"O foco deve ser no trabalho e não no seu reconhecimento"

"O foco deve ser no trabalho e não no seu reconhecimento"
Foto: D.R.

Entrou para a Faculdade de Ciências forçada pelo pai, mas hoje Adjany ri-se das voltas que a vida deu e da forma como se apaixonou pelo curso. Após vários prémios a nível mundial, Angola também a condecorou. Defende que o conhecimento do funcionamento de um determinado recurso pode garantir sustentabilidade.

Como é receber prémios pelo trabalho que desenvolve com a National Geographic?
O primeiro prémio que recebi por este trabalho foi em 2017, tendo sido reconhecida pela própria National Geographic como um "indivíduo com grande potencial para contribuir para a mudança positiva do mundo", o prémio de Emerging Explorer. Desde então recebi vários prémios de diferentes categorias ao redor do mundo. Sem dúvida o mais importante é o que recebi recentemente das Nações Unidas, em Setembro, como um dos campeões da terra conjuntamente com 6 outros indivíduos ao redor do planeta. Digo importante porque irá alavancar esta nova fase do projecto que desenvolvemos com as comunidades de Luchaze, no Moxico, não só com o financiamento associado mas também pela rede de contactos e possibilidades que as Nações Unidas têm a oferecer.

Ficou surpreendida ou sempre trabalhou para isso?
O reconhecimento no ramo que exerço é sempre uma surpresa, porque durante muito tempo não era visto como suscitador de mérito. Desenvolvo o meu trabalho movida pela paixão, acreditando veemente nos objectivos de conservação para os quais lutamos avidamente para alcançar. Portanto, tendo em conta que prémios não constam na lista de motivos que me levam a fazer o meu trabalho, é sempre uma surpresa positiva quando sou/somos agraciados com tais honras, pois não só é um encorajamento adicional para darmos seguimento ao que fazemos, mas também uma nova porta que se abre em diferentes núcleos de colaboração.

Agora, o reconhecimento vem do seu País, com uma condecoração atribuída pelo Presidente da República...
Confesso que me senti muito emotiva com a condecoração, e me fez reflectir bastante em todos os passos dados para chegar aqui. Após 13 anos envolvida neste mundo de ciência e conservação, saber que não estou nesta batalha cegamente aos olhos do país, a que tanto nos temos dedicado para participar na mudança e melhoria, significa muito. Apesar de este não ser o objectivo de tanto empenho, mas definitivamente este reconhecimento vem suscitar ainda mais motivação e energia que será dedicada no avanço dos projectos em que trabalho.

Conte-nos como é que foi convidada para a cerimónia?
O convite foi casual, vindo da equipa do Presidente da República. Na verdade, a casualidade foi tanta que não percebi a importância deste feito até ter chegado a Luanda para participar no evento. Tendo sido em cima da hora, nem sequer deu tempo para me preparar psicologicamente para receber tamanha honra.

Ser bióloga foi sempre o seu sonho ou "tropeçou" numa oportunidade?
Na verdade, seguir biologia na Faculdade de Ciências foi completamente forçado. Tinha 16 anos quando entrei para a Faculdade, e como normal da idade não fazia a mínima ideia do que queria fazer, e tinha me convencido que não queria mais estudar! Foi o meu pai que tomou as rédeas da situação, e inclusive foi ele que fez a inscrição e "informou-me" que tinha um exame em alguns dias e que "era melhor eu passar". Rio-me sempre das voltas que a vida dá, pela forma como me apaixonei pelo curso e ele me provou que "os pais sabem melhor". Mesmo depois da graduação, não acreditava ser possível ter uma carreira de investigação e conservação no País, mas com o mestrado, inserindo-me em grupos internacionais, a minha crença levou-me a lutar para conseguir oportunidades para seguir tal caminho.

A sua vida continua igual depois destes reconhecimentos?
Definitivamente continuo a mesma, mas a visibilidade de alguns reconhecimentos trouxeram uma maior exposição, que pode ser aproveitada para elevar o projecto em que me dedico. Existe agora muita mais perspectiva de colaboração, financiamento e crescimento do que antes, pois acredito que o mundo vê estes reconhecimentos como prova de capacidade e possibilidade de confiança.

Como acha que os jovens devem olhar para os seus prémios?
Apesar de ser agradável saber que o nosso trabalho começa a ser reconhecido, é importante fazer lembrar que os prémios são apenas um bónus num caminho que continua com obstáculos a serem vencidos e que o foco deve ser no trabalho e não no seu reconhecimento.

Como é que a investigação científica pode ajudar o País neste período tão complexo da economia?
Conhecer profundamente o funcionamento de um determinado recurso, biológico ou não, dá-nos ferramentas para que possamos gerir mais sustentavelmente e a longo prazo os benefícios que o mesmo nos possa trazer. O uso dos mesmos sem absolutamente nenhuma percepção da sua natureza, comportamento e renovação é um ingrediente para uma economia sem bases robustas para o seu próprio sustento no futuro. Temos que, de uma vez por todas, ter uma percepção da finitabilidade dos recursos essenciais ao desenvolvimento económico de qualquer sociedade, e a ciência é um dos maiores aliados no desenvolvimento de estratégias de gestão eficazes, sustentáveis e realísticas.

A ciência ganhou o coração da bióloga

É natural do Huambo e aos 30 anos o seu trabalho como bióloga é reconhecido a nível mundial, tendo sido várias vezes premiada. Actualmente faz o doutoramento na Universidade de Oxford. Trata-se de Adjany Costa que, recentemente, foi condecorada pelo Presidente João Lourenço. Como bióloga, diz que ainda lhe falta fazer "tudo", porque "há ainda mais para explorar, contribuir e aprender." Acredita que faz parte de uma geração muito activa, quer profissional, política e até mesmo civicamente.

Nos tempos livres gosta de ler, apreciar a natureza, praia, e estar em família. Também gosta do processo de alimentar os outros com amor e carinho, mesmo sem saber se o faz bem. Livros de cabeceira: "O Ministro", Uanhenga Xitu; "Geração da Utopia", Pepetela e "História de Angola", Adalberto Oliveira. Na música é ecléctica, desde kuduro ao semba. Para passar as férias basta que seja "com muita natureza e perto de água."

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