"Em algum momento da minha poesia, desperto para a economia"

"Em algum momento da minha poesia, desperto para a economia"
Foto: Lídia Onde

A poesia, como arma de intervenção social, inspira o movimento spoken word, que em Luanda cresce todos os dias, com mais de 50 artistas activos. Se a Covid-19 não trocar as voltas, Nzola Kuzedíua vai representar o País, em dois eventos internacionais, este ano.

Porque abraçaste o spoken word? Achei curiosa a form a como te apresentaste em palco, a dizer "atenção, eu tenho um curso".
[Risos] Tenho sim, tenho dois, até. Fiz direito e estou a terminar ciências da comunicação. Sempre gostei de arte, mas nunca fui muito inclinada para a poesia. Sempre escrevi, sempre gostei de música e a rima sempre me suscitou curiosidade. Sempre que escrevia, rimava. Uma vez fui a um evento de poesia e a poesia me escolheu. As pessoas estavam a ler, à vontade, sem esforço, e eu disse: porque não? Subi ao palco e comecei a ler o texto "E se Deus fosse africano".

É tum exto da tua autoria?
Sim. Todos os textos são meus. Quando terminei, todas as pessoas gostaram e deram um nome ao que eu fazia, spoken word. Passei a escrever cada vez mais, a participar em eventos, as pessoas a reverem-se no que escrevia, porque escrevo sobre a realidade social. Eu venho da periferia e aí há muito do que falar. Eu falo de tudo. Tenho um texto, que gosto muito, que é "Órfão de pai vivo", que é o que sou. O que escrevo é sobre a minha realidade, a do meu município.

O que é o órfão de pai vivo?
Criei o termo para falar da fuga à paternidade, os pais existem, mas os filhos não os conhecem.

Foste criada pela tua mãe?
Sim. Ela é o meu pai e a minha mãe. Ao viajar na poesia, criou-me paixão, porque é aí que consigo desabafar. Tenho uma vida muito corrida, e tem de haver um momento para desanuviar, encontrei isso na poesia.

A tua poesia é muito teatral. É estratégia?
É para tornar peculiar a minha arte, para não ser mais uma. Não gosto de estar no palco a ler, ou a debitar palavras, não prende, não capta a atenção. Os gestos fazem parte. É como uma música, prende e envolve tudo: a voz, a letra, a sonoridade. Eu coloquei isso na minha poesia, tem uma performance, mais métrica.

Escreves espontaneamente ou com técnica?
No princípio, não tinha essa preocupação, hoje tenho. A minha poesia, por ser muito interventiva, muito real, faz com que as pessoas se revejam. Percebi que tudo o que dizia emocionava as pessoas e que tinha de ter cada vez mais cautela, sobretudo em assuntos delicados, porque podia ferir alguém. Tive de ler mais, é uma preocupação, porque estou a lidar com o público. O artista cria o seu mundo e envolve várias pessoas nele, então, tem de ter muito cuidado com o mundo que oferece às pessoas.

Ficaste surpreendida com a reacção das pessoas?
Muuiiito. A primeira vez que tive uma grande reacção foi com o poema "Órfãos de pai vivo". Como sou órfã de pai vivo, declamei com emoção e as pessoas percebem, a voz fica meio trémula. Aquela sala tinha 300 pessoas e pareceu-me que metade eram órfãos de pai vivo. As pessoas levantaram-se emocionadas, havia mais lágrimas nos olhos delas do que nos meus. É isso que quero. Ninguém lida com as situações da mesma maneira, há quem guarde um grande rancor . Falo nisso exactamente para desprender o ódio que as pessoas possam sentir.

Não queres rancor, queres o quê?
Primeiro, consciencializar os pais e também os filhos de que talvez tenham sorte. Eu tenho muita sorte, tenho uma mãe, que virou meu pai também.

Dá para viver da arte no País?
Não. Um ou outro caso, mas entrar de cabeça é muito arriscado, porque é uma arte nova. Os nossos eventos são na periferia, é uma sociedade de renda média- -baixa, é evidente que os ingressos têm de ter um custo acessível, mil, 2 mil kz. E fica complicado, porque temos de pagar toda a produção, o som, a luz, a sala.

