"Sou poupada. A minha mãe sempre me ensinou que quem guarda tem"

"Sou poupada. A minha mãe sempre me ensinou que quem guarda tem"

Enquanto se prepara para a estreia do musical "Dona Ivone Lara", a actriz angolana radicada no Brasil revela, em entrevista por e-mail, o sonho de gerir um centro de formação artística para crianças e adolescentes em Angola e o desejo de voltar a gravar no seu País natal.

Participou em várias novelas, inclusive em Angola, e regressa agora ao teatro para interpretar "Dona Ivone Lara - O musical". É uma artista dos "sete instrumentos" ou tem preferência por alguma expressão artística?
Adoro trabalhar em todas as linguagens que me permitem o desafio de dar vida a outras pessoas diferentes do que eu sou, seja no teatro, TV ou cinema. Considero o teatro, em particular, uma escola maravilhosa.

Quem é Ivone Lara e que papel a Heloísa representa no musical?
Ivone Lara foi a primeira mulher a assumir-se compositora na ala de uma escola de samba, aqui, no Brasil. São de autoria dela uma infinidade de canções interpretadas pelos grandes nomes da música popular brasileira, como "Sonho Meu" conhecida na voz de Maria Bethânia e Gal Costa. No musical, temos a Dona Ivone Lara em três fases diferentes da sua vida. A que interpreto é a Dona Ivone enfermeira e assistente social, que trabalhou muitos anos ao lado da Dra Nise da Silveira, no Hospital Psiquiátrico Engenho de Dentro.

Divide o palco com Lázaro Ramos, actor bem conhecido em Angola e um activista dos direitos da população negra, numa peça de teatro infantil, "Viagens da Caixa Mágica". O que vos aproximou mais neste trabalho: as artes cénicas ou a luta que ambos travam contra o racismo?
O que nos aproximou foi o desejo de, através da arte, promover reflexões para crianças através do afecto, da autoestima, identidade, respeito pelas diferenças e por aí vai. É um presente fazer parte desse projecto.

Esta peça resultou num álbum musical. A música é uma boa forma de ensinar as gerações mais novas a lidarem naturalmente com a diversidade, a aceitação e a negritude?
Todas as manifestações artísticas, na minha opinião, suscitam reflexões. No caso do álbum "Viagens da Caixa Mágica" a intenção é promover o afecto.

Nasceu em Angola, é filha de mãe angolana e pai brasileiro, e vive desde os 10 anos no Brasil, onde se sentiu muitas vezes, como já referiu, alvo de racismo. Sente-se mais desafiada hoje e mais impelida a derrubar preconceitos ou não?
Hoje tenho 35 anos e me sinto mais consciente de que posso ocupar espaços diversos, independentemente das barreiras existentes.

Quando se estreou na mini-série "Gabriela", Walcyr Carrasco disse, a propósito do seu trabalho: "Há uma garota que, eu aposto desde já, será um grande sucesso: Heloísa. É uma grande actriz, ouçam o que estou dizendo! Tenho certeza de que daqui por diante estará em muitas novelas". Esta afirmação foi uma profecia, ou ajudou a abrir portas na medida que chamou a atenção para si?
Encarei essas palavras do autor como um elogio. Fiquei feliz de ter feito agora "A Dona do Pedaço", outra novela com o mesmo autor com que comecei.

Porque é que continuamos a não ver o Brasil representado nas suas novelas, no que se refere à diversidade cultural e racial do país?
Porque ainda somos um país racista.

Quer o Brasil, quer Angola vivem contextos económicos difíceis. Isso obrigou-a a alterar o seu modo de vida ou é uma pessoa poupada?
Sou poupada. A minha mãe sempre me ensinou que quem guarda tem.

Como é que vê o movimento Black Money (de fomento ao afroempreendedorism o, em defesa dos valores do nacionalismo negro e da cosmovisão Panafricana) que despontou no Brasil?
Acho incrível que nós hoje nos recusemos a consumir produtos que não nos representem. O Brasil tem vivido isso e acredito que esse é um caminho sem volta. Estamos nos fortalecendo inclusive economicamente.

Costuma vir a Angola com regularidade?
Passei mais tempo durante as gravações da novela "Jikulumessu" e foi um período maravilhoso voltar e trabalhar em casa. Gostaria de repetir mais vezes.

Tem algum projecto previsto para Angola?
Nenhum projecto previsto para Angola no momento, mas tenho o sonho de gerir um centro de formação artística para crianças e adolescentes com aulas de canto, dramaturgia, dança. Acredito que a arte é uma arma poderosíssima.

Actriz de "causas" entre o teatro, a televisão e o cinema

Graduada em Artes Cénicas pela Universidade Federal da Bahia, Heloísa Jorge reparte-se pela televisão, onde interpreta Gilda, na novela "A Dona do Pedaço", exibida no horário nobre da TV Globo; o teatro, onde encarna "Dona Ivone Lara" no musical com o nome da primeira compositora numa escola de samba; e o cinema, onde integra o "Sujeito Oculto" de Léo Falcão.

Além disso, a actriz, nascida em Angola de onde partiu aos 10 anos, ainda arranja tempo para apresentar eventos, como o Prémio Sim à Igualdade Racial, onde também cantou e dançou.

Devido ao desempenho na mini-série Gabriela, em 2014, foi convidada a protagonizar a novela angolana "Jikulumessu", dirigida por Sérgio Graciano e que foi exibida também no Brasil. No teatro, foi indicada para dois prémios Braskem, nas categorias de melhor actriz e melhor actriz coadjuvante. Heloísa realiza trabalhos em teatro, TV e cinema desde 2003.

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