"Não demos a importância devida à formação, competência e competitividade"

"Não demos a importância devida à formação, competência e competitividade"
Foto: César Magalhães

Desde pequeno que é fascinado pelo zouk, fascínio que o levou a mergulhar no estudo da música das Antilhas. Mas foi um desafio lançado por um dos fundadores dos Kassav que levou o jornalista e jurista Luís Paulo a lançar o livro "Gigantes do Zouk".

Já escreveu sobre transportes, ex-presidentes e agora mudou a temática. O que o motivou a escrever sobre os "Gigantes do Zouk"?
Desde que o zouk chegou a Angola, no início dos anos 1980, pelas mãos do grupo Kassav, passámos a ouvir e a dançar a boa música antilhana quase todos os dias. No bairro Nelito Soares, onde nasci, em Luanda, eu era uma criança que fazia muitas perguntas aos mais velhos. Perguntava-lhes sobre álbuns, prémios, nomes dos artistas e bandas antilhanas de zouk e de outros géneros de música afro-caribenha. As pessoas não se importavam com as minhas questões, queriam era ouvir e dançar zouk. Desde aí, lancei-me ao desafio de estudar a música afro-caribenha com profundidade, fui coleccionando discos, viajei para vários países do mundo, pesquisei bastante, entrevistei músicos, jornalistas, historiadores, etc. Por outro lado, pensei em criar um museu para o estudo da música afro-caribenha.

Qual foi o resultado?
Foi a abertura da Casa do Zouk em Junho de 2012, no Benfica. A Casa do Zouk funciona como um espaço de divulgação de arte e cultura de matriz africana, mas também é um museu da boa música de matriz africana. O meu envolvimento com a música levou-me a escrever o livro "Gigantes do Zouk". Por outro lado, foi a resposta a um pedido que me foi formulado por Pierre Edouard Jean Decimus, o principal mentor do zouk e do grupo Kassav, como forma de vangloriar os povos de África e das Antilhas em nome da justiça cultural e das nossas excelentes relações de cooperação e amizade.

O que é que os leitores podem esperar do livro?
Bastante informação. São 500 páginas e 10 capítulos de um trabalho aturado de informação, crítica e análise rigorosa das várias etapas do apogeu musical. São 40 anos de música.

O livro é direccionado a um público específico?
É um livro para os amantes de um género de música produzido com elevada qualidade e harmonia. Refiro-me ao zouk a sério, que vai ao encontro da linha de Kassav, Experience 7, Frédéric Caracas, Luc Leandry, Eric Virgal, Sylviane Cedia, entre outros. Não diria que o livro tem um público específico, dirijo-o a todos os apreciadores deste estilo musical. Quando anunciámos a apresentação do livro em Angola, cresceu a simpatia e o interesse de pessoas em diferentes países de África e Europa. Mesmo nas Antilhas já estão a pedir o livro traduzido em francês.

Menciona os Kassav. Entrevistou-os?
Sim, não podia ser diferente, com excepção de Patrick Saint Éloi, que faleceu em 2010. Entrevistei outros músicos antilhanos e africanos.

De Angola fez referência a algum artista?
Desenvolvo o perfil de Eduardo Paím e, dentro desta narrativa, toco em vários nomes de músicos angolanos que considero discípulos dele. A escolha recaiu no Eduardo Paím por ser ele pioneiro na criação e desenvolvimento do género musical kizomba. A kizomba surge da fusão de vários estilos musicais, entre eles o semba, o kompa, e o zouk, fundamentalmente.

O País está em crise, com três anos de recessão. Sendo jornalista e autor, como olha para esta crise?
A crise económica e financeira tem, infelizmente, provocado, "danos" no bolso dos cidadãos e das famílias. Angola é um País onde muito dos seus cidadãos se habituaram a uma vida de facilidades, durante muito anos. Não deram a importância devida à formação, competência e competitividade. Muitas pessoas eram enquadradas nas principais instituições e empresas públicas por compadrio e amizade, mesmo sem possuírem o mínimo de formação e competência. A crise económica fez acelerar o desemprego, o aumento de impostos, a inflação, etc. O Estado agora está a correr atrás de um prejuízo que deveria ter evitado se os dinheiros públicos tivessem sido melhor aplicados e os serviços de fiscalização e inspecção tivessem feito o seu papel.

Em que áreas Angola deve apostar para diversificar a sua economia?
Todas as áreas são válidas e merecem ser consideradas. O fundamental é apostar nas melhores estratégias de desenvolvimento em função das prioridades do Estado para com os cidadãos. O Estado deve lançar-se no desafio de passar a dar oportunidade aos empresários capazes e eficientes, e estes ajudarem a gerar emprego e contribuir para o aumento das receitas públicas.

E a literatura tem futuro no País? Como pode contribuir para a economia?
A literatura é das áreas mais complexas de todas as que fazem parte das artes-maiores. Para falarmos de literatura é essencial olhar para duas vertentes. A primeira é a política nacional do livro e a segunda a promoção da leitura. Mas, também poder-se-á converter numa só que seria a política nacional do livro e da promoção da leitura. Por outro lado, entendo que o futuro da literatura e a sua contribuição para economia fica a dever a um melhor funcionamento e eficiência do mercado literário. Um mercado sem leitores não dá futuro a país nenhum. Esta situação agrava-se mais porque os custos de produção, edição e impressão de livros são mais competitivos no estrangeiro.

O jornalista e jurista com o coração "amarrado" à música

Luís Paulo nasceu e vive em Luanda. É jornalista, jurista, ensaísta e especialista em comunicação. Trabalhou no Jornal de Angola, como redactor e repórter e colaborou com várias rádios e jornais. É quadro sénior do Ministério dos Transportes, onde desempenhou várias funções e cargos.

Dirigiu a revista Rumos do Ministério dos Transportes, fundou a Casa do Zouk e a revista In Memoriam, criou, com o jornalista Mário Santos, o programa "Zouk Non Stop" (emitido na Rádio Mais) e com o jornalista Pedro Baptista criou o "Hora do Zouk", na RNA.

Em 2015 o autor de "Gigantes do Zouk" visitou a ilha de Guadalupe (a famosa terra do zouk) a convite de Pierre Edouard Decimus, fundador do zouk e do grupo Kassav, e de Eddy Compper, produtor e director do Centro Cultural de Guadalupe. Para além de "Gigantes do Zouk", é autor de mais dois livros e de vários artigos de investigação.

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