"A cultura em Angola não é um 'produto' fácil de comercializar"

"A cultura em Angola não é um 'produto' fácil de comercializar"

Luanda vai celebrar o seu 444.º aniversário com várias manifestações culturais desde teatro, música, dança, cinema ao ar livre, exposições de fotografia e artes plásticas, com a segunda edição do Kaluanda Fest, de 20 a 26 de Janeiro, e entradas livres.

Como surge o Kaluanda Fest? O Kaluanda surgiu da necessidade de criar um projecto que celebrasse o aniversário da cidade capital. Um projecto em que as pessoas se revissem, atendendo à lacuna de festividades oficiais nos últimos anos. É uma homenagem a Luanda, mas com um nome inglês (Fest), porquê? O "Fest" é um encurtamento da palavra "Festival", que é uma palavra multilingue. O encurtamento foi intencional, no sentido de tentarmos alcançar diferentes nacionalidades, não apenas no território nacional, como no internacional, mantendo a nossa identidade (Kaluanda). Foi fácil conseguir parceiros/patrocinadores? A cultura em Angola não é um "produto" fácil de comercializar. Houve alguma resistência de alguns players em aderir ao conceito, mas gradualmente temos tido melhor e maior aceitação. Como reflexo disso, nesta edição temos mais parceiros comparativamente à primeira realizada em 2018. Contaram com algum financiamento? Não houve financiamento. Os fundadores do projecto aplicaram o seu tempo e know-how para criar o conceito que existe actualmente. Como seleccionam o espaço? Tentamos identificar espaços emblemáticos da cidade de Luanda e que tenham a capacidade de receber as nossas iniciativas. Uma semana é suficiente para "pensar" Luanda? Pensar Luanda deve ser um exercício constante, por isso que, apesar de focarmos as celebrações para o período de uma semana, é nosso objectivo que os temas levantados tenham uma duração e impacto muito maior. Como são escolhidos os grupos de teatro, as artes plásticas, a música, a gastronomia e os filmes? O denominador comum é Luanda. Tudo que são manifestações através do Kaluanda devem sempre render uma homenagem a cidade. Caso não seja possível, tentamos que o conteúdo esteja alinhado com os nossos valores: valorização da cidade, das pessoas e da cultura. Os grupos de Teatro desta edição foram escolhidos com base na sua experiência. Os dois grupos aceitaram o desafio de desenvolver uma peça em torno da temática "Luanda", do passado, presente ou futuro. Onde vão levar as pessoas no passeio histórico? O Roteiro dos Passeios pretende levar as pessoas pelos principais pontos de destaque da cidade de Luanda. A rota dos escravos é uma base fundamental do roteiro, adicionando-lhe alguns pontos que achamos que sejam importantes para o conhecimento dos nossos participantes. A gratuitidade do evento não vos prejudica? Em algum momento deverá ser pago? Um dos valores que temos como base do projecto é o da inclusão social e cultural. Acreditamos que o preço poderia ser um inibidor da participação de uma boa franja da população. Uma vez que estamos a celebrar a cidade, uma cidade de todos e para todos, tentamos eliminar as principais barreiras. Claro que o projecto é impactado por essa decisão. Contudo, o projecto foi estruturado de forma a conseguir ser sustentável com esse pressuposto. Ficam pelo Kaluanda Fest ou pensam num outro formato de evento inovador? O objectivo passa por ajudar a dinamizar o ambiente cultural e turístico nacional. Por isso, é expectável que a médio e longo prazo, possam surgir outros projectos, nossos ou em parceria, que estejam alinhados com essa ambição. Como é que eventos do género promovem a diversificação da economia? Temos de ver a cultura e manifestações culturais como produtos e consequentemente comercializáveis. Temos vários exemplos de países que "exportam" cultura e que são de consumo elevado nos países de destino. Esse aspecto funciona de igual forma como um catalisador para o turismo. O Kaluanda Fest ajuda a promover Luanda e as suas características diferenciadas, alicerçadas no que é a identidade da cidade, presente na comida, na música, na linguagem, entre outros aspectos. Todos esses aspectos ajudam a fomentar o Turismo Cultural. Existem diversos exemplos espalhados pelo mundo de como eventos culturais ajudaram a dinamizar a economia de uma determinada cidade. Adicionalmente, o Kaluanda Fest promove produtos e serviços "made in Angola", ajudando assim na sua valorização no mercado nacional e no seu reconhecimento em mercados externos. Como olha para o estado actual da cultura no País? Acredito que temos um potencial cultural enorme para explorar. Vai caber aos agentes culturais e demais stakeholders, identificar as melhores formas de alavancar esse potencial. Quem faz menos pela cultura: os artistas ou o executivo? Acho que as partes têm responsabilidades distintas nessa dinâmica. A acção cultural por si, deve estar reservada aos artistas. O Executivo tem um papel fundamental na criação de medidas que alavanquem, protejam e valorizem a actividade desses agentes culturais. A questão para mim é quem desempenha melhor o seu papel, e acredito que os artistas têm tido mais mérito nesse sentido.

Um gestor dedicado à dinamização cultural

Josemar Afonso é o coordenador do projecto Kaluanda Fest, que foi lançado em Janeiro de 2018, por altura do início da celebração de aniversário de Luanda, com recurso a manifestações culturais que espelham a essência da cidade capital. Com formação em Gestão e Estratégia, aos 28 anos de idade Josemar, solteiro e pai, é natural de Luanda e gosta de passar os tempos livres com a família e amigos, ler e ver televisão. Sabe cozinhar mas prefere que seja ocasionalmente. O Kaluanda Fest, lançado oficialmente em 2018, promete devolver à cidade em 2020 as grandes celebrações em torno do aniversário da capital.

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