João Lourenço demarca-se de Manuel Vicente e exclui negociação com Isabel dos Santos

João Lourenço demarca-se de Manuel Vicente e exclui negociação com Isabel dos Santos
Foto: DR

Em entrevista à DW o presidente João Lourenço nega que Manuel Vicente seja seu assessor e fecha a porta a conversas com Isabel dos Santos, explicando que o tempo de negociar já passou e que agora esse é um assunto da Justiça. Os próximos passos deste processo serão dados a partir da segunda semana de Março, depois da abertura do novo ano judicial. Assume também que fez parte do sistema mas que vai acabar com ele.

O Presidente da República negou esta semana que o ex-presidente Manuel Vicente seja seu conselheiro, considerando que se tratam de rumores infundados, e sublinhou que não há qualquer tipo de negociação com Isabel dos Santos, que está a contas com a justiça angolana, uma vez que o tempo para negociações terminou com a vigência da lei do repatriamento voluntário de capitais.

Em entrevista à televisão alemã DW, João Lourenço afirmou que em relação ao ex-vice-presidente, este goza de imunidade e que só após este período é que poderá ser julgado (ver caixa). "Eu não tenho esse senhor como meu conselheiro. Os meus conselheiros são conhecidos. Alguém acordou bem-disposto e inventou isto. (...) Ele não é meu conselheiro para área nenhuma. O que se diz é que é meu conselheiro para o sector dos petróleos, mas isso é absolutamente falso. Não trabalha para mim, nem de forma remunerada, nem de forma gratuita", disse o chefe de estado.

João Lourenço fez questão de desmentir notícias sobre alegadas negociações com Isabel dos Santos uma vez que findou o período de graça para "devolverem os recursos que indevidamente retiraram" do País. "Quem não aproveitou esta oportunidade, todas as consequências que puderem advir daí são apenas da sua inteira responsabilidade. Esse período de graça terminou em Dezembro de 2018. Estamos hoje em Fevereiro de 2020. Portanto, pensamos ser bastante extemporânea a possibilidade de negociação. Para além de que, processos que estão em tribunal não são negociáveis fora do tribunal", disse. Acrescente-se que ainda recentemente o Procurador-Geral da República confirmou em entrevista que deu em Portugal que nas últimas semanas vários cidadãos, deputados, empresários e gestores públicos, procuraram a instituição no sentido de negociarem a devolução de bens.

O PR falava assim pela primeira vez sobre o caso Luanda Leaks, que resultou de uma investigação de dezenas de jornalistas internacionais a negócios de Isabel dos Santos, revelada poucas semanas após a justiça ter decretado o arresto (dando provimento a uma providência cautelar) de empresas da empresária e do seu marido, Sindika Dokolo, bem como contas bancárias do casal e do gestor Mário Leite Silva. A acção principal apenas dará entrada no tribunal a partir da segunda semana de Março, quando terminarem as férias judiciais.

João Lourenço revelou que existem vários casos de julgamentos a decorrer em Luanda relativos a crimes denominados de "colarinho branco" (financeiros), sem especificar, sabendo-se que um pouco por todo o País foram abertos dezenas de processos judiciais contra elementos das administrações municipais e governos provinciais, já havendo cerca de 20 condenações. No entanto, além dos casos mediáticos que estão em julgamento ou já julgados, como o caso 500 milhões USD ou o processo que envolve o ex-ministro dos Transportes, também em Março vão dar entrada processos na justiça contra os clientes devedores do BPC no âmbito de financiamentos onde se incluem empresários e políticos conhecidos na praça pública. Isto vai abrir uma nova frente junto de uma elite que se considerava intocável.

O também líder do MPLA admitiu ter feito parte do sistema que sustentou o seu antecessor José Eduardo dos Santos, salientando, no entanto, que só os que conhecem o regime por dentro estão preparados para fazer grandes mudanças. "De facto eu trabalhei debaixo da orientação do Presidente José Eduardo dos Santos. Todos nós trabalhamos. Um Presidente que ficou quase 40 anos no poder. Ninguém pode dizer que não fazia parte do sistema. Todos nós fizemos parte do sistema. Mas quem está em melhores condições de corrigir o que está mal e melhorar o que está bem são precisamente aqueles que conhecem o sistema por dentro. Isso foi assim em todas as revoluções, se assim quisermos chamar." (...)


(Leia o artigo integral na edição 560 do Expansão, de sexta-feira, dia 7 de Fevereiro de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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