"Se os bancos não investirem nos títulos, o Estado pode não conseguir pagar salários"

"Se os bancos não investirem nos títulos, o Estado pode não conseguir pagar salários"
Foto: Quintiliano dos Santos

O PCE do BAI explica que a banca comercial não pode conceder crédito de forma mais facilitada aos empresários enquanto o Estado não resolver questões tão importantes como os registos de propriedade e a execução das garantias. E lembra que continua a investir na economia através dos títulos de tesouro.

O ano passado foi um grande ano para a banca, que teve os maiores lucros de sempre. Este tem sido um ano difícil com a crise, mas fica a ideia que o negócio das divisas está a alavancar outra vez os lucros dos bancos. Como está a correr 2019 para a banca, em geral, e para o BAI, em particular?
Tem sido um ano desafiante, nós não estamos imunes a tudo o resto que se passa na economia angolana. Mas também é verdade que os resultados cambiais têm contribuído para o aumento dos resultados líquidos dos bancos e no BAI não é diferente. Mas não se pode apenas pôr o foco nos resultados, mas também no apoio que os bancos têm dado à economia. Nós pagamos impostos, e repare que se olharmos para os três trimestres deste ano, o BAI recebeu uma carta da AGT que o coloca como um dos 10 principais contribuintes do País. Criámos empregos, contratámos empresas para prestar serviços, tivemos também um papel muito importante no desenvolvimento económico.

Mas os bancos têm sido bastante criticados, até pelas associações do sector, por andarem à boleia do mercado cambial e do mercado dos títulos da dívida pública e não libertarem dinheiro para as empresas, para a economia real.
Reconheço que com alguma razão. Razão parcial, direi. Nós gostaríamos de conceder mais crédito. Temos uma equipa de comerciais à procura de empresários e de bons projectos. É verdade que não é possível fazer crescer a economia sem crédito, e que não é sustentável para o BAI ou para outro banco, viver apenas de operações cambiais. Nesta altura, valem para nós 50% do produto bancário e queremos aumentar. Mas, no actual contexto, em que está a correr o AQA (Avaliação de Qualidade dos Activos), os empresários não nos conseguem convencer com os seus projectos.

Está então a dizer que não há projectos viáveis.
Sim. Vou dar-lhe um exemplo. O aviso 4 saiu em Abril e nós no BAI não temos mais de 30 operações em análise. Não é normal. A questão é porque que não aparecem mais operações? Temos um milhão e 200 clientes e apenas 30 propostas para análise. É com esta realidade que também nos devemos preocupar

Existe excesso de rigor por parte dos bancos?
É normal que assim seja. Como lhe disse, está a correr o AQA, o processo de incremento das paridades que poderá ter reflexos nos fundos próprios dos bancos e é normal que as instituições sejam mais rigorosas.

O BAI está neste grupo?
Nos últimos 10/15 anos, o BAI tem sido conservador nesta matéria, felizmente. Somos conservadores na análise do crédito, no acompanhamento do crédito, mas também na distribuição de lucros. Isso permitiu preparar almofadas para os períodos mais difíceis, como este que estamos a passar. Em 2010, o Conselho de Administração do BAI percebeu que a crise ia durar 10 anos. Depois da crise de 2008 veio a crise de 2013, e o nosso nível de exigência é muito alto. A nossa equipa que estuda este fenómeno das crises acertou nesta previsão, não temos varinhas mágicas, mas preparámo-nos para estes tempos. O nível de exigência hoje é muito alto.

Mas os operadores económicos podem não perceber essa vossa postura?
É preciso entender que concedemos crédito com base nos recursos dos accionistas, valem entre 18 e 20%, mas tudo o resto são recursos que provêm dos nossos clientes. E temos de devolver esses recursos aos nossos depositantes. A última coisa que queremos é perder a confiança daqueles que escolhem o nosso banco para depositar o seu dinheiro. É preciso olhar para esta questão também por este ponto de vista.

O discurso do Presidente sobre a diversificação da economia tem assentado no PRODESI, que tem como instrumento de crédito o PAC. Mas a verdade é que a banca comercial só aprovou 10 projectos. Não podem ser acusados de estar a boicotar a política do Governo e a ser "contravapor" neste processo de diversificação?
E temos sido acusados. De forma directa ou velada de não estar a contribuir. Mas claro que não concordo. Nós somos parceiros do Governo. Não vivemos numa fantasia à parte da realidade económica angolana. (...)

(Leia o artigo integral na edição 552 do Expansão, de sexta-feira, dia 29 de Novembro de 2019, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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