"Quando se fala constantemente de corrupção os empresários têm medo de investir"

"Quando se fala constantemente de corrupção os empresários têm medo de investir"
Foto: César Magalhães

O banqueiro Fernando Teles está agora empenhado nos projectos empresariais de agricultura e pecuária. Lembra que para o País se desenvolver é necessário investimento e que não se pode assustar aqueles que têm capacidade para isso. Fala também da presença do FMI em Angola e do projecto BIC.

Angola vive, nesta altura, um momento complicado para a sua economia, marcado pela desvalorização da moeda, a falta de investimento e o endividamento público a crescer. A economia está há quatro anos em recessão. Com este cenário, como caracteriza a situação actual?
Eu acho que este devia ser um momento de união de todos os angolanos, um momento de incentivo à produção e não de divisão. O que sentimos na banca é que muitos empresários estão a abandonar o País. Posso dizer-lhe que no último mês fui abordado por 13/14 empresários a quererem vender as suas empresas ou a sua parte em parcerias. As pessoas querem realizar capital, não têm liquidez, começam a perceber que o futuro não será fácil.

Quando fala em divisão, esta é económica, política, social...?
Eu ainda não percebi muito bem. É lógico que, quando se fala permanentemente "corrupção, corrupção, corrupção", os empresários têm medo de investir. Os estrangeiros também não vêm investir em Angola. Quem está a investir no País são aqueles que já tinham começado e que não podem parar. Não se pode assustar os empresários. O pior que pode acontecer é que os que ainda têm algum dinheiro tenham medo de investir. Porque se lhe vai perguntar onde é que arranjaram o dinheiro.

Como é que se resolve isso?
É atirar o passado para trás. Relativamente ao dinheiro que não se conhece muito bem a sua origem, de onde veio, mais vale pôr uma pedra sobre o assunto. Para bem do desenvolvimento do País. Vou dar-lhe um exemplo. Nós ficámos com um projecto imobiliário que estava a meio e o banco acabou a construção das vivendas. Havia 42 pessoas interessadas em comprar, pessoas que têm dinheiro, mas que não fazem as escrituras. Não se chegam à frente para comprar porque têm receio. Assim a economia não funciona.

A justificação dos dinheiros acumulados devia então ser um assunto encerrado?
Eu falo à vontade porque o dinheiro que eu ganho vem do banco . No primeiro e segundo ano, acho muito bem pressionar para saber as origens do dinheiro, mas agora é pôr uma pedra em cima. E dizer às pessoas vamos ao investimento, vamos aplicá-lo no desenvolvimento da economia angolana. Passar uma mensagem positiva. E não estou a falar do dinheiro que está no exterior, mas do que está no País.

O dinheiro no exterior nunca será recuperado?
Se os empresários forem motivados, um ou outro vai trazer o dinheiro que tem fora. Durante a última década, houve muita gente a trazer dinheiro do exterior para investir em Angola. Mas de livre vontade, sem ser pressionado. Quando as pessoas se sentem pressionadas é um bocado mais difícil.

Há empresários com projectos para Angola?
Há alguns empresários com projectos, mas são fundamentalmente aqueles tradicionais que têm capacidade de análise, que já estão no mercado há uns anos e que têm a perspectiva de que Angola não pode parar. Angola tem condições para vir a ser um grande País, temos condições iguais ao Brasil, Estados Unidos ou Argentina.

São os angolanos que estão a investir e os estrangeiros mostram desconfiança. É isso?
Não só os investidores estrangeiros. As pessoas que me abordaram para vender as suas empresas, diga-se que não comprei nenhuma, são maioritariamente angolanas, na faixa etária dos 60/70 anos, que já passaram por muito e que têm dificuldade em ver qual será o futuro. O pior é quando os empresários perdem a confiança no País e deixam de acreditar e de investir.

Mas há alguma receita para recuperar esta confiança?
Eu acho que há. A receita passaria pelos dirigentes irem às explorações agro-pecuárias, às empresas industriais, falar com aqueles empresários que mostraram que são resilientes e incentivá-los. Isso tem que ser feito. Mais do que dinheiro - muitos deles não precisam, são empresários há mais de 20/30 anos - precisam de incentivo. Alguém que lhes bata nas costas e lhes diga "vamos para a frente, é preciso desenvolver o País".


(Leia o artigo integral na edição 551 do Expansão, de sexta-feira, dia 22 de Novembro de 2019, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

Partilhar no Facebook

Comentários

Destaques

ios Play Store Windows Store
 
×

Pesquise no i