A queda de receita petrolífera provocada pelo coronavírus colocou o País à beira do 'default'

A queda de receita petrolífera provocada pelo coronavírus colocou o País à beira do 'default'
Foto: César Magalhães

O novo coronavírus e o choque petrolífero empurraram o País para uma encruzilhada, diz o economista Precioso Domingos. Mais do que reformas económicas, é preciso medidas políticas, que transformem o País em verdadeira economia de mercado, além de emagrecer o Estado e reestruturar a dívida.

Este pânico que se gerou nos mercados é uma consequência do novo coronavírus ou da guerra entre a Rússia e a Arábia Saudita, numa altura em que se aproxima o fim do acordo entre a OPEP e os 11 países produtores de petróleo não membros, liderados pela Rússia, para conter a produção?
Tudo começa com o coronavírus. O caso da Rússia versus OPEP é já uma consequência, em que a Rússia vê os preços a baixar por causa do coronavírus e acha que tem de compensar o efeito de abaixamento das receitas decorrente do preço baixo, com mais quantidades. O que a Rússia não esperava era uma reacção da Arábia Saudita, nos termos em que o fez, do tipo olho por olho.

Mesmo que volte a haver acordo, este braço de ferro vai ter consequências?
Vai. Há sempre receitas que são perdidas. Por outro lado, se o coronavírus não for estancado, a situação tende a piorar, não se vai limitar a um simples abaixamento da produção versus preço, porque se a procura por petróleo não aumenta nenhum acordo para reduzir a produção vai ter eficácia.

Há ideia neste momento de quanto foi a quebra no consumo de petróleo mundial?
Não tenho os números exactos. Mas, a partir do momento que a China, que é o maior consumidor mundial de petróleo está na situação em que está, não há dúvida como afecta os países emergentes, com destaque para o Brasil, e os países africanos dependentes do petróleo, como é o caso de Angola.

A Reuters estima que a queda no preço do barril poderá custar 500 milhões USD por dia, em perdas de receitas, aos membros da OPEP. O que representa para Angola?
Uau, uau... Angola está numa situação difícil. Nós temos a parte fiscal do Orçamento, que é composta pelas despesas correntes e pelas despesas de capital. Do ponto de vista das despesas de capital, Angola já largou quase tudo. Uma grande parte das obras públicas está parada, sendo que as despesas que restam são fundamentalmente carros, mobiliário para os escritórios de ministérios, etc. não é nada que estimule a economia.

A despesa corrente também não estimula a economia?
Não, é para manutenção dos salários, do aparelho administrativo, que é muito grande. Assim sendo, uma quebra nas receitas petrolíferas tem um grande impacto, sobretudo sobre as despesas financeiras, ou seja, as despesas não fiscais, nomeadamente no que respeita aos reembolsos ou amortização do serviço da dívida. Bem antes do coronavírus, nós, no Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola, falávamos em reestruturação da dívida pública, sobretudo a dívida externa. (...)

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