Vergonha

Vergonha

Este é o sentimento que muitos de nós sentimos depois de ler o despacho-sentença, onde o Ministério Público explica como foi montado o esquema mirabolante do negócio dos diamantes, de que hoje publicamos partes.

Afinal foi assim que se construiu uma das maiores fortunas do continente? Sem investimento dos envolvidos, sem respeito pelas mais elementares regras de concorrência, bloqueando a entrada de agentes que não estivessem alinhados, utilizando garantias soberanas, desbaratando o dinheiro do Estado. E no cúmulo da impunidade, com empréstimos de um banco onde era sócia, sem qualquer risco, ganhando nos dois lados. Ainda quero acreditar que não seja bem assim, mas a verdade é que as evidências e as primeiras explicações dos envolvidos criam em mim o sentimento de que o Tribunal terá tido razão em dar como provadas 50 das 52 premissas do documento.
Isto apenas num sector, o que abre em mim uma enorme curiosidade em perceber se, afinal, também se confirmam os rumores que em outras áreas de negócio - distribuição alimentar, telecomunicações, indústria, imobiliário, banca, cimento - o esquema e o saque terá sido feito da mesma forma e com a mesma dimensão. Mas também não posso deixar de perguntar, porque é que muitos, que hoje parecem embutidos de um novo espírito, mas que não podiam deixar de saber destas negociatas, se mantiverem calados durante todos estes anos? Mas, pior, alimentando este mito do símbolo do empreendedorismo, do culto da personalidade, que, afinal, era só um truque de ilusionismo?
Além de envergonhado estou também profundamente desiludido. Eu confesso que fui daqueles que comprei os livros que nos explicavam onde era possível ter um trajecto entre uma banca de ovos e a lista dos mais ricos de Forbes. Nunca acreditei na história toda, confesso, mas em momentos mostrei o meu orgulho por uma compatriota que passou a circular nas áreas da grande finança e dos grandes negócios, tendo inclusive rebatido muitos dos argumentos que alguns, e apenas alguns, apresentavam sobre esta ascensão meteórica.
É importante que se retirem as lições necessárias. A primeira é que não se pode dar tanto poder a tão poucos. A ambição humana não tem limites. A segunda é que nunca é tarde para acertar as contas com o passado. E que o facto de a teia ser grande, de haver muitos beneficiados, não pode inocentar os envolvidos. Também não é argumento que enquanto não se acusar todos não se pode julgar alguns. Apesar de não ser nada agradável ver cair algumas das referências do País, é pior se fingirmos que não se passou nada. Mas também é importante não esquecer que dificilmente se geram ventos novos com ventoinhas velhas. Ou, pelo menos, com ventoinhas habituadas a trabalhar com ritmos do passado. E muitas ainda continuam no activo.

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