"O poder de compra do nosso público baixou consideravelmente"

"O poder de compra do nosso público baixou consideravelmente"

A 6.ª edição do Angola Restaurant Week fica em Luanda até 3 de Novembro, depois de passar por Lubango e Benguela. Este ano, a projecção económica do evento é inferior aos anos anteriores devido ao aumento do custo de vida e à chegada do IVA, factores que afastaram alguns restaurantes.

Que novidades traz esta 6.ª edição do Angola Restaurant Week (ARW)?
Este ano, pela primeira vez, teremos propostas mais económicas para o almoço: pode escolher uma opção com dois pratos em vez de três, por 4.500 Kz. Todos os menus vão incluir a oferta de um café Delta, alguns terão a oferta de um copo de vinho, patrocínio da Nederburg, e outros terão um pop-up bar da Jameson, outro patrocinador do ARW. Além disso, todos os menus terão um prato principal feito com ingredientes locais, fruto da nossa parceria com o Candando.

Qual o impacto do ARW na criação de uma cultura gastronómica no País?
O País já tem uma cultura gastronómica há muito tempo. O que o ARW vem fazer é desafiar os restaurantes a saírem um pouco da caixa, apelar à diversificação dos menus e ao uso de ingredientes locais. Os preços baixos actuam como uma espécie de baliza, e mostram que é possível fazer pratos lindos e saborosos com o uso de ingredientes nossos e a um custo baixo. Alguns destes pratos acabam por ser incluídos nos menus normais dos restaurantes, dada a sua popularidade.

Há mais restaurantes na edição deste ano, em Luanda?
Não, neste ano há menos restaurantes que o ano passado. Vários restaurantes escolheram não fazer parte desta edição devido aos preços baixos que exigimos. Com a subida do custo de vida, a implementação do IVA, e da desvalorização do Kz, há restaurantes que disseram não ter condições financeiras e económicas para participar este ano.

Os restaurantes que participaram pela primeira vez aderiram por iniciativa própria ou foram desafiados pelo Luanda Nightlife (LNL)?
A maioria dos restaurantes foi convidado pelo LNL.

Quais são as maiores dificuldades que enfrentam na organização do evento?
Todos os anos o LNL tem de fazer um "jogo de cintura" e apelar a dois grupos com interesses distintos: os nossos leitores e público em geral que exigem preços baixos, e por outro, os restaurantes que não querem baixar muito os preços por diversas razões. Por outro lado, tivemos bastante dificuldade em convencer os restaurantes de Benguela e Lubango a participar, bem como situações menos boas: cancelamentos de última hora, pouco interesse em conhecer o evento, falta de respostas a emails e telefonemas e desistências. O ARW não tem o mesmo impacto mediático nestas cidades. Contudo, há restaurantes que participaram tanto em Benguela como no Lubango com bastante êxito e entrega.

Em 2018 foram gastos nos restaurantes aderentes 40 milhões Kz. É possível melhorar este ano em que a crise se agudizou?
Não, este ano definitivamente não esperamos ultrapassar o valor gasto nos restaurantes nos anos anteriores. O poder de compra do nosso público baixou consideravelmente, o Kwanza desvalorizou, as pessoas saem menos e mesmo durante o ARW comer fora ainda é um certo luxo. Acontece, também, que temos menos restaurantes a participar. Nesta altura do campeonato, o importante é manter o ARW vivo e minimamente rentável, porque acreditamos que melhores tempos virão para o sector.

Fazem muito esforço para a obtenção de patrocínios para o evento?
Sim, fazemos. Este é o maior evento do LNL e o mais rentável, por isso começamos a fazer apresentações a possível patrocinadores com bastante antecedência. Duas empresas acabaram por desistir à última da hora, mas mesmo assim continua a ser viável persistir com esta iniciativa.

A organização pensa em aumentar o número de províncias e restaurantes aderentes nas próximas edições?
Sim. A grande mudança que será levada a cabo no próximo ano é que o ARW passará a ser verdadeiramente nacional: terá a duração de uma semana, em todo o território nacional. E assim poderemos convidar restaurantes em cidades que até então não fizeram parte do ARW, como Malanje, Huambo, Menongue, N"dalatando, Namibe, e outras.

Ao longo do ARW já ajudaram várias instituições carenciadas. Como avalia o impacto dessa ajuda na vida das crianças que vivem nos centros para onde é canalizada parte da receita do ARW?
Ao longo dos anos já doamos mais de 14.000.000 Kz a várias instituições nas cidades de Luanda, Benguela e Lubango, e temos acompanhado de forma atenta como o dinheiro é gasto. Estas verbas têm ajudado em obras de ampliação de dormitórios, compra de material escolar, medicamentos, matrículas escolares, consultas médicas, e mais.

Quantos centros já ajudaramaté agora?
Até ao momento já fizemos doações 7 centros entre Luanda, Benguela e Lubango.

A crise que se abate sobre o País condicionou a concretização de projecto ou, pelo contrário, serviu como incentivo?
A crise tem sempre um impacto negativo em eventos como o ARW, que dependem também da saúde financeira dos principais players neste mercado: os restaurantes, os hotéis e as marcas patrocinadoras.

A implementação do Imposto sobre o Valor Acrescentado exigiu esforço suplementar na organização destes eventos?
Infelizmente, o IVA causou a desistência de um dos restaurantes convidados, e com certeza condicionou a participação de outros.

Em que medida é que a cultura gastronómica pode mudar a condição económica de uma pessoa? E de um País?
A cultura gastronómica pode muito bem ser um dos principais activos turísticos de um país. Faz parte da nossa identidade enquanto cidadãos. Há países que investiram muito no seu sector de restauração e hoje recebem milhares de visitantes por causa da qualidade dos seus restaurantes e da sua gastronomia; talvez os exemplos mais conhecido sejam a Dinamarca, o Peru, e Austrália, todos países com dezenas de restaurantes com estrelas Michelin. Já existe um público mundial que viaja para comer.


Lídia Onde

Entre a cultura gastronómica e o empreendedorismo

Cláudio Silva é o sócio gerente do Luanda Nightlife, portal promotor da cultura gastronómica do País. É licenciado em Empreendedorismo e Negócios Internacionais, pela Boston University. Natural de Luanda, sem filhos, aos 31 anos, solteiro, aproveita os tempos livres para cozinhar, algo que faz com muito prazer. Também, vê futebol, ouve podcasts e lê notícias "quase a tempo inteiro". O livro de cabeceira é o "Notes From A Young Black Chef", por Kwmae Onwuachi. Questionado sobre se prefere passar férias em Angola ou no estrangeiro, responde que depende do tipo de férias, pois "há espaço e tempo para as duas opções, e tanto Angola como o mundo são muito grandes." Considera-se uma pessoa poupada, por força da crise, mas não conseguiu ainda poupar no que toca a comida. "Há excepções, mas simplesmente deixei de comer fora e agora cozinho muito mais em casa", disse.

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