"A agricultura não se faz com taxas de juro de 12%. Nem de 6%"

"A agricultura não se faz com taxas de juro de 12%. Nem de 6%"
Foto: Lídia Onde

O ministro da Agricultura, Francisco Assis, defende que é necessário um sistema de crédito adaptado ao sector da agricultura. Aponta como maiores problemas a falta de conhecimento técnico, a pouca rentabilidade da produção, a debilidade da logística e a falta de diálogo entre os diversos agentes.

A agricultura aparece no discurso político como a solução para a situação de crise que o país atravessa. Produzir mais, substituir as importações, que implica a poupança de divisas, atingir valores que garantam a segurança alimentar, são temas abordados diariamente pelos governantes. Isso coloca uma pressão suplementar sobre a acção do ministro António Francisco Assis. Como é que lida com esta pressão para que a produção agrícola aumente?
Essa é uma realidade que está ligada à função que desempenho. Estou de acordo que o processo que pode levar à solução do momento de crise que o País vive passa pela produção agrícola, pela produção primária. Mas esse processo não é exclusivo do Ministério da Agricultura. Todas as forças vivas da Nação têm que estar focadas nesta missão. Se há uns que têm que plantar o milho, há outros que têm de colher, outros que têm de transportar, outros que vão industrializar, e ainda outros que têm de consumir. Em toda a cadeia entre a produção e o destinatário final, nem todos os agentes são da agricultura, há outros sectores envolvidos.

Está a dizer que o sucesso da política agrícola não depende apenas do seu ministério?
Depende de todos. A agricultura é cidadania. Primeiro temos que ganhar consciência disto, e depois eliminar as barreiras que ainda existem. Tenho-me referido a três fundamentalmente. O 1.º problema e mais grave é o saber. Conhecimento técnico. Não é apenas para os técnicos da estrutura central do ministério, mas também para os próprios cidadãos que plantam, os agricultores.

Essa falta de conhecimento é que faz com que as rentabilidades por hectare da nossa agricultura sejam muito baixas?
Não há conhecimento na nossa agricultura. As pessoas pensam que conhecimento é ter um "pivot" ou 40 "pivots". Está errado. Continuam a pensar que tecnologia é ter um tractor topo de gama. Confunde-se muito conhecimento com meio de trabalho.

Fala-nos de casos práticos.
Por causa desta confusão encontramos cenários muito "estranhos". Entramos numa propriedade em que se investiram 40 milhões de dólares, pergunta-se a um funcionário que está a efectuar uma determinada tarefa, porque é faz assim, dessa maneira. Ele não sabe. Como é que se investem dezenas de milhões numa fazenda e o capital humano, que é o mais importante, não está preparado. O trabalhador não sabe conduzir o tractor, não sabe preparar a terra, não sabe regular uma alfaia...

É isso que influencia a rentabilidade...
Temos em Angola coisas absurdas. Investe-se 40 /50 milhões USD numa fazenda e depois "tiram-se" quatro toneladas de milho por hectare. Isso é vergonhoso.

Enquanto ministro, como é que acha que isto se resolve?
Como já disse, com conhecimento. Estudar, ler, aprender. E para isso temos que ser humildes. Abandonar a arrogância e a prepotência. Capacitarmo-nos que precisamos de aprender, que não sabemos. Do ponto de vista prático isso faz-se nas escolas de práticas agrícolas, escolas médias e escolas superiores. Mas tudo começa na base. Se houver uma base de agricultores bem preparada, com um bom engenheiro pode-se atender diversas províncias. Desde que exista uma parte básica bem estruturada.

E essa é uma responsabilidade do Estado ou dos privados?
Quem tem a responsabilidade da formação e capacitação do capital humano é o Estado. É uma responsabilidade pública. O sector privado apenas complementa, nomeadamente na área da investigação. Ainda hoje se semeia mal milho em Angola. A banana não se cultiva como estamos a fazer no País. A mandioca não se planta como se faz em Angola. Estes são factores que condicionam o desenvolvimento da agricultura.

Mas para mudar é preciso ir ensinar as pessoas.
Estamos a fazer isso, mas não temos gente suficiente para cobrir todo o território nacional. Estamos a tentar reorganizar processos para que possamos levar informação científica aos cidadãos, aos agricultores. Temos que alterar as práticas para ter níveis de rentabilidade compatíveis com o que se faz noutros países. (...)


(Leia a entrevista integral na edição 554 do Expansão, de sexta-feira, dia 13 de Dezembro de 2019, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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