O spoken word existe desde quando em Angola?
Começou em 1993. Era um ou outro que fazia, os mais viajados. O spoken word começou nos EUA, com o movimento do hip-hop, com os protestos dos jovens nas ruas, e foi-se expandindo. Um país que, não tarda, vai ser líder é o Brasil. No Brasil, o movimento é gigantesco. Em Angola, já temos a possibilidade de concorrer internacionalmente. No ano passado, venci dois campeonatos, e vou representar Angola, na Etiópia, e no Brasil.

É a primeira vez que representas Angola?
Sim. Mal comecei venci (risos).

Estiveste em palco no 1.º aniversário do projecto Liderança Feminina em Angola. És uma mulher líder?
Sim. Líder é todo aquele que move massas e as ajuda a crescer. É aquele que pensa no bem comum, não só no seu. As maiores líderes que conheço trabalham por causas que nem são delas.

Nessa cerimónia leste um poema sobre o estupro (violação). Porque escolheste um tema tão pesado?
É uma realidade que acontece muito no meu bairro, onde é comum ver adultos envolverem-se com crianças. A nossa sociedade é tão machista que vê o estupro como normal. Uma semana antes, uma menina enviou-me uma mensagem, a dizer que o padrasto a tinha violado. Ela tem 13 anos. Nós chegámos a ir à esquadra móvel, e os polícias perguntaram: "Fizeste o quê para ele te violar?" Eu fiquei incrédula. Ela tem 13 anos, não importa o que fez. Saí de lá com raiva, ela tinha um medo assustador. Depois fui contar à mãe, reagiu como se já soubesse. É aquela mulher dependente do marido. Achei que era um desabafo, pedi desculpa à Eva [Santos], ao público e declamei.

É um desabafo que tem de ser repetido?
Muitas vezes, muitas. As pessoas não falam, calam-se e quantas meninas mais vão ser violadas? Isso destrói vidas.

O spoken word é uma arte que pode gerar economia?
Pode. Primeiro, porque movimenta massas e é nas massas que está a economia. A arte é uma das principais formas de gerar rendimento, não importa qual, é trabalhar com o belo, com o estético. As pessoas gostam de assistir a um espectáculo musical, de ir a uma exposição. Isso tem custos, as pessoas credibilizam o artista e pagam. Eu já tenho produtores que financiam eventos meus, porque sabem que têm rendimento. Nesta sociedade caótica, nalgum momento as pessoas vão ter de parar.

Também escreves sobre temas económicos?
Sim. Já escrevi sobre aqueles rapazes que, no meu bairro, vão buscar água e que cobram preços absurdos. Há famílias que ficam sem água para beber, nem é por não terem dinheiro para pagar a água, mas por não terem para pagar aos jovens. Eu quero um negócio, mas tens de ser flexível. Escrevi sobre isso. É um negócio, mas não podes pisar nas pessoas porque elas não são degraus para ganhar dinheiro. Em algum momento da minha poesia, eu desperto para a economia, porque ela está relacionada com os problemas sociais.

O actual momento económico preocupa-te?
Muito. Primeiro por causa da queda do preço do petróleo. Para países como o nosso é grave. Nós já não estávamos bem economicamente. Se piora para realidades de média e alta renda imagina para nós, de média baixa. Às vezes dá impressão que os nossos governantes não olham para nós. Há 4 anos, em minha casa ficámos 4 dias sem ter o que comer. E não é porque não temos educação económica, somos obrigados a ter, mas foi o disparar absurdo de preços. Angola não tem fiscalização, os comerciantes alteram os preços de forma anárquica, isso não existe num país desenvolvido.

A assistente de bordo que voa com a poesia

Começou a fazer spoken word e, no espaço de um ano, tornou-se gigante na arte de declamar. A forma como a sua poesia toca as pessoas fez Nzola Kuzedíua, Mi em casa e no bairro, perceber que tinha uma importante arma de intervenção social. A sua vida e o bairro são a sua principal inspiração, a mãe e o irmão os seus principais pilares.

Na pasta, tem 23 poemas para um livro, outros tantos a rodopiar na cabeça, enquanto ganha balanço para se lançar num canal do Youtube e levar a sua arte mais longe. Com um curso de direito na mão e o de ciências de comunicação a terminar, esta assistente de bordo na TAAG, de 26 anos, já levantou voo. Como se vê.

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