas danças são representadas na peça (Des)Construção de Mónica Anapaz. O objectivo é ambicioso e entramos numa nova fase cujo sucesso dependerá também dos apoios que conseguirmos angariar. Acredito que a capacidade de distribuir o nosso, e outros filmes, é a melhor forma de restituir a dignidade e relevância cultural e económica do cinema como profissão e forma de entretenimento.


Da produção à realização é um pequeno passo

Kamy Lara nasce na década de 80, com uma Angola já independente. Foi em Luanda onde passou a sua infância e adolescência. Aos 18 anos muda-se para Lisboa para frequentar o Curso Superior de Audiovisual e Multimédia com uma especialização em Câmara e Iluminação. Assume em 2010 a função de assistente de câmara na longa-metragem "A Espada e a Rosa" de João Nicolau, bem como na série francesa "Maison Close" de Mabrouk El Mechri.

Em 2010 regressa a Angola e integra a Geração 80 no projecto "Angola - Nos Trilhos da Independência", que resulta no lançamento do documentário Independência em 2015, desempenhando as funções de directora de fotografia, assistente de realização e membro da equipa de edição. Ainda em 2010 realiza e edita os vídeos do espectáculo "O Homem Que Chorava Sumo de Tomate" pela Companhia de Dança Contemporânea de Angola e coreografado por Ana Clara Guerra Marques.

Na Geração 80 trabalha como editora no documentário "Triângulo" (2013), editora e assistente de realização no documentário "Do Outro Lado do Mundo" (2016) de Rui Sérgio Afonso e na curta-metragem de ficção "Havemos de Voltar" (2017) de Kiluange Kia Henda.

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