"Temos vivido grandes e sérios constrangimentos. Foi um ano cambial difícil"

"Temos vivido grandes e sérios constrangimentos. Foi um ano cambial difícil"
Foto: Quintiliano dos Santos

O presidente da Associação das Indústrias de Bebidas de Angola receia que o sector possa entrar em falência com o encerramento de diversas fábricas devido a factores como a desvalorização do kwanza e o aumento de impostos que penalizam a produção.

Que avaliação faz do ano passado para a vossa indústria?
O ano de 2019 foi um ano difícil e duro, enfim, foi bastante complicado. Em 2018 o sector registou quebras de 25% e em 2019 estas quebras chegaram a 30 % em volume. Ou seja, nos últimos dois anos o sector das bebidas teve quebras de produção de 50%. Até ao final do ano passado o nosso sector despediu cerca de 5 mil trabalhadores, muitos dos quais chefes de famílias. Temos vivido grandes e sérios constrangimentos. Foi um ano bastante difícil também com a questão cambial. Os empresários do sector das bebidas são verdadeiros lutadores, afirmo-o no verdadeiros sentido da palavra, pois demonstram sentido de resistência ao não desistirem das suas empresas, sentido de força, sentido de união para com os que deles dependem em emprego e desenvolvimento comunitário. Guerreiros porque sentem- se abraçados a uma causa e a um propósito que é a economia nacional e o desenvolvimento socioecónomico do país, readaptando- se sempre, lutando contra as adversidades e os constrangimentos.

Quantas fábricas fecharam?
Demasiadas! No universo das águas de mesa, tínhamos um registo de mais de 24 unidades fabris e delas mais da metade estão paralisadas. Fábricas de cerveja e refrigerante diminuíram muito a produção, algumas linhas não estão a funcionar por diversos factores. Estamos agora a actualizar o inventário para termos com precisão o número de fábricas que fecharam. Deixar morrer, mesmo que por partes, um sector como este, vai fazer-nos regredir muitas décadas. Afirmo-o com forte convicção. O nosso sector empregava de forma directa mais de 13 mil trabalhadores e de forma indirecta gerava cerca de 42 mil postos de trabalho. Isto mostra a robustez com que as nossas indústrias se afirmavam no panorama nacional e internacional. Outro factor importante associado ao sector das bebidas é o desenvolvimento do sector das embalagens. Várias empresas estrangeiras criaram parcerias com investidores nacionais e passaram a fabricar aqui as latas, garrafas, rótulos, caricas metálicas e outras embalagens. E isso permite a criação de mais emprego, mais impostos... Isto sem falar do sector agrícola que também já produz alguma matéria-prima para nós e que se desenhava uma produção em grande escala. O sector das bebidas traz ao País um factor multiplicador. Não gostava de pensar numa economia nacional dependente das importações neste sector, esses tempos já deveriam ter sido expurgados.

Há indícios de morte do sector das bebidas?
Os indícios são visíveis, são prenunciadores, mas só serão uma realidade se cada uma das partes, e num todo, permitirmos e insistirmos nesta trajectória de agonia. Todos temos responsabilidades acrescidas. Nós como fabricantes, o governo que giza as políticas macroeconómicas e a sociedade no geral que também vive os problemas deste sector. Se olharmos os problemas económicos que o País hoje vive, vemos que todos estamos a padecer. Mais do que olhar para o mercado, vamos olhar mesmos para a indústria, que neste momento não está bem e não se avizinham tempos melhores.

Porquê?
Por várias razões. Desde 2014 que Angola enfrenta uma crise e com ela assistimos a muitas alterações. O sector das bebidas para se manter ainda precisa muito de importar, não produto acabado, mas matéria-prima, e têm existido muitos constrangimentos a este nível. Há escassez de divisas e isso está a afectar directamente a produção. Temos ainda a desvalorização da moeda, que constitui um problema muito grave e que tirou capacidade de importação aos nossos associados. E como se não bastasse, temos o Imposto Especial de Consumo (IEC) que foi introduzido em Outubro. Este imposto veio violentar mais ainda um sector que já está fragilizado com outras situações. Acresce o problema da concorrência desleal que vamos vivendo por parte de alguns produtores, protegidos pelo Estado e pelos distribuidores. (...)


(Leia a entrevista integral na edição 556 do Expansão, de sexta-feira, dia 10 de Janeiro de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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